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Feira livre de crimes

O Telegram hospeda 1.093 endereços ativos de violência sexual contra menores

Feira livre de crimes
Feira livre de crimes
Na escravização virtual, a vida acaba no primeiro nude – Imagem: iStockphoto
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O escândalo recente da adolescente de 13 anos de Naviraí (MS) que foi induzida ao suicídio durante uma live escancarou o horror da escravização virtual que acontece “a céu aberto” na Internet. A plataforma em evidência foi o Discord, mas o Telegram também foi citado pela polícia ao descrever como funciona a dinâmica dos aliciadores e criminosos nesse tipo de prática, que culmina em crimes hediondos que extrapolam o ambiente virtual. Um estudo da ­SaferNet, associação brasileira de defesa dos Direitos Humanos na Internet, indica que, no aplicativo de mensagens, os números podem ser ainda maiores ao revelar que existem 1.093 endereços ativos de violência sexual contra menores. As vítimas são arrastadas para uma verdadeira “feira livre de crimes”, denuncia Thiago Tavares, presidente da ONG. Em uma pesquisa simples, a reportagem de CartaCapital encontrou milhares de vídeos e fotos de estupros e outras violações contra crianças e adolescentes em canais abertos, sem qualquer filtro, bastando uma hashtag.

O termo “feira livre” não é por acaso, já que há muito lucro envolvido a partir de um catálogo infinito de material de violação infantil. Na própria plataforma há ferramentas para a produção de ­deepfakes de nudez através de bots – o deepfake é uma manipulação digital que usa IA para trocar rostos e vozes criando vídeos hiper-realistas. Além disso, o Telegram tem uma plataforma de compra e venda de ativos do app, como nomes de usuários, que utiliza um sistema de pagamento próprio de difícil rastreio, o Telegram Stars, que, no fim do ciclo de vendas, gera comissões à companhia. “Tem gente gerando deepfakes, desenvolvendo ferramentas, vendendo, e as plataformas lucrando com isso”, afirma Tavares. Ao ser questionada por ­CartaCapital, a empresa alega ser “absurdo afirmar que o Telegram lucra com conteúdo explicitamente proibido em sua plataforma, que é sistematicamente removido”. O porta-voz, Jonathan Rose, diz que a rede não processa pagamentos e que seus recursos pagos não oferecem benefício para uso criminoso. O relatório da SaferNet evidencia, entretanto, que o Telegram retém até 30% de comissão em cada saque de Stars de bots de nudificação por IA.

“Minhas vítimas, em 95% dos casos, são meninas com idade entre 6 e 14 anos”, diz a delegada Lisandrea Colabuono

Há 19 anos na Polícia Civil de São Paulo, a delegada Lisandrea Colabuono diz nunca ter visto “nada igual”. “Minhas vítimas, em 95% dos casos, são meninas com idade entre 6 e 14 anos”, declara. Coordenadora do Núcleo de Observação e Análise digital (Noad), a agente explica que as investigações começaram “pelo final”, quando os atentados em escolas eclodiram no Brasil em 2023. “Ao puxar esse fio, identificamos que tudo começa no discurso de ódio.” O primeiro contato com as vítimas costuma dar-se em fóruns abertos ou jogos online, explica Ergon Cugler, da FGV, que pesquisa os grupos de ódio no ­Telegram há anos. Depois de estabelecida uma conexão, a conversa migra para ambientes fechados na própria plataforma ou em aplicativos com criptografia mais avançada, como Signal ou Zangi. Nessa etapa, o aliciador estabelece uma relação afetiva para convencer o alvo, normalmente, a enviar um nude. “Quando a menina manda a primeira foto ou vídeo íntimo, a vida dela acabou”, revela a delegada. O criminoso passa a chantagear, ameaçando compartilhar as imagens com o ciclo social da vítima. “A criança ou adolescente começa a negociar o próprio corpo. E, para não ter esse material vazado, é obrigada a se expor.” Há casos em que a cooptação envolve se cortar com facas ou tesouras, a fim de escrever na pele o nome do aliciador. “Elas passam a pertencer a esse autor.” Esse é o terreno perfeito para as recém-proibidas lives no Discord ou a venda de imagens ilícitas – reais ou reproduzidas artificialmente – no próprio Telegram. De acordo com Colabuono, o Telegram é “muito difícil de monitorar”, não só pelo volume de ocorrências, mas porque seus servidores estão localizados em Dubai. “Eles não se enquadram em nenhuma legislação e só nos fornecem dados com ordem judicial, o que é um absurdo.” Tavares denuncia que “a empresa se orgulha dessa postura”.

A delegada explica ainda que o foco dos produtores de conteúdo ilícito não é monetário. “O objetivo principal é ser visto. Ser reconhecido.” O mais preocupante, avalia, é que, na maior parte dos casos, a família nem imagina o que está se passando. “É comum os pais dizerem que esses criminosos são filhos excelentes, não dão trabalho. Mas online esse filho tranquilo é outra pessoa, é um criminoso que faz meninas se cortarem”, revela.

Imagem: Acervo Pessoal

Quando a SaferNet lançou seu primeiro relatório sobre o Telegram, em 2024, havia um vácuo regulatório. A chegada do ECA Digital, em março de 2026, deu fim à omissão e possibilitou que a ONG protocolasse as informações do último relatório em uma representação formal à Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD). O objetivo é usar esse arcabouço jurídico para punir o Telegram por falha sistêmica e violação do “dever de cuidado” com multas que podem chegar a 50 milhões de reais por infração.

O cerco se fecha com a entrada em vigor, agora em agosto, da Lei 15.487/26 que tipifica como crime hediondo a criação, hospedagem ou moderação de ambientes destinados à violência sexual infantojuvenil, abrangendo expressamente deepfakes gerados por IA. De acordo com o advogado Ariel de Castro Alves, a nova lei “complementa o ECA Digital”. Entre as mudanças está a possibilidade de rondas virtuais e até a infiltração de agentes policiais em graves situações de risco, independentemente de ação judicial, explica o ex-presidente do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, Conanda. Para processar a avalanche de denúncias diárias, a Polícia Federal estruturou o Centro Nacional de Proteção à Criança e ao Adolescente. A papelada deu lugar a uma Interface de Programação de Aplicações que alimenta o sistema inteligente Midos de forma automatizada. Com essa nova ferramenta, os agentes federais podem cruzar dados como IPs, e-mails e transações via Pix para unificar inquéritos e evitar investigações “duplicadas” nos estados.

Ainda cabe à sociedade, porém, contribuir com esse cerco. Tanto Colabuono quanto Cugler defendem a necessidade de “educação midiática” para que crianças e adolescentes aprendam na escola como se portar online em uma ação coordenada com educação sexual. Cabe ainda aos responsáveis no ambiente doméstico verificar o que os filhos fazem, consomem e com quem interagem na internet, sob o risco de responder por abandono de incapaz. “Abandonar crianças e adolescentes na internet hoje em dia é pior do que abandoná-los nas ruas”, conclui Castro Alves. •

Publicado na edição n° 1428 de CartaCapital, em 02 de setembro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Feira livre de crimes’

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