CartaCapital
Alhos e bugalhos
Uma nova leva de vazamentos atinge o filho de Lula e o ex-chefe de gabinete Marco Aurélio Santana
A campanha eleitoral está nas ruas, em todas as suas dimensões. Nos últimos dias, um intenso vazamento das investigações da Polícia Federal trouxe de volta aos holofotes Fábio Luís da Silva, o primogênito do presidente Lula, a amiga Roberta Luchsinger e o ex-chefe de gabinete do petista Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola. A série de mensagens deu a Flávio Bolsonaro a oportunidade para dizer que o “escândalo” chegou à antessala do presidente.
A defesa de “Lulinha” questiona não apenas o teor das mensagens, mas a forma como chegaram ao conhecimento público. Em nota, os advogados afirmam que vão solicitar ao Supremo Tribunal Federal, ao Ministério da Justiça e à Polícia Federal a apuração de um possível envolvimento de servidores públicos na divulgação de informações sigilosas. “Caso estejamos diante de mais um lamentável episódio de violação do dever de sigilo funcional – crime previsto no art. 325 do Código Penal –, o recorte seletivo e a divulgação parcial das referidas supostas mensagens revelam um abandono de qualquer pretensão de imparcialidade e de obediência às leis, deixando de lado a verdade ou o interesse público para buscar, por meio da exposição midiática, efeitos que a via processual legítima e adequada não permitiria”, diz o texto, assinado pelos advogados Marco Aurélio de Carvalho e Guilherme Suguimori.
O site Metrópoles publicou uma conversa na qual Fábio Luís teria orientado Roberta Luchsinger a emitir uma nota fiscal para realizar uma cobrança do empresário Cleber Ribas, dono da 3Structure It Ltda. Ribas é investigado pela PF no inquérito que apura corrupção e tráfico de influência e teria pago 150 mil reais a Luchsinger para “prospecção de clientes”. Em outra conversa divulgada no mesmo site, o filho do presidente informa à amiga ter participado de reuniões com Marcola e o então secretário-executivo do Ministério da Saúde, Swedenberger Barbosa. O diálogo teria ocorrido em março de 2024, no segundo ano do atual governo. Em determinado momento, Luchsinger diz a “Lulinha” que o futuro de ambos seria a Suíça. O jornal O Estado de S. Paulo divulgou que o relatório informa que Luchsinger mantinha conversas com interlocutores em prospecções de negócios afirmando ser uma representante do amigo. “Eles sabem o que eu sou. Eu sou o Fábio”, teria dito.
WhatsApp. Lulinha e Marcola: conversas distintas tratadas como se tivessem relação direta e inquestionável. As defesas reclamam dos vazamentos – Imagem: Nelson Paulo Giandalia/Estadão Conteúdo e Redes Sociais
Fábio Luís é alvo de três inquéritos no STF. Dois estão sob a relatoria do ministro André Mendonça, indicado ao Supremo por Jair Bolsonaro. O primeiro apura a suspeita de tráfico de influência em favor de Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, em negócios com o Ministério da Saúde relacionados à venda de medicamentos à base de canabidiol. O segundo investiga a suspeita de que o primogênito do presidente tenha repassado informações da Dataprev a um empresário interessado em fazer negócios com órgãos do governo. O terceiro inquérito, relatado pelo ministro Flávio Dino, apura uma suposta atuação de Fábio Luís na intermediação de interesses privados, desta vez em negócios de empresas parceiras do filho do presidente.
No caso de Marcola, a história ganhou novo capítulo com a divulgação de outra conversa com Luchsinger. Além da denúncia de que o ex-assessor teria recebido 217 mil reais da lobista, veio a público um diálogo a respeito da compra de joias no valor de 9,2 mil reais. Em 29 de abril de 2024, Marcola diz que vai tentar desenhar algo, “para facilitar”. A empresária responde: “Ela vai mandar mais fotos / Peraí”. O então assessor do presidente diz: “Ah tá bem, mas gostei dessas”. Não fica claro nas mensagens, contudo, quais joias Marcola teria escolhido. Logo em seguida, Luchsinger afirma: “Ela sugeriu um brilhante. Vai mandar”. A lobista, então, envia duas fotos: um par de solitários e um colar de diamantes. “Boa”, agradece Marcola. A defesa do ex-chefe de gabinete sustenta que o repasse não passou de um empréstimo, posteriormente quitado com juros e correção, em um total de 249 mil. Em relação às joias, a explicação apresentada é que o valor da compra estaria incluído no montante emprestado. O advogado da lobista preferiu não se manifestar, sob alegação de que as investigações estão sob sigilo de Justiça. Informou apenas ter solicitado ao STF esclarecimentos sobre os vazamentos.
O presidente garante: não haverá interferência no trabalho da Polícia Federal
Na avaliação do cientista político Carlos André de Souza, pesquisador da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira, da Bahia, os vazamentos têm uma clara intenção de atrapalhar a campanha de Lula. Há o receio de que os novos episódios respinguem na campanha. Na segunda-feira 17, o presidente nacional do PT, Edinho Silva, procurou estabelecer uma diferença entre a atual investigação e o tratamento dado a denúncias de corrupção durante o governo Bolsonaro. Segundo ele, no governo Lula, a Polícia Federal tem liberdade para investigar, inclusive quando as suspeitas atingem gente próxima do presidente, bem diferente de Bolsonaro, que chegou a dizer que demitiria quem fosse preciso, inclusive um ministro, para proteger sua família – o que de fato aconteceu, com a saída, à época, de Sergio Moro, então ministro da Justiça, por não ter afastado um delegado da PF que investigava denúncias de rachadinha no gabinete de Flávio Bolsonaro. “Lula já disse que as denúncias que envolvem Fábio e Marcola serão investigadas. Nós também apoiamos e queremos que as remessas de dinheiro feitas para fora do Brasil, quase 70 milhões de reais, onde há forte indícios de beneficiamento da família Bolsonaro, sejam investigadas.”
Lula voltou a falar sobre as denúncias contra o filho. Em entrevistas recentes aos podcasts As Cunhãs e Não Inviabilize, o presidente afirmou que não pretende usar o cargo para proteger Fábio Luís. “Meu filho sabe o que eu passei na vida. Viu a mãe dele morrer por conta da Lava Jato. Ele sabe que não pode fazer nada errado. Jurou que não tem nada e eu acredito nele, mas já disse aos advogados: ninguém vai pedir o fechamento do processo do meu filho.” •
Publicado na edição n° 1427 de CartaCapital, em 26 de agosto de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Alhos e bugalhos’
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