Cultura
Sem romantismo
Com base em pesquisas de opinião, João Feres Jr. oferece uma nova interpretação das Jornadas de Junho
Treze anos depois dos protestos poeticamente apelidados de “Jornadas de Junho”, os cientistas políticos ainda não foram capazes de produzir uma explicação plausível para o fenômeno e seus desdobramentos. As interpretações variam de um movimento espontâneo capturado na sequência pela extrema-direita à expressão de uma insatisfação legítima e represada da população, diante da precariedade dos serviços públicos, da corrupção galopante e das frustrações em relação ao desenvolvimento do País. Na maioria dos estudos, fica evidente a dificuldade dos autores em separar a análise objetiva da militância.
Sempre atento aos dados e à coleta de opinião pública, João Feres Jr., professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e criador do “Manchetômetro”, escarafunchou as pesquisas realizadas com manifestantes em diferentes momentos e lugares, mas no calor dos acontecimentos. O simples exercício de buscar as fontes primárias permitiu ao cientista político demolir grande parte das teses que sustentam as análises sobre as jornadas. “As análises de dois surveys”, escreve, “indica que J13 não deve ser interpretado como uma explosão caótica de pautas, mas como um movimento estruturado por clivagens claras (…) O precariado, celebrado por alguns intérpretes como sujeitos emergentes, teve peso reduzido. A comparação mostra, portanto, que a pauta anticorrupção não surgiu como ruptura, mas como tendência já presente e que rapidamente se tornou dominante.” Mais: a crítica à corrupção se misturava a um viés claramente antipetista.
Nas Ruas e Fora Delas. João Feres Jr. Autêntica (344 págs., 64,90 reais)
Feres dedica um capítulo à influência dos meios de comunicação, sobretudo nos anos anteriores ao estopim dos protestos, iniciados pelos estudantes do Movimento Passe Livre, que logo seriam abocanhados, mastigados e cuspidos por outras forças. “A grande (sic) imprensa brasileira desempenhou um papel muito mais profundo e estrutural de J13 do que reconhece a literatura especializada (…) A imprensa não apenas ‘noticiou’ os acontecimentos, mas atuou durante anos como um dos principais agentes de construção de percepções políticas que moldaram o ambiente cognitivo no qual os protestos emergiram.”
Em resumo, Junho de 2013 começou bem antes, nos jornais, sites, tevês e rádios. A mídia chocou o ovo da serpente. •
Publicado na edição n° 1427 de CartaCapital, em 26 de agosto de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Sem romantismo’
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