Política

Pernambuco: Raquel Lyra é criticada após participar de culto em igreja de Clarissa Tércio

Uma das parlamentares mais identificadas com a direita bolsonarista no estado, ela ficou nacionalmente conhecida por sua atuação contra a realização do aborto legal de uma menina de 10 anos

Pernambuco: Raquel Lyra é criticada após participar de culto em igreja de Clarissa Tércio
Pernambuco: Raquel Lyra é criticada após participar de culto em igreja de Clarissa Tércio
Em disputa acirrada, aproximações de João Campos e Raquel Lyra às lideranças evangélicas de Pernambuco revelam estratégia eleitoral decisiva. Foto: Efraim Cruz
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Eleições 2026

A disputa pelo voto evangélico em Pernambuco começou antes mesmo de a campanha eleitoral ganhar as ruas. No primeiro dia oficial da corrida eleitoral, João Campos (PSB) e Raquel Lyra (PSD), principais nomes na disputa pelo governo do estado, fizeram acenos públicos ao segmento religioso.

Enquanto o prefeito do Recife participou de um culto no Templo Central da Assembleia de Deus, presidido pelo pastor Ailton Júnior, a governadora esteve, dois dias depois, na celebração dos 29 anos da Assembleia de Deus Ministério Novas de Paz, em Jaboatão dos Guararapes.

Os dois movimentos têm, contudo, pesos políticos diferentes.

Campos publicou nas redes sociais que esteve no culto “em um momento de renovação e agradecimento por toda a jornada que nos trouxe até aqui” e afirmou seguir pedindo a Deus “sabedoria para caminhar em frente por um Pernambuco mais justo e com oportunidades para todos”.

Raquel, por sua vez, participou de um evento que reuniu algumas das principais lideranças políticas da direita evangélica pernambucana, entre elas a deputada federal Clarissa Tércio (PP) e o deputado estadual Pastor Júnior Tércio (PP).

Foi justamente a presença ao lado dos Tércio que provocou críticas nas redes sociais. Clarissa é uma das parlamentares mais identificadas com a direita bolsonarista em Pernambuco e ficou nacionalmente conhecida por sua atuação contra a realização do aborto legal de uma menina de 10 anos, grávida após ser estuprada, em 2020.

“Sim, é essa daqui que rezou para uma criança de 10 anos de idade ‘parir’ na frente de um hospital”, escreveu uma usuária ao comentar a participação da governadora no evento.

Outra crítica veio de uma eleitora que afirmou apoiar Raquel, mas questionou a presença da governadora em uma cerimônia da denominação. “Agir como se fosse desta igreja… sinceramente? Para mim, beira a falta de respeito com a religião de vocês, ou pelo menos de Raquel e Priscila, pois são católicas, e também com os evangélicos”, escreveu.

Acenos ao eleitorado evangélico

O movimento de Raquel não foi isolado. João Campos também escolheu uma igreja evangélica para marcar o início de sua campanha. A diferença está nas alianças construídas em torno de cada aparição.

No caso da governadora, o evento da Novas de Paz reuniu, além de Raquel, a vice-governadora e candidata à reeleição Priscila Krause (PSD), o candidato ao Senado Eduardo da Fonte (PP), Clarissa Tércio, Pastor Júnior Tércio e o presidente da denominação, pastor Francisco Tércio.

Eduardo da Fonte aproveitou o palco para apresentar sua candidatura ao Senado ao público religioso. Durante a celebração, entregou à igreja uma “Carta de Compromisso com os Cristãos de Pernambuco”, na qual afirma sua disposição de atuar em defesa de pautas consideradas importantes para o segmento.

“Entreguei a Carta de Compromisso com os Cristãos de Pernambuco e reafirmei minha disposição de continuar trabalhando, agora no Senado, pelo desenvolvimento do nosso estado”, afirmou o deputado.

A presença no púlpito também serviu para reforçar a relação do candidato com o deputado estadual Pastor Júnior Tércio, a quem Da Fonte agradeceu publicamente pelos conselhos e orientações.

A estratégia evidencia que o eleitorado evangélico não está sendo disputado apenas por candidatos identificados historicamente com a direita. Em Pernambuco, nomes de diferentes campos procuram construir pontes com grandes denominações e lideranças religiosas, em uma tentativa de transformar presença em templos em capital eleitoral.

Pernambuco e a virada conservadora

O movimento ocorre em um estado no qual a identidade religiosa também aparece de forma explícita nas próprias candidaturas. Levantamento realizado por CartaCapital a partir dos dados do Tribunal Superior Eleitoral identificou 409 candidatos em Pernambuco que utilizam referências religiosas ou identidades confessionais em seus nomes de urna. Entre eles, 32 se apresentam como pastores, bispos ou missionários.

A predominância é cristã ou evangélica, mostrando como o campo religioso se tornou também um espaço de disputa eleitoral no estado.

A corrida pelo voto desse eleitorado, portanto, não deve ser observada apenas pelas declarações sobre “valores cristãos” ou pela participação em cultos. A escolha das igrejas, dos pastores e das lideranças com quem os candidatos aparecem também comunica uma determinada posição política.

É nesse ponto que a presença de Raquel Lyra na celebração da Novas de Paz ganha outro significado. Ao lado de uma das famílias mais conhecidas da direita evangélica pernambucana e de um candidato ao Senado que explicitamente pede apoio aos cristãos, a governadora não apenas participou de um culto. Em um momento de início de campanha, ela ocupou um espaço político-religioso que também é disputado por seus adversários.

João Campos, ao escolher a Assembleia de Deus para iniciar sua campanha, sinalizou que não pretende deixar esse eleitorado exclusivamente nas mãos da direita. Raquel, ao se aproximar de lideranças como os Tércio, sinaliza que também está disposta a disputar esse espaço — ainda que a escolha produza críticas entre eleitores religiosos e não religiosos que questionam a aproximação entre púlpito e campanha eleitoral.

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