Economia
Guido Mantega: A Petrobras derruba o mito da ineficiência estatal
A retomada dos investimentos e a descoberta na Foz do Amazonas projetam a companhia entre as maiores petrolíferas do mundo
Caso a Petrobras encontre petróleo e gás em volume expressivo a 500 quilômetros da Foz do Amazonas, hipótese bastante provável, poderá tornar-se uma das três maiores petrolíferas do mundo nos próximos anos. Desde a descoberta do pré-sal na Baía de Santos, em 2006, a estatal tem apresentado um desempenho econômico-financeiro excepcional, muito superior ao de suas concorrentes públicas e privadas do setor.
Estamos falando de gigantes tradicionais do segmento de exploração e comercialização de petróleo e derivados, como Saudi Aramco, Exxon Mobil, Shell, Chevron e TotalEnergies, todas deixadas para trás em rentabilidade e produtividade pela Petrobras nos últimos anos.
Em 2025, o retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) da companhia brasileira foi de 26,0%, enquanto a segunda colocada, a gigante Saudi Aramco, registrou 23,3%. As demais ficaram para trás, com índices próximos de 10%.
No primeiro semestre de 2026, o desempenho da Petrobras foi ainda superior ao de suas concorrentes, com um ROE de 19,0%, ante 13,9% da Saudi Aramco, 7,2% da Exxon e 9,5% da Shell.
Nesse mesmo período, a Petrobras alcançou uma margem líquida de 29,1%, contra 24,7% da Aramco, 9,3% da Exxon e 10,1% da Shell, demonstrando uma eficiência muito superior à de seus concorrentes.
Esses elevados níveis de rentabilidade e margem líquida da Petrobras não foram pontuais. Entre 2021 e 2025, o ROE médio da companhia foi de 23,18%, superior ao de todas as grandes petroleiras, com exceção da estatal saudita Aramco, e também maior do que o da maioria dos bancos brasileiros, campeões mundiais em lucratividade.
O invejável desempenho da Petrobras deveu-se não apenas aos altos preços do petróleo e de seus derivados, resultantes das guerras na Ucrânia e no Oriente Médio, mas, sobretudo, aos elevados investimentos e ao desenvolvimento tecnológico, que elevaram extraordinariamente sua produtividade.
De 2008 a 2014, a Petrobras investiu, em média, 40 bilhões de dólares por ano, o equivalente a mais de 10% da formação bruta de capital fixo (FBCF) do País. Foram os engenheiros da companhia brasileira que lideraram a descoberta do pré-sal, em 2007, e desenvolveram tecnologias avançadas para a exploração em águas profundas. A empresa também investiu na formação de seus profissionais, por meio da Universidade Petrobras, e estabeleceu parcerias com instituições de ensino e centros tecnológicos.
No entanto, a partir de 2014, a petroleira brasileira foi paralisada pela Lava Jato, que desmontou a cadeia produtiva de petróleo, gás, construção e setores adjacentes. Posteriormente, sofreu também com a fúria privatizante dos governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro. A queda do preço do barril de petróleo, de mais de 100 dólares em 2013 para cerca de 40 dólares em 2015, também contribuiu para o enfraquecimento de suas finanças.
A partir do governo Temer, a maior empresa brasileira em lucro e faturamento foi submetida a uma gestão de orientação privatista, que alienou parte significativa de seu patrimônio, com privatizações da ordem de 240 bilhões de reais, reduziu os investimentos e distribuiu centenas de bilhões de reais em dividendos.
Os investimentos foram caindo a partir de 2016 e, durante o governo Bolsonaro, chegaram a um patamar inferior a 10 bilhões de dólares, retardando a expansão da capacidade produtiva. A gestão privatista da Petrobras passou a adotar parâmetros típicos de empresas financeirizadas, priorizando a maximização dos lucros no curto prazo, a ampla distribuição de dividendos e a redução de custos e investimentos.
O caixa da Petrobras foi particularmente dilapidado durante o governo Bolsonaro, com uma distribuição de dividendos em volume capaz de deixar os magnatas de Wall Street de queixo caído.
Em 2022, para se despedir com chave de ouro, a gestão bolsonarista da Petrobras distribuiu 37,29 bilhões de dólares em dividendos e juros sobre capital próprio, valor superior aos 36,62 bilhões de dólares de lucro líquido registrados pela companhia naquele ano. A quantia também superou a soma dos dividendos distribuídos pela Exxon, Chevron e PetroChina.
A partir de 2023, a Petrobras retomou padrões de eficiência e racionalidade na gestão estatal, com aumento gradual dos investimentos e redução da distribuição de dividendos. A estratégia fortaleceu o caixa da companhia, preparando-a para enfrentar novos desafios, como a exploração de petróleo e gás a 500 quilômetros da Foz do Amazonas.
Além de ser uma das campeãs mundiais do setor petrolífero, a Petrobras é a empresa brasileira não financeira de maior rentabilidade e produtividade, competindo em condições de igualdade com os bancos, tradicionalmente os líderes nacionais em lucratividade.
O desempenho da Petrobras derruba o mito de que empresas estatais são, por natureza, ineficientes e incapazes de alcançar desempenho semelhante ao das empresas privadas. Trata-se de um argumento há muito cultuado pelos liberais para justificar as privatizações bilionárias realizadas recentemente no Brasil.
Felizmente, a Petrobras sobreviveu à fúria privatista e vem sendo revigorada no terceiro mandato do presidente Lula. Com a descoberta deste “pré-sal 2”, a companhia tem condições de ampliar significativamente sua produção nos próximos anos, consolidando-se entre as maiores e mais eficientes empresas petrolíferas do mundo.
Há, ainda, uma curiosa coincidência histórica: o pré-sal da Bacia de Santos foi descoberto em julho de 2006, às vésperas da reeleição de Lula para um segundo mandato. O pré-sal da Bacia do Amazonas foi descoberto em 17 de agosto de 2026, exatamente vinte anos depois, no momento em que Lula disputa seu quarto mandato.
2026 já começou
Às vésperas das eleições de 2026, o País volta a encarar um ponto de inflexão: o futuro democrático está novamente em jogo.
A ameaça bolsonarista não foi derrotada, apenas recuou. No Congresso, forças conservadoras seguem ditando o ritmo. Lá fora, o avanço da extrema-direita e os conflitos em Gaza, no Irã e na Ucrânia agravam a instabilidade global.
Se você valoriza o jornalismo crítico, independente e comprometido com a democracia, este é o momento de agir.
Assine ou contribua com o quanto puder.



