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Esquema de milhões

Minas Gerais tem investigação de desvio de verba por meio da Lei de Incentivo ao Esporte

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Polícia Federal apura uso indevido de 180 milhões de reais – Imagem: Sergio Lima/AFP
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A Controladoria-Geral de Minas Gerais investiga suspeitas de irregularidades na Lei de Incentivo ao Esporte (LIE) do estado, depois de identificar transações financeiras entre o ex-subsecretário de Esportes Tomás Tavares Perdigão Mendes e o empresário Kellyson Salgado Gomes, que foi coordenador-geral da LIE do Ministério do Esporte no apagar das luzes do governo de Michel Temer. Investigado pela Polícia Federal na Operação Fair Play como operador de um esquema que desviou 180 milhões de reais por meio de quatro empresas, Gomes já captou 10,9 milhões de reais em Minas.

Em abril de 2025, às vésperas de prestar depoimento para a PF, Mendes foi exonerado da subsecretaria, mas foi reconduzido ao cargo pelo governador Romeu Zema (Novo), depois de uma onda de reclamações e pressão de deputados. Em depoimento à Procuradoria, Mendes disse não se lembrar do motivo das transferências realizadas entre 2018 e 2020. Já em entrevista a CartaCapital, o ex-secretário afirmou que as transações foram motivadas pela realização de eventos e de projetos privados, sem qualquer relação com as leis de incentivo. A Polícia Federal, porém, aponta outras conexões entre os dois. Como, por exemplo, o fato de Mendes constar como sócio de duas empresas usadas para emitir notas fiscais por serviços não realizados – a TM Sports e a LZP, essa última, inclusive, a investigação informa pertencer efetivamente a Gomes. A TM Sports foi registrada por Mendes em 14 de janeiro de 2016. Onze dias depois foi a vez de Gomes registrar a KSG Sports, também usando suas iniciais para batizar o projeto. As quatro empresas de Gomes trocavam funcionários entre si com frequência e ocupavam o mesmo endereço no centro de Belo Horizonte – compartilhado também com falsos fornecedores usados no esquema. Até os patrocinadores eram compartilhados: a Cemig, controlada pelo governo de Minas, colocou dinheiro em eventos das quatro entidades. Nas redes sociais, além do mesmo padrão gráfico, todas postavam imagens de pequenos grupos de crianças e adolescentes em atividades que custaram até centenas de milhares de reais.

Lei de deputado militar do PL fez recurso para LIE subir de 26,5 milhões de reais para 96 milhões de reais

Depois de deixar o Ministério do Esporte, Gomes criou a empresa Rede ­Incentive, essa reconhecida por ele, que prestava serviços na elaboração de projetos para captar dinheiro via LIE nacional e estadual. Em ambos os casos, as empresas que contratam seus serviços são recordistas em aprovações de projetos. Foi na condição de empresário do ramo que foi convidado várias vezes pelo deputado estadual Coronel Henrique (PL) para discursar na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, para criticar o baixo valor disponível para o incentivo ao esporte em Minas. Nos debates e falas aos parlamentares Gomes era constantemente acompanhado por Mendes. Antes da subsecretaria, Mendes atuou no gabinete do militar de 2020 a 2023. Segundo ele, foi justamente para assumir o cargo na Assembleia Legislativa que ele deixou a sociedade com Gomes na LPZ. Coube ao Coronel apresentar o projeto que resultaria na Lei 24.987/24, que aumentou o ­porcentual­ de arrecadação do Estado que pode ser destinado ao programa. A verba subiu de 26,5 milhões de reais, em 2023, para 96 milhões de reais, em 2026.

Mendes foi exonerado da subsecretaria no dia 15 de julho, dois dias depois de o deputado Professor Cleiton (PV) ter anunciado, durante uma reunião da Comissão de Cultura, que iria protocolar uma série de requerimentos para investigar a corrupção no órgão. Cleiton conta que havia um forte lobby para abafar as investigações, e que a pressão era tamanha que os próprios funcionários denunciaram a situação. Ele destaca ainda que, dos 21 projetos auditados, nove foram aprovados pelo próprio subsecretário. “A Controladoria-Geral do Estado e a PF apuraram que existe a transferência de valores entre Gomes, que supostamente lesou o Erário, em conluio com o ex-subsecretário de Esportes”, afirmou. O deputado também acusou Mendes de receber empresários fora do horário de atendimento para organizar a distribuição das verbas de incentivo.

Imagem: Redes Sociais

O ex-subsecretário afirma que, durante sua gestão, os projetos seguiram os ritos normais de aprovação, captação e início de execução. “A minha chegada contribuiu para a melhora e evolução das fases da lei e dos editais. Eu trouxe a minha experiência de vivência como proponente. A própria equipe técnica reconheceu isso em diversos momentos.” Ele também diz que a aprovação das contas dos projetos é feita por um comitê, não por uma pessoa. Já a Cemig informou que os patrocínios foram realizados após um processo regular de seleção de projetos, em conformidade com a legislação, e que, ao tomar conhecimento da operação da PF, em setembro de 2024, identificou as entidades e suspendeu imediatamente novos aportes. O governo de Minas alegou que a exoneração de Mendes “fez parte de um processo natural de reestruturação administrativa da secretaria, com o objetivo de fortalecer a gestão e aprimorar a atuação da pasta”, e que as investigações “são de competência dos órgãos responsáveis pela condução das averiguações”. Gomes e Coronel Henrique se negaram a falar com a reportagem. Sobre o risco de que o governo de Minas tente abafar o caso ou que o período eleitoral acabe por soterrar o tema, o esporte em Minas segue sendo sucateado, enquanto as verbas jorram para poucos. •

Publicado na edição n° 1427 de CartaCapital, em 26 de agosto de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Esquema de milhões’

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