Política
Terra retomada
Alianças de Paes minam bolsonarismo na Baixada Fluminense
Com direito a cafezinho e pão na chapa, um sorridente Eduardo Paes (PSD) selou esta semana o apoio do prefeito de Nova Iguaçu – segundo maior colégio eleitoral da Baixada Fluminense – à sua candidatura ao governo do Rio de Janeiro. Mais do que pela confirmação de Dudu Reina, do PP, nono prefeito da região a lhe manifestar apoio, a visível alegria de Paes podia ser justificada pela presença do maior cacique político do município, o ex-prefeito Rogério Lisboa, também do PP, que até julho era o vice na chapa de Douglas Ruas, candidato do PL a governador. Além da reviravolta, tida pelo meio político como uma “jogada de mestre” do candidato do PSD, a aliança com o grupo comandado por Lisboa consolidou o avanço de Paes na Baixada, movimento iniciado por outro cacique – Washington Reis, do MDB. O ex-prefeito de Duque de Caxias – maior colégio eleitoral da região – indicou sua irmã Jane Reis como vice na chapa do ex-prefeito da capital, que é líder folgado nas pesquisas.
Sempre presente na construção dos arranjos que definem a situação política do estado, a Baixada Fluminense, onde hoje se concentra 22% do eleitorado do Rio, teve ao longo da história caciques com influência nacional. É o caso, por exemplo, de Tenório Cavalcanti, o “Homem da Capa Preta”, líder carismático e violento que pontificou na Duque de Caxias de 1936, quando surgiu como opositor a Getúlio Vargas, até 1960, quando perdeu as eleições para o governo da Guanabara para Carlos Lacerda. Na política atual, Reis e Lisboa são os maiores líderes políticos da região, e o apoio dos dois foi decisivo para as vitórias de Jair Bolsonaro sobre Fernando Haddad em 2018 e Lula em 2022. De Tenório herdaram o estilo camaleônico que agora se traduz no apoio a Paes e os coloca em rota de colisão com o bolsonarismo no estado.
Embora Reis afirme apoiar Flávio Bolsonaro para a Presidência e Lisboa siga a posição de neutralidade do seu partido, a aliança com Paes já respinga positivamente em Lula, como atestam os trackings realizados pelo PT. “Na Baixada, o candidato a governador define tudo e, sobretudo no caso da família Reis, o eventual apoio a Flávio acaba sendo diluído no apoio a Paes, que, por sua vez, apoia Lula”, diz um experiente político da Baixada. Outro ponto favorável a Lula, acrescenta a fonte, é a maior possibilidade de acesso aos eleitores. “Uma parte significativa dos territórios na Baixada está tomada pelas milícias, que foram hostis ao PT nas eleições anteriores. Ter essas forças políticas locais ao lado facilita esse acesso.”
Entrada de Washington Reis e Rogério Lisboa na campanha de Paes enfraquece Flávio Bolsonaro e Ruas na região
Professor do Departamento de Ciência Política da UFRJ, Luiz Eduardo Motta afirma que este ano o apoio dos caciques locais será determinante para as eleições majoritárias, seja no governo estadual, seja na Presidência. “O voto clientelista predomina na Baixada Fluminense”, diz. Nos 13 municípios que compõem a região, o apoio dos prefeitos ao candidato escolhido pelo governador é historicamente uma forte tendência, mas, desta vez, a renúncia de Cláudio Castro e o fracasso dos planos do PL de fazer Ruas chegar ao governo como presidente da Assembleia Legislativa mudaram as regras do jogo. “Como não temos um governador em ação política nesta eleição, Paes conseguiu mobilizar esses prefeitos em torno de si. Com isso, foi capaz de neutralizar o bolsonarismo, que contou com muito apoio dessa estrutura de poder em 2018, em meio àquela onda, e em 2022, com o amparo da máquina estatal liderada por Castro”, explica.
Motta pontua que essa tendência não obedece a uma estrutura rígida do ponto de vista ideológico: “Houve eleições nas quais o discurso político que acentuava as contradições sociais ganhou na Baixada de forma absoluta, a exemplo de Leonel Brizola, em 1982 e 1990, para o governo estadual”. O mesmo aconteceu com Lula em 2002 e 2006. “Em 2002, ele concorreu diretamente no primeiro turno com Anthony Garotinho, que acabara de deixar o governo com alta popularidade e era candidato pelo PSB. No segundo turno, Garotinho anunciou apoio a Lula e houve uma grande transferência de votos. O mesmo aconteceu em 2006, já com Sérgio Cabral, cujo apoio também resultou na vitória de Lula na região”, lembra.
Carlos Ferreira, o Ferreirinha, é integrante da executiva estadual do PT, onde coordena a macrorregião da Baixada Fluminense. Ele revela que a estratégia do partido combina três dimensões: a formação de uma frente para ampliar o campo político, uma forte articulação territorial com parlamentares e lideranças locais e a organização da militância para fazer a campanha de Lula chegar a cada comunidade da Baixada. O dirigente reconhece que a entrada de Reis e Lisboa na campanha de Paes enfraquece Flávio e Ruas na região, mas afirma que “não está dado que Lula se beneficia muito com isso”, uma vez que os dois caciques também não declararam apoio ao candidato petista.
Imagem: Redes Sociais
Aposta do PT como puxador de votos do partido na Baixada, Celso Pansera afirma que Paes colocar uma integrante da família Reis como vice foi um inteligente contraponto a Ruas, já que o pai do candidato bolsonarista ao governo do Rio é Major Nélson, prefeito de São Gonçalo, segundo maior colégio eleitoral do estado. “Isso equilibrou as forças no Grande Rio e a entrada do ex-prefeito de Nova Iguaçu fortalece essa dimensão.” Os territórios da Baixada, diz Pansera, têm características específicas. “A campanha é muito territorializada, muito de rua, com caminhadas, comícios e visitas às feiras populares. É uma campanha de chão de fábrica, e ter esses atores dentro dela é essencial para obter o apoio das máquinas eleitorais locais, que são muito fortes”, destaca.
Paes tem mais a ganhar do que Lula com as alianças na Baixada, avalia Ricardo Ismael, cientista político e professor da PUC-Rio. “A candidatura de Lula não será automaticamente beneficiada, pois Reis declarou apoio a Flávio. Mas, a articulação de Paes visa impedir o avanço de Ruas na região e, se bem-sucedida, amplia suas chances na sucessão estadual.” Candidato pela terceira vez após se eleger em 2014 e sair derrotado em 2018, Pansera afirma que, nos primeiros dias desta campanha, o ambiente é outro: “Está bem melhor. Ainda há alguns problemas de ameaças de violência, mas, no geral, acredito que as campanhas do nosso campo político serão bem melhores desta vez”. A combinação da força de Lula com as alianças construídas por Paes, diz, tem tudo para dar caldo. “Agora Lula tem até a possibilidade de ganhar as eleições na Baixada”, conclui. •
Publicado na edição n° 1427 de CartaCapital, em 26 de agosto de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Terra retomada’
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