Segurança
‘Nunca vi nada igual’: delegada expõe submundo de crimes contra crianças nas redes e descaso de big techs
Lisandrea Colabuono detalha a atuação de núcleo especializado da Polícia Civil de São Paulo no combate aos crimes violentos online e à cooptação de jovens
Em agosto, um relatório da SaferNet expôs 1.093 endereços no Telegram com indícios de violência sexual contra crianças e adolescentes, entre outros crimes. Em meio ao recorde de denúncias registrado em julho de 2026 e à comoção causada pelo suícidio de uma adolescente durante uma live no Discord, CartaCapital entrevistou a delegada Lisandrea Colabuono para entender como funciona a investigação desses crimes nas redes. “Minhas vítimas, na maioria dos casos, são meninas com idade entre 6 e 14 anos”, comenta. “A partir do momento em que ela manda a primeira foto ou vídeo íntimo, a vida dela acabou.”
Lisandrea Colabuono, delegada da Polícia Civil de São Paulo (Foto: Polícia Civil de São Paulo)
Colabuono integra o Núcleo de Observação e Análise Digital (Noad) da Polícia Civil de São Paulo. Em entrevista, ela explica como a corporação atua em conjunto com outros órgãos na prevenção e no combate aos crimes cometidos nas plataformas digitais. Segundo ela, o Brasil hoje conta com uma cobertura legislativa mais robusta, com o ECA Digital e a Lei nº 15.487/2026, que tipifica como crime hediondo a hospedagem de ambientes de abuso e estabelece o dever de cuidado sistêmico.
Segundo a delegada, as plataformas pouco contribuem com as investigações. O Telegram, em especial, costuma atender às solicitações dos investigadores apenas mediante ordem judicial. Se houvesse maior colaboração das empresas, afirma Colabuono, seria possível evitar tragédias e, principalmente, crimes cometidos ao vivo nas redes.
A partir do relatório da SaferNet, CartaCapital investigou como funciona o ecossistema do Telegram e quais são os avanços da legislação brasileira para conter esses crimes online. O resultado está na reportagem “Feira livre de crimes”, publicada na edição 1428 e disponível aos nossos assinantes. Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista concedida pela delegada Colabuono:
CartaCapital: Como a Polícia Civil começou a investigar esse submundo digital?
Lisandrea Colabuono: A partir dos inquéritos policiais instaurados na época dos ataques contra as escolas de 2023, descobrimos que esses atentados foram combinados online, celebrados e transmitidos. Um deles, em Sapopemba [periferia da capital paulista], só não chegou a ser transmitido porque a internet do agressor, menor de idade, falhou.
Vimos, então, a necessidade de mergulhar nesse universo. Comecei inicialmente sozinha, de maneira despretensiosa, e quando vi o que acontecia nesses fóruns… Tenho 19 anos como delegada de polícia e nunca vi nada igual. É muita coisa ruim junto. É surreal.
CC: Como é o comportamento desses jovens e como essa dinâmica se desenvolve dentro de casa e no ambiente virtual?
LC: Eles começam a se encontrar online e não saem de casa. Quando você pergunta para o pai, para a mãe ou para os responsáveis, todos dizem que são filhos excelentes, que não dão trabalho. Mas online ele é outra pessoa: é um criminoso que tortura gatos, que faz meninas se cortarem. O adolescente faz isso para obter pertencimento e reconhecimento dentro de servidores do Discord ou grupos do Telegram. Lá dentro, ele começa a cumprir desafios impostos: quanto mais vítimas fizer ou mais gatinhos matar, mais ele sobe na hierarquia.
CC: É uma dinâmica que já existia no mundo real e passa a ser intensificada no ambiente digital?
LC: Muito intensificada, porque são desafios que eles têm que cumprir. Para um adulto entender é complexo, mas o cérebro do adolescente só vai se formar completamente aos 25 anos, eles são movidos por desafios. Além disso, as famílias não sabem lidar com essa criança ou adolescente porque não têm letramento digital. Normalizou-se o fato de eles estarem jogando no quarto e, se não dão trabalho, está tudo bem.
Nós simplesmente jogamos essa geração no mundo digital sem letramento, sem explicar que o Telegram é perigoso porque tem bolhas e bots ilegais. É um universo maravilhoso para os crimes acontecerem, cercado de falta de conhecimento dos dois lados e com as plataformas lucrando com isso.
CC: E em relação a atuação das plataformas, como o ECA Digital impacta essa dinâmica de responsabilidades?
LC: O ECA Digital foi um avanço, mas percebemos que as plataformas se esquivam. O YouTube, por exemplo, subiu a classificação etária de 14 para 16 anos, por conta das novelinhas das frutas, que usam inteligência artificial de moderação super difícil e trazem coisas perversas. Mas o YouTube diz que não vai tirar do ar, e que compete ao pai ou mãe configurar a conta do filho e vincular à sua própria conta. Mas a maioria da população brasileira não tem condições de fazer isso, não tem a mínima noção de como instalar um controle parental ou não lê os relatórios expedidos.
CC: Quais são as dificuldades de investigar o Telegram?
LC: O Telegram hoje é o pior dos mundos para quem investiga. O servidor está em Dubai, nos Emirados Árabes, a empresa não se adequa a nenhuma legislação e não se reporta ao Centro Nacional para Crianças Desaparecidas e Exploradas [organização norte-americana cuja sigla em inglês é NCMEC]. É muito difícil monitorar o Telegram porque lá dentro tem tudo o que há de pior e eles lucram com isso, inclusive com uma moeda interna que se converte em ‘blockchain’.
O tempo de investigar é um, mas o tempo de salvar uma vida online é outro. A plataforma pode demorar para fornecer dados de um suspeito, mas não pode demorar para entregar os dados mínimos da vítima para que possamos identificá-la.
CC: Como começa o ciclo de aliciamento no ambiente virtual e quem são as principais vítimas?
LC: Nossas vítimas são, em 95% dos casos, meninas de 6 a 14 anos. Elas são cooptadas ou aliciadas em jogos online, ou redes sociais com possibilidade de interação. O agressor inicia uma amizade, depois um namoro virtual e então eles mudam de aplicativo — o preferido hoje é o Zangi, e também o Signal.
A partir do momento em que ela manda a primeira foto ou vídeo íntimo, a vida dela acabou. Ela fica na mão desse autor. Como as crianças não têm dinheiro, elas passam a negociar o próprio corpo para não ter a foto vazada.
CC: Qual era o papel do Discord no meio desse fluxo criminoso?
LC: O Discord entra na transmissão desse crime. Ele foi criado para o universo gamer, permitindo criar servidores, ter plateia virtual e cargos, mas passou a ser usado para o crime. Tínhamos servidores ali dentro com o nome “pornografia infantil” escrito de forma explícita, sem qualquer moderação.
Nós pedíamos, desde 2025, para derrubarem os servidores e nos enviarem dados. Porque se você cessa o ‘ao vivo’, acaba a graça para eles e nós tiramos a vítima de circuito. Mas nada foi feito. Eles demoravam em média 17 horas para responder, quando o crime já tinha acontecido.
Diante disso, comunicamos o Ministério Público de São Paulo e desarquivamos um inquérito civil que resultou em um termo de ajustamento de conduta (TAC) e na suspensão das transmissões ao vivo.
CC: Como funciona a articulação entre o Noad, a Polícia Federal e outros órgãos para evitar a duplicidade de investigações?
LC: No caso da Lívia, [jovem que cometeu suícidio em live no Discord,] entramos em contato com a Cyberlab (Ministério da Justiça) e repassamos tudo para que eles deflagrassem a operação. A centralização ajuda muito a evitar duplicidade. Há, porém, um detalhe importante: a Polícia Federal não investiga quando há menor de idade envolvido. E cerca de 80% desses crimes digitais têm adolescentes como autores. Portanto, esses casos dificilmente ficam com a PF, eles acabam retornando para as polícias civis dos Estados.
CC: De que maneira o Noad investiga a criação de montagens de deepfake geradas por Inteligência Artificial?
LC: Isso aparece muito para nós porque as meninas são chantageadas. Os criminosos usam bases de dados vazadas do Telegram, pegam fotos da mãe da vítima ou da própria garota, criam montagens pornográficas de deepfake — que sempre envolvem mulheres — e enviam para a escola ou para a igreja como forma de extorsão.
CC: Os adolescentes que cometem esses crimes virtuais visam lucro financeiro com a venda de imagens?
LC: O objetivo financeiro é secundário. O principal é ser visto, ser reconhecido. É uma loucura difícil de entender, mas nós vimos isso de perto em uma operação em Fortaleza. Agentes entraram na casa do menor, e ele disse que não queria falar com a polícia local, mas sim com os agentes do NOAD porque eles “sabiam quem ele era”. Esses jovens buscam online o pertencimento e o reconhecimento que não têm na vida real através do ódio e da maldade.
CC: Qual o papel dos profissionais de saúde na identificação da violência contra menores em atendimentos médicos?
LC: Temos que capacitar médicos e enfermeiros nos prontos-socorros. As vítimas dão entrada nas unidades de saúde com várias partes do corpo cortadas por facas cegas ou tesouras. Trata-se do “sistema de plaquinhas”, que serve para dizer “eu sou dele”, ou seja, do agressor. Elas se cortam talhando o nick do criminoso ou o nome do servidor no braço. Se o profissional de saúde identificar isso e acionar a polícia, podemos agir rápido e impedir a transmissão do crime.
CC: Qual é o papel da sociedade civil e das famílias na segurança dos jovens na internet?
LC: Temos que cobrar das plataformas e usar ferramentas como o gov.br para denunciar. Mas o principal é o fator humanitário: precisamos voltar a nos acostumar com criança sendo criança e adolescente sendo adolescente. É preciso parar de normalizar o acesso a telas e celulares.
Crianças têm que brincar, fazer bagunça. Não é certo dar celular a elas tão cedo. Como é um crime novo, os pais não têm a obrigação de saber tudo, mas precisam se inteirar do assunto.
Meu sonho seria ver as mães buscando “como proteger meu filho online” na lupa do YouTube ou TikTok na mesma proporção em que digitam “qual é o melhor rímel” ou “qual é a melhor base”.
Se você conhece algum jovem que possa estar sofrendo violência sexual online ou maus-tratos, denuncie. É possível abrir uma denúncia sobre crimes previstos na legislação do ECA Digital através da plataforma gov.br clicando aqui.
2026 já começou
Às vésperas das eleições de 2026, o País volta a encarar um ponto de inflexão: o futuro democrático está novamente em jogo.
A ameaça bolsonarista não foi derrotada, apenas recuou. No Congresso, forças conservadoras seguem ditando o ritmo. Lá fora, o avanço da extrema-direita e os conflitos em Gaza, no Irã e na Ucrânia agravam a instabilidade global.
Se você valoriza o jornalismo crítico, independente e comprometido com a democracia, este é o momento de agir.
Assine ou contribua com o quanto puder.



