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A fênix psicodélica

Aniquilada pela ditadura e anistiada 50 anos depois, a banda Ave Sangria renasce para uma nova geração

A fênix psicodélica
A fênix psicodélica
Vendavais. "Enquanto pudermos colocar as palavras certas na cabeça dos jovens, fazendo com que pensem por si mesmos, nosso trabalho não morre" – Imagem: Flora Negri e Redes Sociais
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Quem vai a um show do Ave Sangria talvez não entenda como aquela psicodelia tão marcante dos anos 1970 consegue, ainda hoje, dialogar com tanta facilidade com uma juventude que nem sonhava em vir ao mundo quando a banda fazia sucesso e teve sua trajetória abreviada pelos anos de chumbo. Jovens como Everton ­Albuquerque­, historiador de 25 anos, que não perde um show e conhece as letras das músicas como se tivesse vivido aquele tempo – um tempo de repressão, marcado por mortes, torturas, sequestros e perseguições. Entre o auge do Ave Sangria e a descoberta de Albuquerque há um longo hiato de 40 anos. Quatro décadas separavam a banda de um jovem que nem sequer havia nascido quando ela foi silenciada. O tempo passou. A música, não.

Em 1974, o primeiro disco do Ave Sangria, de título homônimo, foi retirado das prateleiras das lojas, depois que a música Seu Valdir, uma das mais tocadas nas rádios, foi censurada. A canção, que falava da relação de amor entre dois homens, foi escrita por encomenda para ser gravada pela atriz Marília Pêra. “Ela depois desistiu e eu resolvi gravar para peitar um machismo muito brabo que havia no Recife naquela época. Muito pior do que existe hoje”, lembra Marco Polo, vocalista do Ave Sangria e autor de Seu Valdir. A censura representou uma sentença de morte para uma banda que, naquele momento, revolucionava a cena musical do Nordeste e se apresentava com um futuro promissor, interrompido como tantas outras manifestações culturais vítimas da ditadura. A reparação levaria mais de meio século e só veio em março deste ano, quando a Comissão de Anistia pediu desculpas, em nome do Estado brasileiro, e indenizou os integrantes da banda, que se tornou o primeiro grupo musical do País a ser anistiado por ter sido vítima do regime militar. “A perseguição foi uma coisa traumática. Quando o disco foi retirado das rádios e das lojas, a banda perdeu o rumo, se desestimulou, acabou tudo aí”, descreve Polo.

O silêncio, porém, não seria definitivo. Impulsionado pela curiosidade de uma nova geração de fãs e pelo renascimento do vinil no fim dos anos 2000, o Ave Sangria foi redescoberto. E voltou oficialmente em 2014. É como se o tempo, depois de tanto afastamento, resolvesse devolver à banda o público que a história lhe havia tirado. “Houve um crescendo de paixão de uma juventude que, aos poucos, percebeu a banda e quis ver o nosso trabalho ao vivo”, destaca o músico. Para ele, essa conexão vem do espírito jovial da banda e das letras surrealistas, que abrem um leque amplo de interpretações. “Tem a rebeldia, a alegria e a busca por liberdade. Nessa nova fase, somos dois velhinhos que os jovens aceitam como iguais, porque temos o mesmo espírito que eles”, diz Polo, referindo-se a si mesmo e ao guitarrista Almir de Oliveira. Hoje, os dois setentões são os únicos remanescentes da formação original – os lendários guitarristas Ivinho e Paulo Rafael faleceram após o reencontro do grupo.

Em 2019, eis que surge o segundo álbum da banda: Vendavais. De acordo com Polo, a ideia era fazer um disco como se fosse produzido no ano seguinte àquele de 1974. “Mantivemos um repertório de época, que a gente achou que ainda tinha validade nos tempos de agora, com a mesma sonoridade, timbre e ímpeto daquele ‘rockão’ puro dos anos 70. Uma forma de sobreviver ao tempo. Fizemos um arco por cima desses 45 anos, entre o término e a volta, como se fosse de um ano para o outro”, diz.

A música Seu Valdir foi censurada por falar da relação de amor entre dois homens

“O Ave Sangria é um patrimônio vivo. Os caras são incríveis, têm uma presença de palco espetacular, por isso movem não só um público construído no momento em que eles fizeram sucesso, mas também muitos jovens. Eles capturam uma juventude que não condiz com esse conservadorismo que volta a fazer parte da realidade do Brasil”, comenta Albuquerque, que começou a se interessar pela banda na adolescência, por influência do pai.

Assim como o Secos & Molhados, fenômeno dos anos 1970 liderado por Ney Matogrosso, o Ave Sangria carregava o rock psicodélico em seu DNA. O som do grupo unia o peso de Beatles, Rolling Stones, Jimi Hendrix e Led Zeppelin à riqueza das fontes regionais, bebendo na genialidade de Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro e em ritmos como o xaxado, o xote e o maracatu. “A música do Ave Sangria tem consistência e qualidade excepcionais. Marco Polo não é apenas um letrista, é um poeta, e isso se reflete na força das composições. A banda faz um rock psicodélico contemporâneo que dialoga perfeitamente com a cena atual. É, ao mesmo tempo, antigo e novo. É passado e presente”, avalia o crítico musical José Teles.

Assim como em sua gênese, o som do Ave Sangria busca despertar o senso crítico das novas gerações. “Rock é entretenimento, mas também é conscientização. Enquanto pudermos colocar as palavras certas na cabeça dos jovens, fazendo com que pensem por si mesmos e não como um rebanho atrás de um pastor ou de um político doido, nosso trabalho não morre. Ele continua presente, trocando energia com a juventude”, salienta Marco Polo.

“O Ave Sangria representou um movimento de contracultura nos anos 1970 que continua mais atual que nunca. Ver a psicodelia pernambucana de 50 anos atrás servir, ainda hoje, como referencial de resistência mostra que precisamos evoluir muito como sociedade. A banda esteve na linha de frente contra a ditadura militar e se posiciona, agora, contra o avanço do conservadorismo e do bolsonarismo”, dispara Albuquerque, para concluir: “O Ave Sangria sempre foi um grupo à frente do seu tempo”.

Como projeto futuro, a banda está na produção de um novo álbum e pretende ampliar a agenda de shows, inclusive com voos internacionais. •

Publicado na edição n° 1428 de CartaCapital, em 02 de setembro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘A fênix psicodélica’

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