Ricardo Pieralini

Ricardo Pieralini é escritor. Foi finalista do Prêmio Jabuti em 2024.

Colunas

Na literatura e na vida, é essencial que as respostas nos faltem

Se um dia eu acordar e perceber que tenho todas as explicações, que nenhuma lacuna me povoa, neste dia serei o oposto de um iluminado

Na literatura e na vida, é essencial que as respostas nos faltem
Na literatura e na vida, é essencial que as respostas nos faltem
Cena do filme 'A Metamorfose' (2002), inspirada na obra homônima de Franz Kafka – Foto: Reprodução
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Fico profundamente incomodado quando termino de ler um livro e percebo que tudo, ou quase tudo, está explicado. Porque a literatura não existe para resolver, mas para aprofundar perguntas, por vezes as mesmas, martelando, indo e voltando, inspirando e expirando, uma tortura psicológica que é a própria existência.

Um livro, qualquer livro, tampouco é simulacro de qualquer coisa, é a própria coisa redesenhada, reescrita, restabelecida. Engolida e escarrada. Fermentada. Adocicada e azeda. Perfumada e podre. Sobreviver é assim.

Entre as personagens mais emblemáticas da literatura brasileira está a Capitolina de Machado de Assis. E tanto do que a permeia é a dúvida, nunca a certeza. Na literatura e na vida, é essencial que as respostas nos faltem.

Parêntese: estou em uma cidade do interior paulista chamada São Pedro, com cerca de quarenta mil habitantes, e descobri faz algum tempo, não muito, que a Capitolina verdadeira morava aqui. Sim, a pessoa longe da ficção que inspirou Machado. O nome dela era Rafaelina, uma mulher jovem, casada, que supostamente tinha um amante – e, comprovadamente, trocou correspondência diversas com o autor de Dom Casmurro. Cartas que foram ganhando temperatura, revelando-se.

Rafaelina, Capitolina, Capitu, de carne e osso, chegou a escrever um livro de poesias; está aqui no museu da cidade, um museu lindo. Não sei o motivo de São Pedro não bradar ao mundo que a Capitu pisou este chão que piso hoje. Quero que alguma praça tenha o nome dessa mulher, de Machado. Coloquemos as cartas pelos muros da cidade. Essa história, aprofundada, merece uma coluna, muitas. Voltarei a ela, prometo.

Outras personagens tão ilustres quanto Capitu vivem e viverão em nós sob o signo das lacunas. Riobaldo. Diadorim. Gregor Samsa. Macabéa. E uma, talvez menos conhecida, que me marcou mais que todas as outras: a Halla de Valter Hugo Mãe. Ela é a menina de A Desumanização, o livro mais triste do mundo. Ela perde a irmã gêmea e passa a ser um fantasma de si mesma. A criança que é pouquíssimo, nenhuma criança deveria ser assim. Halla é a existência de todos nós.

Bruna Lombardi interpretou Diadorim naa minissérie ‘Grande Sertão: Veredas’, exibida pela Globo nos anos 80. – Foto: Reprodução

Se um dia eu acordar e perceber que tenho todas as explicações, que nenhuma lacuna me povoa, neste dia serei o oposto de um iluminado. Serei a tristeza absoluta, nenhuma dúvida guiará meus passos ou me jogará no penhasco dos erros fundamentais. É preciso ser uma pessoa de suspeitas. O suplício é o cafuné de quem insiste em pensar.

A partir de agora, decreto: que nada mais na vida, nem na literatura, traga-me respostas, pois quero viver do que é essencial, a dúvida.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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