ToqueTec
Fiquei viciada na música de uma cantora que não existe
Uma música pode soar humana, conquistar uma playlist e ainda assim não ter sido criada por uma pessoa. Afinal, quem está por trás do que ouvimos?
Por Clarissa Palácio
Não muito tempo atrás, estava vagando pelo meu Instagram quando me deparei com o vídeo propaganda de uma marca de roupas que, agora, não me recordo qual. De qualquer forma, o conteúdo do vídeo em si não importa tanto. O que me chamou atenção foi a música escolhida para tocar ao fundo: Good Timing, da Rowe Larkin. Imediatamente procurei a track completa no meu tocador de música predileto e adicionei à minha playlist. Decorei algumas partes da letra. Gosto muito de conhecer novos artistas e, como boa jornalista, busco saber tudo sobre as pessoas que pretendo admirar.
Comecei jogando o nome da minha nova artista-obsessão no Google. Depois, procurei no Instagram. Perfil no Spotify e no Deezer para garantir que eu não tinha entendido errado a informação que li. E, por fim, conversa com pessoas próximas por desencargo – ou pra deixar cair a ficha e aceitar de uma vez por todas o quanto eu me senti feita de boba: Good Timing é, nada mais, nada menos, que uma música performada por uma IA.
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Eu não deveria ter me surpreendido por cair em mais um dos artifícios da inteligência artificial. Consideremos que minha ficha é composta pelo fato de que eu realmente acreditei no vídeo do canguru de apoio emocional tentando embarcar em um avião e descobri tem muito pouco tempo que a foto do Papa Francisco usando uma puffer foi tecnologicamente produzida. Mas, mais que um incômodo pessoal, o envolvimento da IA na música passou a ser uma questão (especialmente) para os profissionais da área.
A disputa por autoria chegou à indústria musical
O meu episódio com Good Timing pode parecer apenas mais uma história sobre a dificuldade de diferenciar o real do sintético. Só que a discussão já chegou a um terreno bem menos subjetivo: o dos direitos autorais. Em maio de 2026, representantes dos setores musical, audiovisual, editorial, jornalístico e dramatúrgico enviaram uma nova carta à Comissão Especial sobre Inteligência Artificial da Câmara dos Deputados. O documento trata do Projeto de Lei nº 2.338/2023, que estabelece regras para o desenvolvimento e o uso da inteligência artificial no Brasil. Segundo as entidades, o texto da regulamentação precisa preservar os direitos autorais e conexos diante do avanço da IA generativa.
Entre os pontos defendidos está a manutenção do direito de criadores, intérpretes e produtores de autorizarem o uso de suas obras e produções. A preocupação não se limita, portanto, ao resultado final de uma música produzida por inteligência artificial. Ela também alcança aquilo que acontece antes, durante o desenvolvimento dos sistemas, especialmente quando obras protegidas por direitos autorais são utilizadas para treinamento. A Comissão Especial da Câmara já havia realizado, em setembro de 2025, uma audiência pública especificamente sobre IA generativa e direitos autorais, com a participação de representantes de entidades ligadas à música, audiovisual e propriedade intelectual.
A mobilização brasileira acompanha uma discussão que ganhou dimensão internacional em 2026. Em julho, a Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI), anunciou princípios globais para determinar quando gravações desenvolvidas com inteligência artificial podem ser consideradas elegíveis para as paradas musicais oficiais. Entre os critérios estão o uso de serviços de IA autorizados e legais, a presença substancial de criação humana e a ausência de manipulação de reproduções. A organização também estabeleceu que o uso de inteligência artificial deve ser sinalizado ao consumidor nas plataformas digitais, de acordo com as normas aplicáveis.
A questão da transparência também aparece em uma iniciativa anunciada por entidades da indústria musical em julho de 2026. IFPI, RIAA (Recording Industry Association of America), A2IM (American Association of Independent Music), WIN ( Worldwide Independent Network), IMPALA, The Grammys, SAG-AFTRA e Human Artistry Campaign apresentaram uma proposta de rotulagem para diferenciar faixas classificadas como “AI-Generated” e “AI-Assisted”. A ideia é permitir que o público saiba se a inteligência artificial foi responsável pela geração da gravação ou se participou como ferramenta de um processo conduzido por humanos. A distinção parece simples, mas estabelece uma diferença importante entre utilizar tecnologia durante a criação e entregar à tecnologia a própria criação.
O problema não termina quando a música fica pronta
Existe ainda uma etapa anterior àquela que nós, ouvintes, conseguimos perceber. Sistemas de inteligência artificial generativa precisam ser desenvolvidos e treinados com grandes volumes de informação, e é justamente aí que entram algumas das principais disputas sobre propriedade intelectual. A discussão envolve saber quais obras podem ser utilizadas no treinamento, em quais circunstâncias e mediante qual tipo de autorização ou remuneração. Não é apenas uma conversa sobre uma máquina capaz de cantar uma música que soa humana. É também uma discussão sobre o material que permitiu que essa máquina aprendesse a produzir aquele resultado.
A própria Confederação Internacional das Sociedades de Autores e Compositores (CISAC) colocou autorização, remuneração e transparência entre os princípios centrais de sua atuação sobre inteligência artificial. Em seu relatório anual de 2026, a organização afirmou que os debates sobre IA e direitos autorais se intensificaram globalmente ao longo de 2025 e 2026. A entidade representa 227 sociedades de gestão coletiva em 116 países, segundo o relatório, e afirma reunir mais de 5 milhões de criadores. Para a organização, a velocidade de desenvolvimento da IA tornou urgente a discussão sobre como preservar a remuneração e o reconhecimento de quem produz as obras utilizadas por esses sistemas.
A dimensão econômica ajuda a explicar por que a discussão ganhou tanta força. Segundo estudo elaborado pela PMP Strategy para a CISAC, divulgado pela organização e utilizado como referência em seus debates sobre IA, o mercado de conteúdos musicais gerados por inteligência artificial pode chegar a 16 bilhões de euros ( R$ 96,9 bilhões) anuais em 2028. O levantamento estima ainda que, nas condições regulatórias consideradas pelo estudo, 24% das receitas dos criadores de música estariam em risco naquele ano, o equivalente a 4 bilhões de euros (R$24,2 bilhões)) anuais. É importante ressaltar que se trata de uma projeção, e não de uma perda já registrada pelo mercado. Ainda assim, o dado ajuda a dimensionar por que remuneração e autorização se tornaram temas centrais na discussão sobre IA e música.
No Brasil, essa preocupação aparece justamente no debate sobre o PL 2.338/2023. A tramitação da proposta na Câmara passou a reunir, ao longo de 2025 e 2026, diferentes discussões sobre os efeitos da inteligência artificial em áreas como cultura, jornalismo e direitos autorais. Em 2025, por exemplo, foram apresentados requerimentos para audiências públicas específicas sobre os impactos da IA no setor cultural e sobre os desafios dos direitos autorais diante da tecnologia. A Câmara também registrou, em 2026, a incorporação de novos projetos relacionados à regulamentação da inteligência artificial ao debate conduzido pela Comissão Especial.
Afinal, o que significa ouvir uma música feita por IA?
Talvez seja justamente aí que a minha pequena crise com Good Timing deixe de ser tão pequena. Quando encontrei a música no Instagram, não estava procurando uma demonstração tecnológica. Eu estava procurando uma artista. O nome, a voz, a letra e a música chegaram até mim como chegariam os de qualquer outra pessoa que tivesse acabado de lançar uma faixa. A diferença é que, no meu caso, a curiosidade sobre quem estava por trás da canção não necessariamente levava a uma pessoa.
Esse tipo de situação ajuda a explicar por que a identificação do uso de IA ganhou espaço nas discussões da indústria. Em julho de 2026, a IFPI passou a defender princípios que diferenciam obras substancialmente humanas de gravações puramente sintéticas ou produzidas com sistemas não autorizados. A organização também afirmou que a sinalização do uso de IA deve chegar aos serviços de streaming e a outros pontos em que a música é disponibilizada ao público. A proposta não impede, por si só, o uso da tecnologia na criação musical. O objetivo é estabelecer uma camada de informação para que o público saiba com o que está lidando.
A discussão também chegou ao nível dos próprios criadores. Em maio de 2026, a Aliança Latino-Americana de Compositores e Autores (ALCAM) anunciou a primeira pesquisa regional dedicada a investigar os efeitos da inteligência artificial sobre a indústria musical da América Latina. O levantamento busca entender como os criadores da região estão utilizando ferramentas de IA em seus processos criativos e como a tecnologia está modificando as práticas profissionais e a dinâmica do setor. Segundo a CISAC, que divulgou a iniciativa, a pesquisa procura justamente reunir informações sobre criação, trabalho e funcionamento da indústria em meio à rápida expansão da inteligência artificial.
No mesmo ano, a CISAC levou a discussão para sua Assembleia Geral de 2026, em Paris, onde representantes de diferentes áreas criativas participaram de debates sobre inteligência artificial e autoria humana. Em junho, a organização apresentou o chamado Paris Commitment, uma declaração em defesa da proteção, do reconhecimento e da remuneração dos criadores diante do avanço da tecnologia. O documento foi apresentado como uma mobilização internacional para colocar a criatividade humana no centro das futuras regras sobre IA. A entidade também destacou que a discussão não é sobre rejeitar a tecnologia, mas sobre estabelecer condições para que sua utilização não elimine os direitos de quem produz as obras que alimentam esse ecossistema.
No fim das contas, talvez a parte mais curiosa da história seja que eu não tenha percebido nada de estranho na música. Ela funcionou exatamente como uma música deveria funcionar para mim: chamou minha atenção, ficou na cabeça e me fez querer descobrir quem a tinha criado. É justamente por isso que a questão se tornou maior do que a existência de artistas virtuais ou canções produzidas por algoritmos. Se uma música pode ocupar uma playlist, aparecer em uma publicidade, disputar espaço com outros artistas e ser ouvida sem que o público saiba como foi feita, a informação sobre sua origem deixa de ser apenas uma curiosidade. Passa a fazer parte da própria relação entre quem cria, quem distribui e quem escuta. E, enquanto o Congresso brasileiro discute como regulamentar a inteligência artificial, a indústria musical já começou a discutir uma pergunta que parece simples, mas está longe de ter uma resposta: quando apertamos o play, quem, exatamente, está cantando para nós?
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