Cultura
“Imagina: filme de sexo!”
A partir de um velho motel como cenário, Jorge Furtado faz uma comédia sobre o delirante mundo dos algoritmos
Jorge Furtado estava na faculdade de medicina quando entendeu que aquela profissão não fazia sentido para ele e resolveu estudar jornalismo e artes plásticas. Mas no meio desse novo caminho apareceu um filme: o Super-8 Deu Pra Ti Anos 70 (1981), de Giba Assis Brasil e Nelson Nadotti. Ao assisti-lo, Furtado descobriu que havia em Porto Alegre quem fizesse cinema. E pensou: se há quem faça, também quero fazer.
Depois disso, não levou muito tempo para que começasse a trabalhar na tevê educativa e fincasse os pés no audiovisual. Desde seu primeiro curta-metragem, O Temporal (1984), 42 anos se passaram.
De lá para cá, Furtado fundou, com amigos, a Casa de Cinema de Porto Alegre; fez, como roteirista, 40 adaptações literárias; trabalhou durante 35 anos consecutivos para a TV Globo; e ganhou muitos prêmios em festivais.
Em vários momentos da carreira, tentou fazer o público rir e, de preferência, ao mesmo tempo se emocionar. Mas fazia uns bons anos que não dirigia sozinho uma comédia para o cinema. Muito Prazer, em cartaz desde a quinta-feira 27, é seu retorno ao gênero.
Imagem: Fábio Rebelo
Estrelado por Daniel Oliveira, Luisa Arraes e Catharina Conte, o filme se passa em um motel e retoma um tipo de piada e um ritmo cinematográfico característicos de parte de sua filmografia. Nas últimas duas semanas, Furtado viajou o País para acompanhar as pré-estreias e divulgar o longa-metragem. Em uma delas, no Espaço Petrobras, em São Paulo, recebeu CartaCapital. Naturalmente falante, pediu apenas para que a conversa não se estendesse demais porque queria acompanhar a projeção.
CartaCapital: Você sempre vê as sessões?
Jorge Furtado: Sim, e aprendo horrores, principalmente em comédia. Tu vê o tempo da piada e pensa: “Essa tinha que ser mais longa; essa eu achava boa e não funcionou; isso nem é tão engraçado, mas funciona”. Gosto de assistir porque aprendo sobre mim mesmo. Neste filme, tem uma piada sobre o vazio, e só no Rio Grande do Sul as pessoas riram. Eu não tinha me dado conta de que vazio é um corte de carne que no Brasil vocês chamam de fraldinha. Os gaúchos riram muito. Mas só eles.
CC: Qual foi o ponto de partida de Muito Prazer?
JF: Os algoritmos. Quando isso começou, lembro de estar na Netflix e aparecer aquilo: “Se você gostou desse filme, vai gostar desse outro”. Não, gente! Não vou (risos). E como funciona o algoritmo com sexo, amor e paixão? Os sites pornô começaram a fazer categoria, mas a sexualidade humana é fluida, complexa, quase individual – eu acho. No começo, os sites tinham duas categorias: straight e gay. Agora têm 640 categorias diferentes. A pornografia no Brasil rende 530 milhões de acessos por mês. Aí também pensei no motel, porque é um espaço com uma arquitetura do erotismo: suíte Grécia, Roma, Veneza. Na pesquisa, achei, em Curitiba, um motel que tinha a suíte Lava Jato, com fotos do Lula preso e do Moro na parede. Será que tem gente que acha isso erótico? Tem suíte que reproduz o balcão de embarque de aeroporto!
“Na pesquisa para o filme, achei, em Curitiba, um motel que tinha a suíte Lava Jato, com fotos do Lula e do Moro”
CC: Mas os personagens estão ali não exatamente porque tenham grande interesse em sexo.
JF: Pois é, o cara herda um motel do tio e descobre que herdou, na verdade, um monte de dívidas. Pensei numa história de jovens sem dinheiro. Porque tem toda uma geração meio sem profissão, sem futuro, que tenta descobrir, na internet, uns caminhos para ganhar uma grana. O cara está meio errado de fazer o que faz, mas ele foi assaltado. Aí os três, juntos, vão indo, indo e, daqui a pouco, estão cometendo um crime. Felizmente, é comédia, então termina tudo bem. Eu queria que as pessoas torcessem por eles, embora o que eles fazem seja inacreditável. Já me dei conta de que todos os meus filmes falam em dinheiro.
CC: Um deles fala, inclusive, do dinheiro no cinema brasileiro: Saneamento Básico. Esse é o seu filme que mais ficou? No sentido de continuar sendo visto, falado.
JF: Vou te mostrar (pega o celular): uma tatuagem do monstro do fosso (personagem do filme dentro do filme). As pessoas são fãs. E, com o Oscar, bombou de novo. Muitos norte-americanos entraram no Letterboxd para ver o Wagner Moura e a Fernanda Torres.
CC: (O curta-metragem) Ilha das Flores também segue sendo muito visto, não?
JF: Sim, mas, nesse caso, parece que as pessoas nem sabem que eu existo (risos). Sabem que é “o filme do tomate”. Ele passa em muitas escolas pelo mundo – no Japão, na Finlândia. Uma vez me mandaram um jogo de madeira baseado no filme, feito na França, para ensinar biologia, ecologia, economia, com uns bonequinhos superbonitinhos.
Clássicos. Ilha das Flores virou jogo na França e é exibido em escolas de países como Finlândia e Japão. Saneamento Básico passou a ser visto nos EUA com as indicações de Fernanda e Wagner ao Oscar – Imagem: Casa de Cinema de Porto Alegre e Columbia Pictures
CC: Você parece ter grande disposição para estar sempre fazendo coisas diferentes. Fez até (com Guel Arraes) uma adaptação de Grande Sertão: Veredas para uma periferia distópica.
JF: O cara faz qualquer coisa (risos). Olha, eu tenho um ídolo total, que é o Billy Wilder, um grande roteirista que virou diretor e fez grandes filmes de todos os gêneros. O Kubrick também vivia mudando de gênero. As pessoas dizem: “Pô, 2001 – Uma Odisseia no Espaço e Doutor Fantástico não têm nada a ver”. Não têm mesmo. No meu caso, procuro que não tenham nada a ver um com outro. Às vezes, não consigo e saem coisas parecidas. Mas Virgínia e Adelaide, meu longa-metragem anterior, é documentário sobre psicanálise e este novo é comédia, cheio de piadas.
CC: Mas ele tem muito do espírito de Saneamento Básico e O Homem Que Copiava.
JF: O Domingos Oliveira uma vez me disse: “Entendi seu truque! Seus filmes não têm vilão”. É verdade. Meus personagens podem ser meio errados, mas são todos bons, e eu quero que todo mundo se dê bem. Em O Homem Que Copiava eles fazem uma bomba, matam uma pessoa e, mesmo assim, dá tudo certo. Não tem a música dos Titãs, Eu só quero saber do que pode dar certo? Eu só quero saber do que pode dar errado (risos). A gente também tem de fazer coisas que podem dar errado, experimentar. O importante é ir mudando de erro (risos). Imagina: filme de sexo. Nunca fiz isso na vida. E agora fiz, todo mundo transando o tempo inteiro no motel. Aí invento um jeito de fazer isso e me divirto. E cinema é trabalho de equipe. A Casa de Cinema é uma turma, estamos juntos há 40 anos. O Giba (Assis Brasil) montou todos os meus filmes. A gente se reúne, um dá mil palpites no trabalho do outro. E o elenco entra nessa também: chamo os amigos. A Drica (Moraes) é uma que chamo sempre que posso. Com o Daniel já trabalhei 500 vezes e a Luísa eu vi nascer.
“A gente também tem de fazer coisas que podem dar errado. O importante é ir sempre mudando de erro”
CC: Ser um diretor de cinema que trabalhou a vida toda para a televisão também explica o tipo de cineasta que você é?
JF: Trabalhando na televisão a gente escreve todos os dias. No cinema, você faz um filme a cada quatro, cinco anos. Fiquei 35 anos na Globo, sempre fazendo uma série atrás da outra. Esses dias fui falar sobre adaptações e descobri que já fiz 40 adaptações para tevê e no cinema, desde meu primeiro curta, O Temporal, baseado num conto do Veríssimo. O próximo filme, Os Supridores, do José Falero, vai ser a 41ª. Adoro fazer curta-metragem. Na pandemia, o Kleber Mendonça Filho me convidou para fazer um curta de cinco minutos para o Instituto Moreira Salles. Se chama Cretinália, e é sobre o Bolsonaro – o cara defendendo a cloroquina. Fiz sozinho, em casa.
CC: Antes de você voltar para a sala, queria fazer uma última pergunta, sobre comédias. A gente teve um ciclo forte de comédias de sucesso no cinema brasileiro. Isso arrefeceu depois da pandemia?
JF: Se tu pega a lista dos 20 maiores sucessos de bilheteria do Brasil, mais de dez são comédias. E, na história, com a chanchada, o Oscarito, o Brasil sempre fez comédia. O povo sempre gostou. Mas existe um preconceito – em festival, por exemplo. Que comédia ganhou Oscar? Lembro do Annie Hall (Noivo Neurótico, Noiva Nervosa). É raríssimo. Parece que é um gênero menor, mas não é. Eu tento fazer filmes duráveis, que transcendem a necessidade de só fazer rir. Tem filme que você vê hoje, ri, e amanhã não lembra mais. E tem os que continuam hilários, como Quanto Mais Quente Melhor. Meu gênero preferido são as comédias tristes, como as do Ettore Scola. Sempre vai ter comédia, sempre. Algumas duram mais do que o verão delas; outras são facilmente esquecidas. No fim, o que eu quero saber é se eles estão rindo da piada certa, na hora certa. •
Publicado na edição n° 1428 de CartaCapital, em 02 de setembro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘“Imagina: filme de sexo!”’
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