Augusto Diniz | Música brasileira

Jornalista há 25 anos, Augusto Diniz foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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Incansável, Juliana Linhares transforma a estafa em energia no Sesc Pompeia

No lançamento paulistano do ótimo ‘Até Cansar o Cansaço’, a artista potiguar confirma sua força na música

Incansável, Juliana Linhares transforma a estafa em energia no Sesc Pompeia
Incansável, Juliana Linhares transforma a estafa em energia no Sesc Pompeia
Juliana Linhares – Foto: Natalia Elmor
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Juliana Linhares parecia decidida a transformar o título de seu novo álbum em método de palco. No lançamento de Até Cansar o Cansaço, realizado no sábado 15, no teatro lotado do Sesc Pompeia, em São Paulo, a cantora potiguar dançou, interpretou, convocou o público e sustentou uma apresentação intensa tanto física e quanto emocionalmente.

Segundo trabalho autoral de Juliana, o disco afirma uma artista capaz de dialogar com diferentes tradições musicais nordestinas sem convertê-las em peça de museu ou ornamento folclórico. Há vigor, humor e invenção no repertório, além de uma intérprete que sabe conferir dimensão própria a composições suas e de parceiros.

A formação teatral de Juliana ajuda a explicar o domínio do palco, a expressividade dos gestos e a maneira segura como conduz a plateia. Essa força, paradoxalmente, é também um dos limites do espetáculo. Em alguns momentos, a encenação e outros dispositivos parecem antecipar ou sublinhar emoções que as próprias músicas seriam capazes de despertar. O show talvez ganhasse se, por alguns instantes, Juliana abandonasse parte dessa armadura cênica e estabelecesse um contato menos mediado com o público. Se deixasse aparecer mais a cantora.

No lançamento paulistano do ótimo 'Até Cansar o Cansaço', a artista potiguar confirma sua força na música popular brasileira contemporânea. (Foto: Natalia Elmor) Dona de talento evidente e de uma base mobilizada de admiradores, Juliana enfrenta agora o desafio de ampliar seu público. (Foto: Natalia Elmor)

Juliana intercalou as novas composições com músicas de Nordeste Ficção, seu primeiro álbum, e encontra diante de si uma plateia disposta não apenas a ouvir, mas a participar do espetáculo. Ao fim, foi recebida com uma longa ovação.

O repertório de Até Cansar o Cansaço transita entre o convite à dança, a esperança, o desejo, o humor e a inquietação. Entram no roteiro a faixa-título, parceria de Juliana com Jef Lyrio; Depois do Breu, composta com Rafael Barbosa; Emaranhada, de Juliano Holanda; Vida Virada, parceria com Josyara e Elísio Freitas; e Tempos Temporais, um dos melhores momentos do disco, também assinada com Holanda. Completam a seleção Mistério do Óbvio, de Luiz Gabriel Lopes, e O Rabo do Jumento, de Elino Julião.

Outro ponto alto é A Palo Seco, clássico de Belchior gravado no novo álbum. Juliana a interpreta como um manifesto de resistência e encerra a canção com um clamor à liberdade, empunhando o microfone em meio a uma sobreposição de vozes.

No meio do espetáculo, Juliana recita um longo texto do dramaturgo Márcio Abreu sobre experiências íntimas e coletivas. A intervenção estabelece uma ponte clara com o conceito do álbum, nascido da tentativa de transformar o esgotamento individual em reação compartilhada.

Juliana é acompanhada por Elísio Freitas, responsável pela guitarra e pela direção musical; Nathanne Rodrigues, no baixo; Julia Rodrigues, na bateria; Paloma Ronai, na sanfona; e Lucas Videla, na percussão. A banda dá corpo a um repertório que exige tanto delicadeza quanto energia, acompanhando com precisão as mudanças de atmosfera da apresentação.

O bis ficou por conta da contagiante Depois do Breu, single de lançamento do álbum. Com refrão imediato e vocação para hit, a música reúne atributos para repetir o alcance de Balanceiro. Se isso acontecerá, dependerá também de uma engrenagem de circulação que costuma ser menos generosa com artistas fora do eixo consagrado pela indústria.

Dona de talento evidente e de uma base mobilizada de admiradores, Juliana enfrenta agora o desafio de ampliar seu público. A dificuldade tem pouco a ver com a qualidade de seu trabalho. O mercado e a crítica ainda submetem artistas nordestinos ao empobrecedor rótulo de “regionais”, embora tratem sotaques e referências do Sudeste como universais e desprovidos de geografia.

O show do Sesc Pompeia oferece bons argumentos contra esse confinamento. Juliana Linhares já é uma intérprete de presença rara, repertório consistente e grande domínio de palco. Para crescer ainda mais, talvez não precise acrescentar novas camadas à apresentação, mas confiar um pouco mais no que já possui: as canções, a voz e a capacidade de, sendo como é, cativar o público.

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