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Carta a Flávio Bolsonaro
Quem governará o País caso o senhor seja eleito à Presidência?
Senhor candidato,
Todos sabemos do seu histórico como senador, das acusações que pesam sobre o senhor e de como o senhor vem usando a desinformação como arma na campanha. Mas, faltando poucas semanas para milhões de brasileiros comparecerem às urnas para escolher um novo presidente, é fundamental que o senhor explique o seu plano de política externa. Quem seremos no mundo se o senhor vier a ser eleito chefe de Estado?
Em seu programa de governo, existem referências à designação de grupos criminosos como terroristas, o que atenderia a um pedido dos Estados Unidos como parte da doutrina de Donald Trump de militarização do continente. Portanto, precisamos entender o que significa sua proposta na prática. Quando o novo governo da Colômbia assumiu o poder, uma das suas primeiras ações foi autorizar a ação das Forças Armadas norte-americanas em seu território. O mesmo ocorreu no Equador, enquanto o Paraguai assinou um tratado permitindo o estabelecimento de uma base norte-americana. No total, 18 países da região já fecharam acordos militares com Donald Trump em 17 meses. E no Brasil? O senhor planeja autorizar o desembarque de soldados dos Estados Unidos em território nacional? Qual será sua reação se a Casa Branca sugerir bombardear regiões do País para supostamente desmontar esses cartéis? O seu governo vai aceitar deportados dos EUA para colocar em prisões brasileiras, como fizeram El Salvador, Libéria e outros países? Não são perguntas retóricas, nós precisamos entender quem vai mandar no Brasil com o senhor eventualmente na cadeira de presidente.
Da mesma maneira, em seu programa de governo, fala-se em restabelecer relações com Israel, mas há um silêncio completo sobre a Palestina. É urgente que saibamos sua posição sobre o destino de Gaza e da Cisjordânia. O País continuará a denunciar os crimes cometidos por Israel? Defenderá a soberania palestina? Ou iremos sucumbir às pressões e mudar uma posição tradicional do Brasil? Caso o senhor vença as eleições, o Brasil deixará o Tribunal Penal Internacional – que investiga os crimes em Gaza –, como solicitado por Trump? O País vai aderir ao “Conselho da Paz” criado pelo presidente norte-americano e onde apenas ele manda?
No setor comercial, o senhor sinaliza uma abertura da economia brasileira para supostamente fazer parte de uma “cadeia global” de produção. Imagino que não seja para produtos chineses. Então, o que isso exatamente quer dizer? Será uma abertura unilateral, como fez seu pai em 2019 aos produtos norte-americanos, sem qualquer reciprocidade? Seremos reserva de mercado dos Estados Unidos? No setor de minérios, seremos fornecedores primários de insumos para que o Exército norte-americano seja ainda mais poderoso e, portanto, mais hegemônico na região?
Também cabe um esclarecimento de sua parte sobre sua compreensão de direitos humanos. Com seu pai e os ministros Damares Alves e Ernesto Araújo – o pior chanceler da história –, aderimos a uma aliança de ultraconservadores que trabalhou para minar o avanço dos direitos das mulheres no mundo. Voltaremos a fazer parte desse pacto perverso?
Sem essas respostas, é impossível saber o que a sua Presidência significaria para a inserção do Brasil no mundo. Se teríamos voz na construção de uma nova ordem global que está se desenhando diante dos nossos olhos ou se seríamos meros coadjuvantes, retornando ao nosso velho papel colonial de fornecedor de riquezas estratégicas para que outros se enriqueçam – assim como as elites cúmplices brasileiras. De fato, posso até imaginar quais serão algumas dessas respostas. Mas, diante da encruzilhada global em que vivemos, não podemos mais continuar com charadas, surpresas ou silêncios deliberados. Uma decisão, neste momento, pode traçar o nosso percurso pelas próximas décadas.
Na gestão do seu pai, condenado por tentativa de golpe de Estado, o Brasil se transformou em um país pária. Vi isso pessoalmente na sala fechada dos líderes do G20, em Roma. Enquanto eu filmava seu pai perdido naquele local, sendo obrigado a conversar com os garçons para fazer o tempo passar, observava como os líderes simplesmente o ignoravam. Desta vez, sem uma explicação sobre cada um desses aspectos citados, o senhor corre o sério risco de cometer um estelionato eleitoral. Afinal, vocês passaram anos vendendo a ideia de quem vota no clã Bolsonaro é o verdadeiro patriota, os únicos que vestem de forma legítima a camisa verde-amarela. O senhor só não contou a esses patriotas que tudo não passa de uma grande mentira. Bom, bastava ler o lema que clamam: Make Brazil Great Again.
Saudações democráticas,
Jamil Chade •
Publicado na edição n° 1428 de CartaCapital, em 02 de setembro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Carta a Flávio Bolsonaro’
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