Mundo
O Mercosul que Milei não entende
A integração regional interessa a toda a América do Sul, mas o presidente argentino parece preferir atuar como preposto de Trump no subcontinente
O presidente da Argentina, Javier Milei, ultrapassou todos os limites ao proferir, em solo brasileiro, agressões e ofensas ao presidente Lula, ao ministro Alexandre de Moraes e, por extensão, às instituições do País. Trata-se de um fato sem precedentes nos 203 anos de amizade e cooperação bilateral, agravado por ter vindo ao Brasil para participar de um ato eleitoral e tentar, de forma bizarra, interferir na disputa presidencial.
Milei atua como preposto de Donald Trump e verdadeiro cabo eleitoral da extrema-direita. Age como vassalo do presidente norte-americano, induzido pelo secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, para transformar a América Latina em território dominado pela ultradireita, tratando a região como quintal daquele país.
É o presidente mais rejeitado da América Latina, com mandato desastroso e elitista, que ataca a classe média e os pobres argentinos. Elevou a jornada de trabalho para 12 horas diárias, propôs legalizar o tráfico de órgãos humanos, reduziu a entrega gratuita de remédios do programa Remediar e provocou arrocho severo nas aposentadorias.
O presidente Lula fez bem em não embarcar nas provocações rasteiras de um fanfarrão, condecorado em 25 de julho pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Fez bem o governo federal ao decidir manter no Brasil o embaixador brasileiro em Buenos Aires, enquanto Milei mantiver ataques e grosserias.
A reação brasileira foi ditada pelas circunstâncias, mas preservando a densidade da relação bilateral, aprofundada com o Mercosul em 1991 pelo Tratado de Assunção. Naquele ano, também se criou a Agência Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares (ABACC), para garantir o uso pacífico da energia nuclear. Ambas as iniciativas, baseadas na confiança mútua, dificilmente existiriam com o histriônico Milei.
Não será Milei quem destruirá as sólidas relações econômicas, comerciais e culturais entre Brasil e Argentina. O confronto não interessa a quem tem seriedade e conhece a importância dos empregos para ambos os povos. O Brasil é o principal destino das exportações argentinas e seu maior fornecedor, segundo dados de 2025 do Centro de Economia Internacional (CEI). Em 2024, o comércio bilateral somou 31 bilhões de dólares: 12,8 bilhões em vendas argentinas ao Brasil e 18,4 bilhões em importações. O Brasil absorve 14,6% das exportações argentinas, enquanto a Argentina responde por 5% das vendas brasileiras.
É uma relação estratégica. Cerca de 90% do intercâmbio bilateral é concentrado em produtos industrializados de alto valor agregado, que geram muitos empregos e renda, como os setores automotivo, de máquinas e de manufaturados.
Em um cenário de crescente turbulência e desarranjo das cadeias globais, aumenta a importância do investimento em redes regionais de produção, com políticas estatais de desenvolvimento sustentável. Daí a relevância do Mercosul, apesar da ignorância de Milei, que tenta torpedear o bloco com propostas de negociações bilaterais que solapam a Tarifa Externa Comum e a União Aduaneira.
Em 35 anos, os números positivos da integração entre Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai (e, recentemente, a Bolívia) mostram que Milei ignora as vantagens da união. O bloco tem PIB de 3,17 trilhões de dólares (2025), está entre as dez maiores economias do mundo. O comércio intrazona cresceu mais de 1.000% desde 1991, saltando de bilhões para 49 bilhões em 2024.
A despeito desses dados superlativos, há ainda, no Brasil, quem queira minimizar as agressões de Milei e, até, tentar inverter a responsabilidade pelos atos hostis, tanto de Milei como de Trump. São os mesmos que tentaram um golpe de Estado no Brasil e agora , como diz o chanceler Mauro Vieira, buscam um meio de bater no Brasil por meio de autoridades estrangeiras e depois esconder a mão.
A irresponsabilidade de Milei deve ser rechaçada por quem defende os interesses concretos das empresas e das populações do bloco. A integração reforçou a capacidade econômica e industrial dos países-membros, que ganharam voz nos fóruns internacionais. Só quem tem viseira política e ideológica, como o presidente argentino e seus parceiros bolsonaristas, não enxerga que a integração é estratégica.
Sua conduta é questionada por amplos segmentos econômicos e políticos argentinos. Sua performance de marionete de Trump prejudica todos os sócios. Ao atacar o Brasil, Milei mostra que defende interesses contrários aos da Argentina e da região, tentando redefinir a política sul-americana com alianças da extrema-direita. A integração regional é de interesse de toda a América do Sul. O Mercosul é uma conquista dos povos do Cone Sul e deve ser fortalecido. Quanto mais integração, melhor para todos.
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