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A importância estratégica da Bahia na eleição presidencial de 2026
A influência da disputa pelo Planalto tende a ser mais evidente no interior, onde será fundamental para Jerônimo Rodrigues repetir o bom desempenho de 2022
Por Diego Matheus de Menezes e Danilo Uzêda*
A Bahia deve se apresentar, nas eleições presidenciais de 2026, como um dos estados-chave para a estratégia dos principais candidatos. Três fatores ajudam a explicar essa importância: o peso do eleitorado baiano, o histórico de forte apoio ao petismo nas disputas presidenciais e o acirramento da eleição para o governo estadual. Em termos eleitorais, a Bahia possui o quarto maior colégio eleitoral do País e o maior da Região Nordeste, com mais de 11 milhões de eleitores aptos a votar em 2026, o equivalente a 7,13% do eleitorado brasileiro.
Ainda mais significativa é a expressiva votação obtida na Bahia pelo Partido dos Trabalhadores (PT) nas últimas eleições presidenciais. Desde 2002, o candidato do partido à Presidência obtém mais de 65% dos votos válidos no estado no segundo turno. Em 2022, esse percentual chegou a 72,12%, quando Lula venceu o então presidente Jair Bolsonaro em 415 dos 417 municípios baianos, sendo derrotado apenas em Luís Eduardo Magalhães, no oeste do estado, e em Buerarema, no sul.
A manutenção dessa diferença, portanto, pode proporcionar uma importante vantagem eleitoral ao candidato petista, sobretudo em um contexto de provável discrepância na votação entre as diferentes regiões do País. Da mesma forma, para o senador Flávio Bolsonaro (PL), que vem se consolidando como principal candidato da oposição, reduzir essa diferença é estratégico para ampliar seu desempenho no Nordeste, especialmente se a disputa for tão acirrada quanto a de 2022.
As pesquisas recentes sobre a aprovação do governo reforçam esse cenário ao indicarem que a percepção do eleitorado baiano sobre o presidente permanece positiva. Segundo a pesquisa Genial/Quaest realizada entre 23 e 27 de julho, a Bahia está entre os estados com melhor avaliação do governo Lula, que alcança 62% de aprovação entre os baianos. Consolida-se, assim, conforme pode ser observado no gráfico abaixo, a recuperação da aprovação após a queda registrada em fevereiro de 2025. Esse resultado ganha ainda mais relevância pelo fato de a pesquisa ter sido realizada após as denúncias envolvendo o senador petista e ex-governador da Bahia Jaques Wagner no Caso Master. A elevada aprovação sugere que, ao menos até aquele momento, a repercussão do caso não havia se traduzido em enfraquecimento da avaliação do governo Lula no estado.
O terceiro elemento explicativo, entretanto, destoa do cenário positivo para o petismo no âmbito nacional. O PT, que, ao final de 2026, completará 20 anos consecutivos à frente do governo da Bahia, talvez venha apresentando sinais de desgaste no âmbito estadual, ao menos nas cidades de maior porte. Apesar de ter vencido as eleições para o governo do estado em 2022, o petista Jerônimo Rodrigues não apenas obteve uma margem mais apertada do que a registrada por Lula no estado, com 52,79% dos votos válidos contra 47,21% de ACM Neto (União), como também foi derrotado nas dez maiores cidades do estado.
A vitória de Jerônimo foi assegurada, sobretudo, pela expressiva votação obtida no interior da Bahia. Segundo mapeamento realizado pelo Instituto de Pesquisa e Análise Política (Ipap), o petista venceu, no segundo turno de 2022, em 92,6% dos municípios com até 20 mil habitantes e em 87,3% daqueles com população entre 20 mil e 100 mil habitantes. ACM Neto, por outro lado, predominou entre os municípios com mais de 100 mil habitantes, vencendo em 88,9% deles.
Esses resultados também revelam um fenômeno particular na Bahia: parte do eleitorado que apoiou ACM Neto para o governo estadual votou em Lula na disputa presidencial. Salvador ilustra bem esse cenário. Em 2022, Lula obteve 70,73% dos votos válidos na eleição presidencial na capital baiana, enquanto, na disputa estadual, Neto alcançou 64,51%, contra 35,49% de Jerônimo. Nesse contexto, a capacidade de candidaturas de oposição, como a de Flávio Bolsonaro, de reduzir a vantagem de Lula na Bahia depende, em grande medida, da conquista de ao menos parte desse eleitorado.
Alguns movimentos recentes indicavam uma tentativa de ampliar a base de Flávio no estado. O primeiro ocorreu ainda em 2025, quando o PL declarou apoio à candidatura de ACM Neto ao governo da Bahia. O segundo veio após a confirmação de que o PT lançaria Jaques Wagner e Rui Costa como candidatos ao Senado. Diante dessa definição, Angelo Coronel, senador eleito pelo PSD, partido que integra a base do governo Jerônimo, rompeu com a legenda, filiou-se ao Republicanos para disputar a reeleição e declarou apoio a Flávio Bolsonaro. Ao longo de 2026, outros episódios também pareciam sinalizar uma aproximação com o campo político de ACM Neto, entre eles a recusa do prefeito de Salvador e aliado de Neto, Bruno Reis (União), em participar de uma agenda com Lula durante o Carnaval.
Essa estratégia, entretanto, perdeu força com o apoio de ACM Neto e do União Brasil à candidatura presidencial de Ronaldo Caiado, do PSD. Com isso, Flávio Bolsonaro ficou sem o apoio direto de uma candidatura competitiva ao governo da Bahia, restringindo sua base de apoio no estado, no primeiro turno, sobretudo às candidaturas ao Senado de João Roma (PL) e Angelo Coronel.
O PT, por sua vez, conseguiu contornar as tensões surgidas em sua base aliada no estado. A definição de duas candidaturas petistas ao Senado provocou uma disputa pela composição da chapa majoritária: enquanto o PSD pressionava pela indicação do candidato a vice-governador, o MDB defendia a permanência de Geraldo Júnior, atual vice. Mesmo com a confirmação da chapa formada por Jerônimo Rodrigues (PT) e Geraldo Júnior, a articulação com o senador Otto Alencar (PSD) permitiu preservar o PSD na aliança. O acordo garantiu o apoio da legenda tanto à reeleição de Jerônimo quanto à candidatura de Lula na Bahia, apesar de o PSD contar com candidato próprio à Presidência. Dessa forma, Lula inicia o processo eleitoral com uma base de apoio mais consolidada no estado.
Esse cenário favorável também se reflete nas pesquisas de intenção de voto. Segundo a Genial/Quaest realizada em julho com eleitores baianos, Lula aparece 34 pontos percentuais à frente de Flávio Bolsonaro. No cenário estimulado de primeiro turno, o petista registra 52% das intenções de voto, contra 18% de Flávio e 3% de Ronaldo Caiado. Outros 13% estão indecisos, enquanto 9% declaram voto branco ou nulo ou afirmam que não irão votar. Os demais candidatos, somados, reúnem aproximadamente 5%. A vantagem de Lula também se mantém nos cenários de segundo turno, com 56% contra 23% de Flávio Bolsonaro, e 56% contra 16% de Caiado.
A influência da eleição presidencial na disputa pelo governo da Bahia
No âmbito da disputa pelo governo do estado, as pesquisas reforçam a perspectiva de uma eleição mais acirrada. Na Genial/Quaest, no cenário estimulado de primeiro turno, ACM Neto aparece com 39% das intenções de voto, contra 38% de Jerônimo Rodrigues. Em um eventual segundo turno, ACM Neto registra 43%, ante 39% de Jerônimo.
Na disputa pelo Senado, os dados da pesquisa indicam que a força das candidaturas petistas não deve ser subestimada. Rui Costa lidera com 22% das intenções de voto, seguido por Jaques Wagner, com 16%, e pelos candidatos apoiados por ACM Neto e Flávio Bolsonaro, Ângelo Coronel e João Roma, ambos com 6%.
Nesse cenário, o início do processo eleitoral na Bahia aponta para um distanciamento formal entre a principal candidatura de oposição ao governo estadual, liderada por ACM Neto, e a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro. A estratégia parece privilegiar uma campanha centrada nas questões estaduais, evitando, ao mesmo tempo, um rompimento radical com o governo federal.
Essa orientação é sintetizada pelo slogan da candidatura de ACM Neto, “Mudança com Segurança”, que associa a proposta de alternância no governo estadual à ideia de cautela e, simultaneamente, remete à questão da violência. O tema ocupa posição central entre as preocupações do eleitorado baiano. Segundo a Genial/Quaest, 42% dos entrevistados apontam a violência como o principal problema do estado, seguida pela saúde, com 27%, e pelo desemprego, com 8%.
Por outro lado, a campanha de Jerônimo deverá explorar a proximidade com o governo federal, destacando seus efeitos sobre a atração de investimentos e a manutenção de políticas públicas. Nesse sentido, Lula permanece como seu principal ativo eleitoral, sobretudo para mobilizar eleitores que, embora menos entusiasmados com a gestão estadual, mantêm forte identificação com o presidente. Na capital e nas demais cidades de maior porte, essa estratégia poderá ser particularmente importante para conquistar parte do eleitorado que, nas eleições anteriores, combinou o voto em Lula para presidente com o voto em Neto para governador.
A influência da disputa presidencial tende a ser mais evidente no interior do estado, onde será fundamental para Jerônimo repetir o bom desempenho de 2022. A força eleitoral de Lula e a influência de Jaques Wagner e Rui Costa favorecem uma atuação articulada entre as campanhas nacional e estadual. Caso a polarização no pleito presidencial se intensifique, Jerônimo poderá recuperar terreno e transformar a disputa baiana em mais uma frente da eleição nacional.
Para a oposição, o desafio será justamente evitar que essa associação favoreça a candidatura de Jerônimo. Sua estratégia deverá combinar críticas ao desempenho do governo estadual, especialmente nas áreas de segurança pública e saúde, com a tentativa de dissociar a avaliação de Lula da escolha para o governo da Bahia. Se for bem-sucedida, poderá ampliar o espaço para o voto dividido.
Por fim, é interessante notar que, enquanto os interesses das candidaturas governistas nos âmbitos nacional e estadual estão alinhados na Bahia, o mesmo não ocorre no campo da oposição. A principal candidatura presidencial de oposição tende a buscar maior inserção na disputa baiana por meio da aproximação com as forças oposicionistas locais. A oposição estadual, por sua vez, enfrenta o desafio de conciliar a manutenção do apoio do eleitorado bolsonarista com certo distanciamento da candidatura de Flávio Bolsonaro, preservando sua capacidade de atrair eleitores que apoiam Lula na disputa nacional.
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* Diego Matheus de Menezes é doutor em Ciências Sociais pela Universidade Federal da Bahia e pesquisador de pós-doutorado no Instituto de Estudos Avançados Transdisciplinares da Universidade Federal de Minas Gerais.
Danilo Uzêda da Cruz é doutor em Ciências Sociais pela Universidade Federal da Bahia e docente do Programa de Pós-Graduação em Planejamento Territorial da Universidade Estadual de Feira de Santana.
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