Educação
Trabalhar é regra entre os jovens; estudar e trabalhar, um privilégio
Uma pesquisa mostra que 70% dos brasileiros de 16 a 29 anos trabalham, mas apenas 32% conciliam emprego e estudos; classe, raça e gênero moldam as oportunidades
Cerca de 70% dos brasileiros entre 16 e 29 anos estão empregados, mas apenas 32% conseguem conciliar trabalho e estudos. O dado, revelado pelo estudo inédito Juventude e o Mundo do Trabalho, da Fundação Itaú, ajuda a dimensionar tensões que atravessam a entrada dos jovens na vida adulta.
A pesquisa também relativiza uma tese que ganhou espaço no debate público e nas redes sociais nos últimos anos: a de que os jovens teriam perdido o interesse pelo emprego formal. Entre os entrevistados, 30% dizem preferir um trabalho com carteira assinada, ante 28% que gostariam de atuar de forma autônoma ou por conta própria. Na prática, 44% já trabalham sob regime CLT, enquanto 15% estão empregados sem registro e outros 10% fazem bicos ou atividades sem contribuição previdenciária.
Para Carla Chiamareli, gerente do Observatório Fundação Itaú, os números mostram que a busca por autonomia não eliminou o valor atribuído à proteção do trabalho formal. “Esse discurso de rejeição à CLT não aparece entre os jovens”, afirma. Segundo ela, a preferência pela carteira assinada também está associada à possibilidade de adquirir experiência e construir uma trajetória profissional.
O levantamento ouviu 1.816 jovens de todas as classes sociais e das cinco regiões do país e cruzou os resultados com variáveis como escolaridade, raça, composição familiar e religião. A pesquisa também investigou a trajetória educacional dos entrevistados, incluindo a passagem pela Educação de Jovens e Adultos, e as formas pelas quais eles procuram e conseguem trabalho.
Acesso ao emprego
Mais da metade dos jovens procurou emprego presencialmente em empresas ou locais de trabalho e conseguiu uma vaga dessa forma. O LinkedIn, por outro lado, respondeu por apenas 9% das contratações e aparece, sobretudo, entre os jovens das classes de maior renda.
A diferença sugere que nem mesmo os canais de procura por trabalho estão igualmente disponíveis para todos. Redes profissionais digitais, contatos e plataformas de recrutamento tendem a alcançar com mais facilidade quem já dispõe de maior escolaridade, renda e inserção social.
As desigualdades aparecem também no tipo de vínculo obtido. Entre os jovens da classe C, 49% dos ocupados têm carteira assinada. Nas classes A e B, são 43%. Já entre aqueles das classes D e E, a proporção cai para 35%.
Diante deste abismo na democratização de oportunidades, Chiamareli defende uma articulação mais estreita entre políticas educacionais e de emprego. Para ela, programas de estágio, aprendizagem e primeiro emprego podem funcionar como pontes para estes jovens mais vulneráveis. Ela também enfatiza que a própria escola possui um papel estratégico de orientação profissional a cumprir por meio do currículo regular: “Dentro do próprio currículo do Ensino Médio já tem um componente que se chama Projeto de Vida. A escola tem um papel muito importante para apoiar o jovem a ter propósito e ensiná-los a fazer um currículo, entrevista, procurar um trabalho, a projetar seu futuro”.
Salário importa, mas não a qualquer custo
O salário aparece como a principal motivação para buscar trabalho, mas não é o único critério utilizado pelos jovens para avaliar uma vaga. Segundo a pesquisa, 62% afirmam que aceitariam “ganhar um pouco menos” para trabalhar em um ambiente com menos pressão e estresse. Outros 38% dizem priorizar a remuneração.
O resultado não significa necessariamente que os jovens estejam dispostos a aceitar empregos precários em troca de conforto.
Para Chiamareli, as respostas apontam sobretudo para uma preocupação crescente com saúde mental e qualidade de vida. “Muitas vezes o jovem tem nas suas famílias referências de mãe, de pai, que trazem experiências negativas do mundo do trabalho. Estresse, pressão. Então, eu acredito que eles se coloquem pensando na saúde mental, em uma vida mais saudável, impondo mais limites para essas relações.”
Insegurança no presente, confiança no futuro
A relação dos jovens com o trabalho também é marcada por uma aparente contradição. De um lado, 61% precisaram procurar emprego no último ano e a mesma proporção teme não conseguir pagar as contas ou alcançar uma vida financeiramente estável. De outro, 91% acreditam que sua situação econômica estará melhor dentro de cinco anos.
A despeito do receio imediato com as despesas do cotidiano, Chiamareli enxerga com otimismo a postura planejadora dessa faixa etária, que se prepara para assumir o protagonismo econômico em um cenário de transição demográfica.
Quem pode estudar — e quem precisa cuidar
A pesquisa revela, no entanto, que a possibilidade de se dedicar exclusivamente à qualificação ou de ter que assumir responsabilidades de cuidado doméstico é profundamente moldada por marcadores sociais de gênero, raça, classe e geografia. Dedicar-se somente aos estudos como justificativa para não trabalhar é uma realidade significativamente mais comum entre os grupos em posição mais favorecida, especialmente homens brancos, moradores de regiões metropolitanas, com maior escolaridade e maior poder aquisitivo.
Em contrapartida, a necessidade de permanecer fora do mercado para se dedicar aos cuidados domésticos e de crianças e outros familiares recai com muito mais força sobre as mulheres, pessoas pretas ou pardas e residentes do interior, oriundas das classes mais baixas.
Essa desigualdade se torna ainda mais evidente entre os jovens que não trabalham e tampouco procuram emprego. Nesse grupo, 50% dizem estar priorizando os estudos; 21% permanecem fora do mercado para cuidar de crianças, idosos ou familiares adoentados; 15% são responsáveis por atividades domésticas; e 13% estão em situação de desalento, isto é, deixaram de procurar emprego depois de tentativas frustradas. Apenas 14% afirmam não precisar trabalhar naquele momento.
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