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A era do obscurantismo

As mudanças globais estimulam o racismo e a beligerância ocidentais. O Brasil precisa se reposicionar

A era do obscurantismo
A era do obscurantismo
Supremacia. Nos EUA, assim como na Europa, viceja a teoria de povos “superiores” cujo destino manifesto é colonizar a grande massa amorfa – Imagem: Zack D. Roberts/NurPhoto/AFP e Andrew Parsons
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Atravessamos a mais perigosa situação geopolítica desde a Segunda Guerra Mundial. O brasileiro, que adora iludir-se, precisa abrir os olhos urgentemente. Quais são as características marcantes desta fase, cujo início remonta à primeira ou segunda década do século XXI? Creio que podemos destacar quatro pontos, dos quais já tratei em artigos e entrevistas anteriores:

  1. A ascensão e consolidação de um mundo multipolar.
  2. O declínio relativo do Ocidente, acelerado por escolhas estratégicas altamente problemáticas dos Estados Unidos, que abriram uma guerra de três frentes, simultaneamente contra a Rússia, a China e o Irã. A isso se acrescentou, desde 2025, uma hostilidade surpreendente para com aliados tradicionais, resultando em fragmentação inédita do bloco ocidental.
  3. A relutância, mais que isso, a recusa terminante do Ocidente de aceitar seu declínio relativo, a ponto de estar disposto a violar todos os princípios, contratos e regras, além de praticar abertamente toda a sorte de violência e pirataria. Os Estados Unidos e aliados mostram-se prontos, como vemos, a realizar operações militares e até mesmo ir à guerra na tentativa de preservar e talvez reverter seu domínio decadente.
  4. Apesar do declínio, o Ocidente, em especial a superpotência Estados Unidos, não devem ser subestimados, pois podem fazer – e fazem – grandes estragos urbi et orbi.

Os brancos do Ocidente se rebelam. Os não brancos do Sul Global rejeitam a submissão

A intensificação do racismo e suas implicações geopolíticas

Tudo isso é (ou deveria ser) bastante conhecido em suas linhas gerais. Menos reconhecidos são os fatores raciais presentes nessa tensa situação geopolítica. Nem sempre se leva na devida conta a existência de um racismo disseminado, arraigado, de natureza estrutural, que acrescenta uma conotação especialmente perversa ao quadro geopolítico.

O mundo pode ser dividido para certos propósitos em duas partes: o Ocidente coletivo e o Sul Global. O Ocidente coletivo costuma ser definido como os países de alta renda liderados pelos Estados Unidos. Inclui Canadá, União Europeia, Reino Unido, Austrália, Israel, Japão, Coreia do Sul e alguns outros de alta renda. O Sul Global é normalmente entendido como correspondendo ao resto do mundo, isto é, os emergentes ou reemergentes e em desenvolvimento da Eurásia, Ásia, África e América Latina. O que temos é The West and the Rest, título pertinente de um livro de Niall Ferguson. O Ocidente se vê pressionado pela ascensão do resto, onde vive nada menos que 84% da humanidade.

Ponto central: aproximadamente, três quartos da população que reside no Ocidente são brancos – com as minorias não brancas funcionando principalmente como trabalhadores de baixa qualificação em empregos que, como se sabe, os brancos não estão mais dispostos a ocupar. A população do Sul Global é totalmente diferente em termos de composição racial – os brancos são uma minoria, a grande maioria é representada por pretos, pardos, amarelos, mestiços etc.

É do Ocidente branco que provém esse racismo estrutural, ancorado na convicção de que a civilização ocidental, mais desenvolvida e sofisticada, é produto de povos superiores. Só que agora os povos antes colonizados ou semicolonizados não reconhecem mais a superioridade dos brancos. Querem ter os seus direitos aceitos na prática, não apenas em tese, sem as restrições anteriores impostas pelos brancos. Como declarou Vladimir Putin, “os ocidentais precisam se dar conta de que o baile de vampiros está se aproximando do fim”. Mas o Ocidente recusa-se terminantemente a aceitar que esse baile está acabando. A minoria branca do mundo entrou em estado de negação. Ressente-se intensamente da progressiva perda da hegemonia mundial e dos privilégios associados a ela. Humano, humano demais, diria Nietzsche. Séculos de dominação mundial não são facilmente esquecidos e abandonados.

A regressão civilizatória no Ocidente 

Nesse ambiente carregado entra em funcionamento outro fenômeno de importância crucial, a migração em larga escala para os EUA e Europa de oriundos da América Latina, África e Ásia Ocidental em busca de melhores condições de vida ou fugindo de guerras, muitas delas deflagradas pelo Ocidente. À medida que cresce essa migração, cresce a repulsa a imigrantes, em especial aos muçulmanos. A resistência à migração e, em especial, as formas desumanas de reprimir a entrada de estrangeiros indesejados contribuem para um processo que pode ser designado, sem exagero, como regressão civilizatória dos Estados Unidos e da Europa.

A popularidade da luta contra a imigração, em ambos os lados do Atlântico Norte, reflete o desejo, até certo ponto compreensível, de proteger a cultura ocidental contra a presença crescente de gente de outras culturas e religiões. Misturado a esse desejo legítimo aparece cada vez mais, no entanto, o racismo enraizado antes mencionado, a crença na superioridade e supremacia da raça branca. Um indicativo é o fato de que migrantes brancos da Ucrânia, por exemplo, enfrentam muito menos obstáculos no restante da Europa do que árabes ou africanos negros. Um imigrante ou refugiado ucraniano é visto basicamente como “um de nós”.

O que temos, na verdade, é uma nova forma de fascismo xenofóbico. No plano político-partidário, cresce uma “nova direita”, designada frequentemente como “populista”, que tem no cerne do seu discurso a rejeição radical dos imigrantes. A nova direita cresce exatamente por causa da ressonância desse discurso nas massas nos Estados Unidos e na Europa e, também, por certa dificuldade dos partidos tradicionais de abraçá-lo sem violentar seus princípios básicos. Assim como os judeus na Alemanha nazista e em outros países da Europa, os muçulmanos e outros não brancos funcionam como convenientes bodes expiatórios para as consequências sociais adversas do declínio do Ocidente e da impossibilidade prática de continuar explorando o resto do mundo para proveito próprio.

Desafios para o Brasil

Para terminar, algumas palavras sobre o nosso querido país. Como ficamos nessa “era do obscurantismo”, nesse “século das sombras”? Como preparar o Brasil para uma nova etapa, muito diferente daquela a que estávamos acostumados?

Primeiro desafio: o brasileiro deve abandonar, o quanto antes, o seu posicionamento acomodado e a crença de que as divergências internacionais se resolvem com boa vontade, diplomacia e soft power. É imperativa uma cuidadosa preparação psicológica, econômica e militar para enfrentar as tempestades pela frente. Não é uma escolha ou algo que possa ser postergado. Trata-se da questão mais urgente com que se defronta o País.

Conflitos. A invasão de migrantes em Ceuta gerou uma crise. A defesa torna-se crucial. E quem pode deter o avanço de “continentes” como a Índia? – Imagem: Idrees Mohammed/AFP, Douglas Gomes/Agência Câmara e Jorge Guerreiro/AFP

No campo psicológico, precisamos superar em definitivo os complexos de inferioridade que nos rebaixam e tanto prejudicam o nosso relacionamento internacional. Em outros termos, temos de lançar ao mar todos os resquícios de séculos de colonização cultural. ­Trata-se­, também, de superar ou ressignificar o nosso tradicional pacifismo. Não para agredir ninguém, mas em reconhecimento de que para viver em paz é preciso preparar-se para a guerra, se vis pacem para bellum, como diziam os romanos.

No plano econômico, teremos de buscar a autossuficiência nas áreas essenciais, evitando, sempre que viável, uma dependência elevada em relação a fornecedores estrangeiros, especialmente aqueles situados em países que aparecem como agressores potenciais. As cadeias de produção estratégicas devem ficar em sua maior parte em território nacional ou em países confiáveis. Essa busca gera, evidentemente, perdas econômicas de eficiência. Mas acabou o tempo em que se podia confiar em alguma medida na abertura comercial e financeira como alavanca para o desenvolvimento.

O destino histórico do Brasil, ao lado de outras nações em ascensão, talvez seja o de iniciar uma nova Renascença

Segundo desafio, esse mais positivo: o Brasil, por suas características, tem condições, talvez como nenhum outro país, de oferecer uma palavra nova ao mundo, uma mensagem de congraçamento e união. Vou mais longe: o nosso destino histórico talvez seja o de iniciar, juntamente com outras nações, uma espécie de Segunda Renascença, capaz de nos livrar das ameaças e catástrofes da era do obscurantismo em que ingressamos.

Não é a primeira vez que escrevo sobre esse papel potencial do Brasil, e não quero me repetir. Remeto o leitor ou leitora a alguns capítulos do meu livro mais recente, os Estilhaços. Digo apenas o seguinte: por suas dimensões, por resultar da mistura de povos oriundos de todas as partes do planeta, por sua tradição de abertura ao mundo, o brasileiro pode ter um papel de salvação mundial. O próprio sentimento de inferioridade e a própria tendência ao pacifismo, devidamente reconfigurados, nos preparam para exercer esse papel.

Delírio? Talvez. E repetindo, no entanto, uma indagação que fiz nos Estilhaços, não é pelo delírio que se chega à essência das coisas? •


*Economista. Foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS em Xangai, e diretor-executivo no FMI pelo Brasil e mais dez países.

Publicado na edição n° 1427 de CartaCapital, em 26 de agosto de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘A era do obscurantismo’

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