Diálogos da Fé

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Nomes religiosos crescem na esquerda e embaralham o mapa da fé

Em 2022, PT, PSOL e Rede reuniam apenas 18 candidaturas com títulos religiosos. Em 2026, são 45

Nomes religiosos crescem na esquerda e embaralham o mapa da fé
Nomes religiosos crescem na esquerda e embaralham o mapa da fé
Dep. Pastor Henrique Vieira (PSOL-RJ) será um dos nomes do colegiado. Foto: Mário Agra / Câmara dos Deputados
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Eleições 2026

Caíram, em 2026, os registros de candidatura que utilizam títulos ou funções religiosas no nome de urna. A redução pode sugerir o desgaste dos pastores na política ou mesmo o começo do fim da chamada bancada da Bíblia. Mas a realidade, como de costume, atrapalha a manchete, já que a religião tem larga experiência em sobreviver aos próprios obituários.

A queda bruta precisa ser lida ao lado de outro: o total de candidaturas no País também diminuiu bastante, quase 30%. Houve, portanto, uma queda real, mas muito distante do sugerido pela comparação isolada dos números absolutos.

Foram analisados os nomes de urna disponíveis no Portal de Dados Abertos do TSE, procurando títulos e funções religiosas explícitas, como pastor, missionário, bispo, apóstolo, padre, irmão, reverendo, além de nomenclaturas de tradições afro-brasileiras e de outras religiões. Sobrenomes, referências familiares e expressões ambíguas foram inicialmente excluídos. O levantamento não pretende contar todas as candidaturas que possuem religião, já que o TSE não oferece esse dado, mas mede quem escolheu apresentar uma identidade religiosa ao eleitor no próprio nome de urna. Desta forma, os números trazem um retrato da utilização pública da fé como credencial política.

E é justamente aí que aparece o dado mais interessante. Os nomes religiosos apresentam mudança de endereço partidário. Em 2022, PT, PSOL e Rede reuniam apenas 18 candidaturas com títulos religiosos. Em 2026, são 45. Um crescimento de 150% em meio a uma retração nacional beirando os 40%. E não foi porque esses partidos apresentaram mais candidatos, já que, juntas, as três legendas reduziram suas candidaturas de 2.544 para 2.245. A presença de nomes religiosos dentro de suas listas quase triplicou, passando de 0,71% para 2%.

Também seria cômodo explicar o fenômeno apenas pela maior presença das religiões afro-brasileiras. Entre os 45 registros de PT, PSOL e Rede estão 17 pastores ou pastoras, 13 mães, pais ou autoridades de tradições afro-brasileiras, cinco padres, quatro missionários ou missionárias, três irmãos ou irmãs, além de um bispo, um apóstolo e um capelão. A esquerda não se converteu no intervalo entre duas eleições e tampouco os púlpitos abandonaram a direita em uma madrugada de iluminação progressista, mas é fato que, eleitoralmente, a identidade religiosa começa a circular por um espaço partidário menos previsível.

O Novo também oferece um exemplo dessa reorganização. Em 2022, o mesmo protocolo identificou apenas uma candidatura com nome religioso no partido. Em 2026, são 36 candidaturas: 23 pastores, seis irmãos, quatro missionários, dois bispos e um profeta. É verdade que o Novo ampliou muito sua lista geral de candidatos, de 479 para 1.295, mas, ainda assim, isso está longe de explicar sozinho o salto. A proporção de nomes religiosos dentro do partido passou de 0,21% para 2,78%, ou seja, 13 vezes maior. A legenda criada com a promessa de exorcizar a velha política descobriu a utilidade eleitoral do vocabulário eclesiástico. O evangelho do equilíbrio fiscal, aparentemente, também passou a precisar de pregadores.

A dispersão aparece em outros dados. O MDB, e não o PL ou o Republicanos, é o partido com mais candidatos usando o título de pastor: são 26, contra 23 no Republicanos, 23 no Novo e 22 no PL, o que mostra como se tornou insuficiente procurar a presença política da fé em duas ou três siglas conhecidas.

O nome de urna não mede o voto, doutrina, vínculo denominacional e muito menos o apoio institucional, mas mede a apresentação pública, que já gera um desconforto importante para as certezas prontas. A equivalência imediata entre identidade religiosa e direita bolsonarista está ainda menos sustentável. Há pastores na esquerda, mães de santo disputando representação política, padres em diferentes campos e um partido ultraliberal povoando suas listas com títulos eclesiásticos. 

A religião está sendo disputada por mais atores e apresentada em novas embalagens. Para a direita, isso significa perder o conforto de se imaginar proprietária natural da fé. Já para a esquerda, exige-se abandonar a ideia de que dialogar com religiosos é necessariamente aderir ao conservadorismo. As legendas descobriram aquilo que a realidade religiosa brasileira nunca permitiu esquecer: nenhum partido possui o monopólio da fé.

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