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Tirar a poeira dos arquivos

Ao revelar imagens inéditas da Conferência de Roma, ‘Anistia 79’ expõe os efeitos da ditadura sobre o Brasil atual

Tirar a poeira dos arquivos
Tirar a poeira dos arquivos
A memória confrontada. O documentário faz parte de um conjunto de filmes, muitos deles ensaísticos, que usam o material de arquivo para criar interpretações novas sobre a história. Diário de Uma Busca, de Flávia Castro, e No Intenso Agora, de João Moreira Salles , misturam experiências íntimas e movimentos coletivos – Imagem: Maria Flor Brasil e Redes Sociais
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Mais de uma década depois de Retratos de Identificação (2014), Anita Leandro retorna às salas de cinema com Anistia 79, que estreou na quinta-feira 20. Novamente, a documentarista, nascida em Minas Gerais e radicada no Rio de Janeiro, se debruça sobre materiais de arquivo que recuperam as memórias de sobreviventes da ditadura brasileira.

Em Retratos de Identificação, dois militantes de esquerda relembravam o passado a partir de fotografias. No novo filme, a diretora usa imagens da Conferência Internacional pela Anistia e as Liberdades Democráticas no Brasil, realizada na plenária do Senado italiano, em Roma, em 1979, para apresentar um evento pouco lembrado – e nunca mostrado.

Seu objetivo é o mesmo em ambos os trabalhos: entender o quanto os traumas do regime que vigorou entre 1964 e 1985 ainda conduzem o País.

A Conferência foi um encontro no qual exilados e defensores dos direitos humanos de vários países articularam uma resistência contra a intenção do governo brasileiro de estender o benefício da anistia a torturadores e integrantes das Forças Armadas. A ocasião é definida por Anita Leandro como “o maior encontro da diáspora brasileira no exílio”.

A diretora chegou às imagens a partir de registros da Conferência que ela encontrou na biblioteca da Universidade de Nanterre, na França, em 2015. Esses registros a levaram a Hamilton Lopes dos Santos, militante de esquerda que, com Velso Ribas (operador de câmera) e Ciccio (técnico de som), filmou o encontro em Roma. Ele entregou a Anita um material com 90 minutos, no qual aparecem figuras como Apolônio de Carvalho, Gregório Bezerra e Denise Crispim.

Munida dos registros, Anita buscou os sobreviventes e os parentes daqueles que não sobreviveram e mostrou-lhes as imagens. Anistia 79 é, assim, um jogo de cena entre passado e presente e um reencontro com memórias que nunca se foram. “O passado não passa no Brasil”, costuma dizer a diretora.

Anita, que é também professora de cinema na Universidade Federal do Rio de Janeiro, diz a CartaCapital que os arquivos têm um papel maior que o do simples registro informativo. “A retomada das imagens do passado pelo cinema demanda certa afirmação do óbvio. Os materiais de arquivo não são ilustração de conteúdo histórico. São, eles próprios, conteúdo, forma e vestígios da história que devem ser devolvidos ao espectador em sua própria incompletude. O cinema de arquivo não deve ser confundido nem com reportagem nem com livro de história.”

Anistia 79 cria uma cronologia própria a partir das filmagens de Hamilton Lopes. A Conferência aconteceu entre 28 e 30 de junho de 1979 e a Lei de Anistia foi aprovada no Congresso Nacional dois meses depois, em 28 de agosto. “Quando as imagens foram feitas, ainda não se sabia que a anistia seria ampla, geral e irrestrita, não só tirando da prisão os prisioneiros políticos, mas beneficiando os generais no poder, que fizeram uma leitura perversa da lei, de modo a se autoanistiar e garantir impunidade aos torturadores”, diz a cineasta.

‘Os materiais de arquivo não são ilustração de conteúdo histórico. São, eles próprios, conteúdo, forma e vestígios’, diz a diretora Anita Leandro

O que o filme faz, para enfatizar essa “aberração jurídica” e seus efeitos sobre o País, é intercalar as imagens da Conferência com registros recentes.

Ou seja, como se discutiu em um debate da 21.ª edição da CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto, em junho, o uso de acervos serve sobretudo para a “criação de novos filmes”. O cineasta Carlos Adriano, que trabalha sobre arquivos há mais de 30 anos, disse, no evento, ser necessária uma “vivência oblíqua” com as imagens.

“Ao lidar com esses materiais, você muda totalmente a perspectiva e o ponto de vista”, afirmou ele. “Temos que entender quando o filme trabalha o arquivo de uma forma poética, dando outra vida às imagens.”

Os realizadores precisam, ao mesmo tempo, ter a clareza de que lidar com a violência e a intimidade de determinados registros implica riscos estéticos e éticos. Embora o desafio seja grande, são cada vez mais usuais os filmes, muitos definidos como ensaios, que percorrem esse caminho.

Notas Sobre o Desterro (2025), de Gustavo Castro, cruza imagens de bancos de dados da Organização das Nações Unidas (ONU) com vídeos postados em redes sociais para retratar o conflito na Palestina.

Em Irritante Prodígio (2026), Luiza Lindner usa arquivos pessoais – como diá­rios, mensagens de texto e ­vídeos­ que ela gravou no celular durante crises de pânico – para recuperar um trauma hospitalar de infância.

João Moreira Salles, em No Intenso Agora (2017), remonta registros pessoais feitos por sua mãe em uma viagem à China, em 1968, ano marcado por intensas manifestações políticas em todo o mundo. Em ­Diário de Uma Busca (2010), Flávia Castro expõe cartas e outros materiais íntimos do pai, jornalista, na tentativa de entender sua morte durante a ditadura.

O que todos esses projetos têm em comum é o fato de que as imagens do passado, rearticuladas no presente, ganham nova finalidade – por vezes muito distante da original.

“A imagem do passado vem carregada de história, e o grande desafio é tornar os arquivos acessíveis ao espectador na sua materialidade, permitindo que o público elabore uma memória histórica”, reforça Anita. “Os grandes acontecimentos dão uma visão de conjunto da história, mas os microacontecimentos são tão ou mais importantes que eles.” •

Publicado na edição n° 1427 de CartaCapital, em 26 de agosto de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Tirar a poeira dos arquivos’

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