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Deus proverá?
O Digimais, de Edir Macedo, ganha alguns dias para cobrir um rombo de 2 bilhões de reais
O bispo Edir Macedo, líder e fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, é um dos homens mais ricos do planeta. Tem um patrimônio avaliado em 2 bilhões de dólares, o equivalente a 10 bilhões de reais, segundo a lista da revista Forbes. É o único brasileiro, e talvez um dos poucos no mundo, a ter sob controle uma igreja, a Universal, uma rede de televisão, a Record, um banco, o Digimais, e um partido político, o Republicanos, com 42 deputados federais, 17 deles bispos, pastores e obreiros da igreja, e 429 prefeitos espalhados pelo País. O império de Macedo reúne ainda mais de cem outras empresas, como hospital, plano de saúde, seguradora, produtora, rádios, portal e jornais.
Macedo é também um homem agraciado. O bispo acaba de alcançar mais um “milagre” na Justiça, a prorrogação até 15 de setembro do aporte de 2 bilhões de reais para evitar a liquidação do Digimais e concluir a transferência dos ativos ao BTG, controlado por uma espécie de cardeal do mercado financeiro, o banqueiro André Esteves. A instituição do bispo está sob ameaça de liquidação pelo Banco Central em razão de grave crise financeira e de denúncias de desvios. O fundador da Universal está com dificuldades de levantar os recursos e, dizem fontes que acompanham de perto o desenrolar do processo, terá de recorrer ao caixa de outras companhias do conglomerado, seja a TV Record, seja a própria holding.
A Operação Miragem investiga fraudes na instituição. Macedo nega qualquer responsabilidade – Imagem: Rafael Neddermeyer/Agência Brasil
O Digimais foi alvo da Operação Miragem, da Polícia Federal, em junho. O BC e a PF apuram crimes de gestão fraudulenta, superavaliação artificial de ativos e a inserção de dados falsos em demonstrativos contábeis para esconder um rombo estimado em 8,5 bilhões de reais. Executivos do banco foram alvo de quebra de sigilo bancário e fiscal e do confisco de 670 milhões em bens e valores. O presidente, Aldemir Bendine, que assumiu em dezembro, teria acabado de deixar o cargo, mas a demissão ainda não foi anunciada ao mercado.
O aporte de 2 bilhões de reais seria uma condição estabelecida pelo BC, de acordo com gente próxima à Universal e ao Digimais, para a venda ao BTG Pactual ser aprovada. Em tratativas iniciais, o aporte necessário para suprir o déficit foi definido em 7 bilhões de reais, por conta das operações de crédito sem lastro e pelas inserções de dados em balanços sob apuração. O BTG confirmou ter selado um acordo para adquirir o Digimais, em anúncio aos investidores em abril. A operação depende de um acerto entre outros possíveis interessados e concorrentes e a aprovação de órgãos reguladores, entre eles o Conselho Administrativo de Defesa Econômica. O banco de Macedo havia investido cerca de 600 milhões de reais em carteiras de crédito vinculadas ao Banco Master, de Daniel Vorcaro, preso desde março sob a acusação de operar um esquema bilionário de fraudes. Como o Master, o Digimais mantinha na tesouraria créditos de origem duvidosa e captava recursos com taxas acima daquelas oferecidas pela maioria dos concorrentes. Para o BC e a PF, trata-se de gestão temerária. A instituição foi flagrada em práticas semelhantes àquelas do Master, entre elas a superavaliação dos ativos.
De onde sairá o dinheiro? Dos cofres da Igreja Universal? Do faturamento da TV Record?
Em representação encaminhada à 7ª Vara Criminal Federal de São Paulo que embasou a busca e apreensão, sequestro de valores e bloqueio de bens e quebra de sigilos bancário e fiscal dos investigados, a PF afirma que o Digimais, cuja operação passou a se focar no crédito consignado e financiamento de veículos após ser adquirido pelo bispo, “adotou práticas financeiras temerárias e estreitamente análogas às do extinto Banco Master”. Ainda segundo os investigadores, documentos comprovam “a captação agressiva de recursos mediante a oferta de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com taxas atípicas de mercado” e “a controversa operação de cessão de uma carteira de direitos creditórios milionária ao fundo FIDC EXP 1, a qual revelou conter uma expressiva quantidade de contratos desprovidos do devido lastro documental”. O banco, prosseguem os federais, sofreu “uma severa deterioração de seus indicadores financeiros”, caracterizada por prejuízos expressivos, alta inadimplência e pela necessidade de sucessivos aportes de capital do controlador. “Além disso, a partir dos anos 2023 e 2024, começou a emitir Certificados de Depósito Bancário com taxas superiores a 110% do CDI, o que, atrelado à posterior decretação de liquidação extrajudicial do Banco Master, em novembro de 2025, evidenciou uma exposição de, aproximadamente, 600 milhões de reais do Banco Digimais a carteiras de crédito da instituição liquidada, cujos ativos passaram a ser objeto de questionamentos quanto à qualidade, lastro e regularidade documental.” O ex-sócio e executivo do Master Maurício Quadrado tentou adquirir o Digimais em janeiro do ano passado, por meio da holding Bluebank. A operação foi, no entanto, vetada pelo Banco Central, “em virtude dos riscos relevantes associados ao histórico e aos vínculos do proponente”.
O Digimais negociava fundos do finado Master e ficou com o mico nos cofres – Imagem: Rovena Rosa/Agência Brasil
A Operação Miragem focou sobretudo os ex-presidentes da instituição João Luiz Urbaneja e Thiago Rodrigues Urbaneja. João Luiz é bispo da Igreja Universal e Thiago, que o sucedeu no posto, é seu filho. Os dois constam também como diretores da B.A. Empreendimentos, holding do Grupo Universal. A Rede Record de Televisão é a controladora da B.A., que, por sua vez, detém o controle do Digimais. A B.A. atua como braço financeiro da Record. Outros alvos da operação foram os diretores Marcelo de Lima Brasil, João Alves de Campos e Rodrigo Ruggero, e os sócios e administradores da corretora ID, José Roberto Giancoli Filho e Rodrigo Balassiano.
O acordo com o BTG previa o aporte em 14 de agosto, mas o Digimais não conseguiu cumprir a determinação. “Uma capitalização deve ser necessária para restabelecer o patrimônio líquido do banco, na medida em que o valor das cotas dos fundos passe a refletir o valor dos ativos com problemas, como, por exemplo, as operações de crédito em atraso”, explicou o analista de instituições financeiras da Austin Rating, Luís Miguel Santacreu. Caso a instituição de Macedo não faça o novo aporte, não só a venda fica sob risco, mas a própria sobrevivência do Digimais. Nesse caso, os responsáveis pela instituição arcarão com os prejuízos. Ao decretar a liquidação extrajudicial, o BC tem, entre outras, a opção de reter os bens dos controladores. Os responsáveis ficam proibidos de vender, doar ou transferir patrimônio particular.
João Luiz e Thiago Urbaneja, pai e filho, dão as cartas no banco da Universal neste momento – Imagem: Redes Sociais
A Record, segundo executivos e religiosos ligados à Universal, tende a arcar com a maior parcela do aporte de 2 bilhões de reais necessários para salvar o banco da falência. Outra parte deverá sair dos cofres da Igreja Universal – em última instância, do dízimo dos fiéis. Em 2022, o grupo havia injetado 2 bilhões de reais no Digimais, em razão de prejuízos derivados de uma carteira de veículos durante a pandemia da Covid-19. Em dezembro de 2025, outros 250 milhões foram transferidos, valor insuficiente para cobrir o buraco. Segundo uma fonte próxima à Universal, a Record colocou à venda imóveis da emissora, a fim de levantar o montante. A ideia seria fechar uma operação interna, no próprio grupo, para a venda e compra desses imóveis. As conversas e negociações para tentar consumar a venda do banco têm sido lideradas por Marcus Vinicius Vieira, CEO da Record, bispo da congregação e filho do pastor e ex-deputado federal Laprovita Vieira, morto em 2020, personagem importante e influente no processo de compra da TV Record pela igreja, em 1989, quando o canal ainda pertencia à família Machado de Carvalho e ao apresentador e empresário Silvio Santos. Laprovita era próximo de Macedo desde os primórdios da Universal, em 1977. Vieira teria designado dois pastores de sua total confiança, Marcelo Bianco e Eduardo Guedes, para atuar e tomar decisões no banco –, representando na prática a instituição, sem autorização do BC para tanto. Escanteado das decisões, Bendine teria, por essa razão, optado por deixar a presidência.
Embora proprietário, Macedo tenta se desvencilhar dos problemas do Digimais. Em um áudio que circulou nas redes sociais, o bispo diz que nada tem a ver com as irregularidades. “Não ganhei um centavo desse banco. Eu não tenho nada com esse banco. Isso é o que me deixa com a consciência limpa, por termos sido corretos com respeito à lei. Estamos fazendo tudo de acordo com a lei.” A declaração teria sido dada em junho, durante um encontro com pastores da Universal em Portugal. Na gravação, o bispo atribui eventuais responsabilidades aos executivos. “Nós delegamos às pessoas autoridade. E se as pessoas fizeram errado, se conduziram de forma errada, o que a gente pode fazer?” O áudio veio a público por intermédio do ex-pastor Davi Vieira em um canal próprio nas redes sociais. Sobrinho de dois bispos da igreja, Vieira, que deixou a denominação por divergir de suas práticas, disse ter recebido a gravação de auxiliares de Macedo.
O Digimais é acusado de gestão fraudulenta, superavaliação artificial de ativos e inserção de dados falsos em demonstrativos contábeis
Em uma pregação a fiéis, também em junho, o bispo disse estar “tranquilo” e “em paz com Deus” depois da operação da PF. Aos seguidores, afirmou confiar que seus adversários serão derrotados “como os do passado”. A Universal, em nota divulgada após a batida da PF, informou que Macedo “não integra a administração executiva nem participa da gestão operacional, financeira ou contábil” do Digimais. E atribuiu os malfeitos aos funcionários. “A condução das atividades é de responsabilidade exclusiva dos executivos e profissionais legalmente habilitados para responder perante os órgãos reguladores. Reiteramos nossa plena confiança na lisura das apurações conduzidas pelas autoridades competentes. Os advogados acompanham o processo de perto para garantir a rápida elucidação da verdade.” Também sobrou para os jornalistas. “Infelizmente, não podemos expressar a mesma confiança em alguns veículos de notícias que historicamente, há décadas, alvejam o bispo Macedo e a Igreja Universal com notícias falsas, tendenciosas e maldosas”, diz a nota.
Na representação à Justiça, a PF cita a corretora ID, que teria participado da administração de fundos do Digimais e comandado uma “contínua superavaliação artificial de ativos para inflar o balanço da instituição e permitir uma maior emissão de CDBs”. São apontadas como exemplos dessa superavaliação, a partir de uma reportagem da revista Piauí, a precificação de títulos antigos e sem valor da mineradora Vale em 650 milhões de reais, a avaliação de um terreno em Pernambuco por 150 milhões, quando o valor de fato seria inferior a 10 milhões, e uma carteira de automóveis inflada e estimada em 3,5 bilhões de reais. O Digimais teria ainda substituído a empresa de auditoria por três vezes consecutivas, a partir de 2024, segundo a PF, com o aparente objetivo de esconder “ressalvas contábeis” sobre suas carteiras de crédito.

Até 2019, o Digimais se chamava Banco Renner, então pertencente à família que controla a famosa rede varejista de mesmo nome. Em 2009, Macedo havia adquirido 40% das ações e, quatro anos depois, após novo acerto entre as partes, o porcentual chegou a 49%. À época, a então presidente da República, Dilma Rousseff, deu um auxílio ao bispo. A aquisição só foi concretizada, em 2013, graças a um decreto de Dilma. Por terem residência oficial no exterior, Macedo e sua mulher, Ester Eunice Bezerra, entraram no negócio como investidores estrangeiros. A presidente precisou então aprovar a transação.
A relação da Universal com a esquerda oscilou. No início, a igreja tinha uma postura ácida. Em veículos de comunicação do conglomerado, como a Folha Universal – com tiragem semanal de 1,7 milhão de exemplares –, Lula e o PT chegaram a ser comparados a demônios. Por um período, estabeleceu-se uma aliança. Quando o petista chegou ao Palácio do Planalto pela primeira vez, em 2002, a Universal aderiu ao governo. E se manteve alinhada até o impeachment de Dilma, em 2014. O bispo e ex-prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, atualmente deputado federal e candidato ao Senado, foi ministro de Dilma. Crivella é sobrinho de Macedo e chegou a ser cogitado pela cúpula como possível candidato à Presidência da República. O ex-bispo George Hilton ocupou o Ministério dos Esportes na mesma gestão.
A TV Record será convocada a cobrir grande parte do rombo do Digimais – Imagem: Redes Sociais
Na eleição de 2018, Macedo e a Universal decidiram apoiar Jair Bolsonaro. Um ano depois, o bispo se tornou sócio majoritário do Banco Renner e mudou o nome da empresa. A instituição financeira passou a oferecer empréstimos, leasing e financiamentos a cerca de 5 mil funcionários, colaboradores e fornecedores da TV Record. E descobriu uma nova seara, ao se tornar patrocinador de alguns dos principais times de futebol do País, entre eles Cruzeiro, Athletico Paranaense, Fortaleza e Sport. O marketing durou duas temporadas.
Não é o primeiro enrosco de Edir Macedo com uma instituição inanceira. Nos anos 1990, o Crédito Metropolitano enfrentou diversas acusações
A aquisição do Renner não foi a única investida de Macedo no mercado financeiro. O bispo foi dono do Banco de Crédito Metropolitano, que encerrou as atividades nos anos 1990. Por determinação do BC, foi transformado em uma financeira e depois em uma factoring (empresa de fomento comercial), a Credinvest Facility. O Crédito Metropolitano, como o Digimais, tornou-se uma fonte de dor de cabeça. A instituição acabaria acusada de sonegar Imposto de Renda, além de fazer empréstimos irregulares a sócios e empresas do Grupo Universal e burlar normas legais nos investimentos em concorrentes. Dois ex-presidentes, o então bispo Paulo Roberto Conceição e o executivo Ricardo Arruda, e os ex-diretores Alba Maria da Costa e Luiz Cláudio Jovino foram processados por crimes contra o sistema financeiro nacional. Os quatro acabaram multados e inabilitados. Costa por cinco anos. Arruda, Jovino e Conceição, por três. Jovino também foi condenado pelo Tribunal Regional Federal da 3ª Região a cinco anos de prisão em regime semiaberto, por gestão temerária. Arruda atualmente é deputado estadual pelo PL do Paraná e missionário da Igreja Mundial do Poder de Deus, do apóstolo Valdemiro Santiago. Fiscais e auditores do Banco Central e da Receita Federal detectaram 213 irregularidades na instituição, conforme divulgado à época. Foram aplicadas, no fim de 1996, multas no total de 13 milhões de dólares.
Não se sabe, ao menos por enquanto, se o Digimais chegou aonde chegou exatamente por conta dos conselhos e orientações dos executivos. Entre fevereiro de 2024 e 8 de dezembro de 2025, uma das integrantes do Conselho de Administração foi Daniella Marques, braço direito do então ministro da Economia Paulo Guedes no governo Bolsonaro. Marques presidiu a Caixa Econômica Federal e, ao sair do governo, tornou-se CEO e presidente da Legend Capital, que prestou assessoria ao banco de Macedo no processo de venda ao BTG. A executiva desfila atualmente por convescotes do mercado financeiro e do setor empresarial como coordenadora do programa econômico de Flávio Bolsonaro.
Bendine estaria de saída. Vieira , CEO da Record, tem antiga relação com o bispo. Daniella Marques ainda se arvora a dar lições de boa gestão financeira – Imagem: Valter Campanato/Agência Brasil, Redes Sociais e Marcos Oliveira/Agência Senado
Procurada, a Universal não respondeu aos pedidos de esclarecimento. O Digimais informou que as perguntas apresentadas envolvem aspectos societários, regulatórios, administrativos, financeiros e jurídicos em análise. “Por envolverem apurações e tratativas institucionais em curso”, prossegue a nota, “os temas serão tratados pelos canais competentes, com base em informações formalmente confirmadas e nos limites legais aplicáveis. Eventuais decisões sobre administração, capitalização, estrutura societária ou operações envolvendo o banco serão divulgadas oportunamente”. •
Publicado na edição n° 1428 de CartaCapital, em 02 de setembro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Deus proverá?’
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