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Europa em chamas

Os incêndios atingem oito países em um continente desprotegido diante das crescentes ondas de calor

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Na Bélgica, queimadas de “proporções históricas” – Imagem: VHP/AFP
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“Nunca vi cenas como estas antes” tem sido uma das frases mais repetidas por moradores de ao menos oito países europeus – Alemanha, Inglaterra, Espanha, França, Croácia, Grécia, Bélgica e Portugal –, nos quais as altas temperaturas de verão têm provocado incêndios devastadores e fora de controle. As chamas obrigam a evacuação de milhares de moradores, em vilarejos inteiros, e causam tanto a morte de indivíduos envolvidos pelo fogo quanto de pacientes com comorbidades, que sucumbem aos problemas de saúde agravados pelas altas temperaturas.

A falta de adaptação ao calor no transporte público e em outros espaços de circulação massiva faz crescer ainda mais o desconforto térmico e os problemas de saúde, especialmente nas capitais e grandes centros urbanos, nos quais temperaturas acima dos 38 graus são incomuns. Ônibus cujas janelas não abrem e repartições públicas fechadas, sem ar-condicionado ou ventilador, são clássicos da inadaptação europeia aos verões que têm se tornado a cada ano mais quentes e letais. Mesmo em postos de atendimento de saúde é comum a ausência de climatizadores. Na França, o governo ordenou a compra de aparelhos de ventilação e ar-condicionado em regime de urgência, aos milhares.

Os verões europeus viraram uma das vitrines dos efeitos distópicos das mudanças climáticas. Gente desmaiando nas ruas, passando mal em casa e fugindo de queimadas enquanto suas residências viram cinzas tornaram-se lugar-comum nos noticiários e nas páginas dos jornais. Em todo o continente, a área total queimada até o início do mês de agosto equivalia a 84 mil campos de futebol. Em Londres, a prefeitura discute programas de assistência emergencial para quem não tem casa e mora na rua. Em Paris, um motorista de ônibus chegou a desmaiar ao volante, batendo o veículo numa árvore.

O primeiro-ministro francês, ­Sébastien Lecornu, enfrentou uma multidão de moradores furiosos no Departamento de Gironde, onde 42 mil hectares foram queimados. O incêndio começou há um mês, sem que o governo do presidente ­Emmanuel­ Macron tenha respondido a contento, na opinião dos afetados, que começam a se organizar para mover processos coletivos contra o Estado francês, em busca de indenizações. Gross Bessillon, no departamento de Var, queimou por 18 dias. Na comuna de Porge, 183 das 250 casas foram reduzidas a cinzas no mês de julho. Para responder às vítimas, Lecornu fez uma visita ao local acompanhado por nada menos que seis ministros e um número ainda maior de altos funcionários da administração pública. Nas zonas destruídas, o governo francês terá de abrir linhas de crédito e acelerar a concessão de alvarás para reformas e reconstruções de casas e comércios devastados, além de isentar os moradores de impostos por ao menos três meses. O caos experimentado na vida cotidiana dos franceses que vivem nessas regiões deve ser agravado por uma incerta volta às aulas em 1º de setembro.

A área total destruída até o início deste mês equivalia a 84 mil campos de futebol. Vilarejos inteiros foram consumidos pelo fogo

As chamas que consomem campos e casas também provocam danos na política. A ministra da Transição Energética, Monique Barbut, ex-presidente da ONG ambientalista WWF, renunciou ao cargo e, numa entrevista, criticou o governo Macron, que, segundo ela, não fez a lição de casa para preparar o país para os efeitos das mudanças climáticas. Para Barbut, o governo atual “só tem a aportar uma visão tecnológica para uma questão que é ambiental”. A agora ex-ministra elaborou um plano de adaptação e transição climática que o governo ­Macron­ talvez nem consiga implementar até o fim do mandato, em maio de 2027. Para escândalo dos macronistas, Barbut disse que o político com melhores condições para construir políticas efetivas de adaptação é Jean-Luc Mélenchon, do partido de esquerda França Insubmissa.

Na vizinha Bélgica, um incêndio classificado como de “proporções históricas” consumiu 3 mil hectares do Parque ­Hautes Fagnes, considerado “uma joia” natural do país, na fronteira com a Alemanha. A área queimada é equivalente àquela do território da capital, Bruxelas. O país recebeu helicópteros da Suécia, da Holanda, da Alemanha e da Noruega em apoio ao combate às chamas. “A evacuação de cidades por causa de incêndios é algo sem precedentes”, disse ao jornal francês Le ­Monde­ Marc Gilbert, presidente da Federação Real dos Corpos de Bombeiro da Bélgica. “Com o aquecimento global, nossas missões têm aumentado muito e têm se tornado cada vez mais complexas. Nós estamos vivenciando agora algo que nunca vi em mais de 50 anos de carreira. Vamos esperar que o número de mortos chegue a quantos, até que comecemos a reagir?”

O Reino Unido registrou cinco ondas de calor só neste ano. Ao menos 19 casas foram consumidas pelo fogo em ­Stourbridge­, em West Midlands, a zona mais afetada. Um mercado foi queimado em Dudley. O serviço de saúde britânico diz que durante os quatro dias da onda de calor registrada em maio e os oito dias da onda de junho deixaram um “excesso de óbitos” de 2.877 cidadãos – mortes que superam o registro-padrão. No verão de 2025, esse “excesso de óbito” foi de 1.504 casos. O número, portanto, quase dobrou. “Nossos estudos mostram que o aumento das temperaturas e as ondas de calor extremo representarão uma ameaça crescente a cada novo ano”, disse ao jornal inglês The ­Guardian o médico Simon Williams, que pesquisa o impacto do calor na saúde humana na Universidade Swansea. De acordo com ele, cada grau centígrado adicional no processo de aquecimento global “leva, aproximadamente, 1 milhão de pessoas ao uso de 180 horas adicionais do NHS (o serviço público de saúde do Reino Unido) anualmente”. Os idosos são os mais afetados.

Na Grécia, houve duas mortes nos incêndios na Ilha de Salamina, perto de Atenas. O fogo começou justamente em praias nas quais há um grande número de turistas nesta época do ano. Os fortes ventos espalharam as chamas muito rapidamente, levando à evacuação de 600 habitantes, que tiveram de sair pelo mar.

Mais de mil pessoas precisaram ser evacuadas na Espanha, onde 16,6 mil hectares foram queimados na região de Aragão, deixando pelo menos um morto. No sul de Portugal, ao menos 38 mil hectares foram incendiados. •

Publicado na edição n° 1427 de CartaCapital, em 26 de agosto de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Europa em chamas’

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