Política
As adversidades do PT em Minas
Em 2026, o partido tenta reverter a rejeição na Grande BH e nos polos regionais
Minas Gerais é conhecido como o estado-síntese que expressa características de diversos outros. Isso ocorre devido à forte desigualdade entre o Sul e o Norte, mas também por sua geografia. Transição entre as regiões Sul e Nordeste do País, além de fazer fronteira com o Centro-Oeste, Minas tem regiões com fortes semelhanças com o Nordeste e o Centro-Oeste, além dos estados do Rio de Janeiro e São Paulo.
Enquanto estado-síntese, Minas tem expressado, desde as eleições de 2006, um fenômeno que merece ser discutido. Naquele ano, quando os candidatos à Presidência da República passaram a receber votos de maneira muito diferenciada regionalmente, os mineiros acabaram por acompanhar a lógica dos vitoriosos. O Partido dos Trabalhadores venceu em todas as eleições presidenciais entre 2006 e 2014 e voltou a vencer em 2022. Ainda assim, mudanças na demografia e na estrutura política estaduais merecem atenção para compreendermos o que está em jogo em 2026.
Embora o presidente Lula tenha vencido em Minas Gerais em 2022, é importante observar que o PT não ganha uma eleição presidencial na capital desde 2014 e na região metropolitana, desde 2018. Em 2022, Lula foi derrotado não apenas em Belo Horizonte, mas em Contagem, então governada pela legenda, além de outras cidades importantes do entorno, como Betim e Santa Luzia. Ganhou apenas em Ribeirão das Neves. Trata-se de um fenômeno mais amplo, uma vez que Lula não apenas foi derrotado nessas cidades, como também perdeu em oito dos dez principais municípios. Cabe perguntar, portanto, o que explica esse desempenho.
Historicamente, o padrão eleitoral do Partido dos Trabalhadores em Minas esteve baseado na combinação de, ao menos, três fenômenos. Primeiramente, o PT se fortaleceu rapidamente em Belo Horizonte e na região metropolitana durante sua primeira década de existência. O partido governou Belo Horizonte por 16 anos seguidos e Contagem em dois períodos distintos. Além disso, governou Betim. Em segundo lugar, a legenda construiu forte presença no Vale do Aço, chegando a governar simultaneamente as cidades mais importantes da região: Ipatinga, Coronel Fabriciano e João Monlevade. Em terceiro lugar, desenvolveu, ao longo dos anos 1990, uma forte estrutura eleitoral no Norte e nos vales do Jequitinhonha e do Mucuri.
Patrus Ananias depende da proximidade com o presidente Lula, líder com folga no estado, segundo as recentes pesquisas
Quando observamos os mapas das eleições mais recentes, podemos perceber que o PT permaneceu forte ao longo do tempo apenas na região Norte e nos vales do Jequitinhonha e do Mucuri. Nas demais, sua inserção eleitoral apresentou grandes variações, com destaque para a perda da hegemonia experimentada pelo partido no Vale do Aço. Por outro lado, apresentou crescimento mais recentemente na Zona da Mata, onde governa Juiz de Fora. Uma das principais perguntas hoje será quem vencerá a disputa na região metropolitana de Belo Horizonte e nas principais cidades do estado.
Ao analisar a Grande BH, é possível identificar fenômenos distintos que vão determinar essa eleição. O Partido dos Trabalhadores foi derrotado em Belo Horizonte na eleição de 2014. Além disso, Jair Bolsonaro não apenas venceu na região metropolitana em 2018, como repetiu o feito em 2022. Mesmo com Contagem nas mãos do PT, Bolsonaro foi o candidato mais votado no município, vencendo por uma boa margem de votos. Assim, o bolsonarismo construiu uma forte inserção eleitoral na capital e entorno e nas principais cidades do estado.
As chances de o PT vencer as eleições em Minas Gerais estão diretamente relacionadas às mazelas da direita no estado. Nesse sentido, é preciso observar a capacidade de Cleitinho de continuar atraindo maiorias expressivas, tal como as últimas pesquisas de intenção de voto indicaram. Os vaivéns de sua candidatura, quando deixou de ser candidato aos prantos para depois voltar a sê-lo, criaram uma situação de tensão entre ele e seu próprio partido, mas também entre ele e parcelas das bases partidárias de outras legendas. Em que medida o senador conseguirá manter seu desempenho parece a questão a ser observada nas próximas pesquisas.
No campo da esquerda, os problemas são de outra natureza. O primeiro deles é conseguir reverter uma certa rejeição ao PT que se consolidou em Belo Horizonte e acabou se estendendo a outras cidades antes governadas pela legenda, como Ipatinga, Governador Valadares e Uberlândia. Assim, além do desafio de se consolidar na capital, onde enfrenta a candidatura do também ex-prefeito Alexandre Kalil e de Gabriel Azevedo, ex-presidente da Câmara Municipal, Ananias terá a necessidade de reverter os desempenhos ruins das candidaturas do PT nos grandes municípios. Para isso, precisará contar com a associação entre sua candidatura e a do presidente Lula, que foi vitorioso em 2022 e, neste momento, apresenta uma vantagem de quase 20 pontos em relação a Flávio Bolsonaro na maioria das pesquisas.
Para que Ananias e o PT aumentem suas possibilidades de ir ao segundo turno precisarão mostrar ao eleitorado belo-horizontino e mineiro que a principal alternativa à esquerda é o PT, não o ex-prefeito Alexandre Kalil, que hoje sustenta uma candidatura solo, sem vinculação nacional, uma vez que seu partido, o PDT, apoia o presidente Lula. Kalil não foi bem no primeiro debate entre os candidatos, se mostrando irritado e mal preparado. Mas Ananias, ao deixar de comparecer, não esteve entre aqueles que se beneficiaram do despreparo do ex-prefeito. Neste momento, depois das idas e vindas dos diferentes candidatos, a eleição em Minas não parece ter um favorito neste início da campanha eleitoral. •
*Cientista político, professor titular aposentado da Universidade Federal de Minas Gerais e coordenador do Observatório das Eleições.
O Observatório das Eleições tem o objetivo de monitorar grandes questões e elementos relativos às eleições, de modo mais geral, e aos processos eleitorais especificamente. A iniciativa contempla destacada produção acadêmica e jornalística desde 2018, tendo tido diversos parceiros, tanto no campo do financiamento quanto no campo da divulgação.
Publicado na edição n° 1427 de CartaCapital, em 26 de agosto de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘As adversidades do PT em Minas’
2026 já começou
Às vésperas das eleições de 2026, o País volta a encarar um ponto de inflexão: o futuro democrático está novamente em jogo.
A ameaça bolsonarista não foi derrotada, apenas recuou. No Congresso, forças conservadoras seguem ditando o ritmo. Lá fora, o avanço da extrema-direita e os conflitos em Gaza, no Irã e na Ucrânia agravam a instabilidade global.
Se você valoriza o jornalismo crítico, independente e comprometido com a democracia, este é o momento de agir.
Assine ou contribua com o quanto puder.


