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O Trump mineiro

Candidato do Novo passeia pelo Mercado de Belo Horizonte em busca de reconhecimento

O Trump mineiro
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Em busca de votos, ele tem sua liberdade de expressão tolhida: nada de filmar sem autorização – Imagem: Redes Sociais
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Eleições 2026

Não basta parecer, tem que ser Donald Trump. O piloto Plínio Vicentin Júnior assumiu a persona Plínio Trump e emula o presidente norte-americano na tentativa de conseguir uma vaga de deputado federal pelo Novo em Minas Gerais. Ele tem circulado por Belo Horizonte para se apresentar aos eleitores e, claro, produzir conteúdo para suas redes sociais. No começo de uma tarde de quarta-feira, escolheu o Mercado Central de Belo Horizonte para visitar. Vestindo terno e uma vistosa gravata laranja, ele começa a circular, acompanhado por sua equipe de foto e vídeo. Mas, em poucos passos, Plínio Trump descobre que o Brasil não é bagunça e tem sua liberdade de expressão tolhida: não pode gravar no local sem a prévia aprovação da administração. O censor, no caso, não é o Estado, a administração do espaço é privada, então nada de reclamar, o remédio é aguardar até que o assessor de campanha consiga a autorização.

Alguns minutos depois, Valdir Latorre, o organizador da campanha, retorna com o esperado papel, mas informa que não vai poder acompanhar, pois terá uma reunião por telefone com o partido. O Trump tupiniquim segue então pelos corredores labirínticos do mercado, esperando ser reconhecido. Algumas poucas pessoas passam olhando e comentam, cochichando, sobre a figura. Talvez se Plínio contasse com o 1,91 metro de altura do presidente americano, e não seu 1,77 metro, o brasileiro nascido em Terra Boa, no Paraná, tivesse mais chances de ser notado.

A equipe decide filmar o candidato andando pelo espaço, dissertando sobre o local. Sempre abrindo o take com alguma expressão em inglês, ele faz discursos sobre as maravilhas de Minas, enquanto passa por prateleiras cheias de queijos, doces e cachaça. “Isso aqui tem que ser conhecido pelo mundo.” Plínio Trump volta suas baterias contra o governo federal, clamando que Lula deveria fazer mais pelos produtos mineiros, mas nada fala sobre a atuação de Romeu Zema – governador do estado até março e seu colega de Novo –, talvez o maior responsável por defender os interesses comerciais e produtivos dos mineiros.

“É o Trump da Shopee”, brinca a vendedora de queijos após ser abordada pelo político falando inglês no Mercado Central

Gravações feitas, ainda é necessário filmar o contato de Plínio Trump com o eleitorado. A solução é deixar a espontaneidade de lado e garimpar lojistas que aceitem a interação. Em uma loja de queijos, duas atendentes são abordadas e logo informam que não podem permitir câmeras sem a autorização do dono (mais uma vez, barrados pela iniciativa privada). Instigadas a identificar a personalidade, que falava com elas em inglês, uma delas acerta: “É o Trump”. Depois, ela se afasta e completa: “Da Shopee”.

Apesar de não toparem a filmagem, elas encaminham o candidato para uma pessoa habituada às redes sociais: Stacy Ferreira trabalha em uma cachaçaria e costuma fazer vídeos sobre a loja e seus produtos. Ela aceita gravar. Plínio Trump foca mais nos produtores do que nos comerciantes. A interlocutora tenta driblar a pauta do candidato, sem muito sucesso. Finalmente, chegam a um acordo, reclamar da excessiva tributação sobre a cachaça. Mais uma vez o alvo foi o governo federal e nada foi dito sobre Zema, que em oito anos não fez nenhum movimento para mudar a tributação estadual do produto. Finalizada a conversa, Plínio segue em busca de novas possibilidades de filmagem. Tenta falar com a atendente de uma loja de artigos de couro e mais uma vez é impedido pela falta de aprovação patronal. O cinegrafista da campanha conversa com dois turistas cariocas que tinham reconhecido o “sósia” de Trump de primeira. Enquanto o câmera acerta os detalhes, a vendedora de couros pergunta se o candidato estava com calor. “Muito, mas faz parte do personagem”, responde Plínio. Os turistas aceitam filmar. Cumprimentados em inglês, conversam sobre a situação do País e sobre futebol. O Trump brasileiro diz torcer para o Cruzeiro. De origem de família italiana que se dividiu entre Paraná e Minas, Plínio, quando não está em campanha, solta expressões em italiano de tempo em tempo. “Morei cinco anos na Itália”, conta, com orgulho, emendando Mi manca l’Italia, declarando saudades do país.

Laranjão com queijo. Plínio Trump afirma que tem em comum com o sósia norte-americano a ideia de família e de defesa da liberdade, mas informa que faliu uma empresa. “Ele quebrou todas, né?” – Imagem: Redes Sociais

Plínio Vicentin Júnior tem 59 anos, trabalhou por muito tempo como piloto de helicóptero, rodou o Brasil e também morou nos Estados Unidos. Ele conta ter afinidades com o presidente norte-americano. “A ideia de família, defesa da liberdade, do ir e vir, liberdade de imprensa e a liberdade econômica individual. Essa coisa do livre empreendedorismo.” Mas também declara diferenças com o norte-americano, como o fato de nunca ter quebrado uma empresa. “Ele quebrou todas que teve, né?”, ri.

É um entusiasta da privatização de Itaipu, mesmo com a usina rendendo 1,3 bilhão de reais ao Brasil em 2025. “Tem muito dinheiro jogado fora ali. Gastaram bilhões para construir uma mega de uma usina que poderia estar gerando mais lucro.” Mas a sanha privatista some quando o assunto é a Petrobras, empresa para a qual prestou serviço durante anos, levando, de helicóptero, trabalhadores para as plataformas em alto-mar. “Do jeito que está, basta administrar. É uma empresa que dá lucro.” Residente da famosa Varginha, Plínio conta que tem informações privilegiadas sobre o ET que tornou a cidade célebre, mas não dá mais detalhes. “Sei de algumas coisas que aconteceram lá, mas a gente pode comentar outra hora”, afirma, deixando o suspense no ar. •

Publicado na edição n° 1427 de CartaCapital, em 26 de agosto de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O Trump mineiro’

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