Política
Candidata à reeleição, irmã de Edir Macedo é denunciada por destinar R$ 2,2 milhões a eventos da Universal
Edna Macedo destinou os recursos por meio do Instituto Paulo Kobayashi, que já recebeu R$ 37,7 milhões em emendas parlamentares; ela nega irregularidades
Foi dada a largada na campanha eleitoral e alguns parlamentares que tentam a reeleição já começam a entrar na mira de denúncias e representações que questionam atividades realizadas durante seus mandatos. É o caso da deputada estadual Edna Macedo (Republicanos-SP), irmã do bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus.
Uma representação protocolada no Ministério Público de São Paulo pede a investigação da destinação de 2,2 milhões de reais em emendas parlamentares indicadas pela deputada para financiar eventos ligados à igreja.
A representação foi apresentada pela Associação Brasil Laico, que acionou o MPSP e solicitou a instauração de um inquérito civil para apurar possíveis atos de improbidade administrativa, desvio de finalidade e violação à laicidade estatal. O documento questiona o uso de recursos públicos para a realização de megaeventos religiosos por meio do Instituto Paulo Kobayashi (IPK).
Segundo a entidade, 1,2 milhão de reais em emendas de Edna Macedo foram destinado, em 2025, ao evento “The Love Walk – Caminhada do Amor”, realizado pela Igreja Universal e liderado pelo casal Renato e Cristiane Cardoso, filha de Edir Macedo. Neste ano, outro evento, o “Família ao Pé da Cruz”, recebeu 1 milhão de reais em recursos indicados pela parlamentar.
A representação sustenta que os recursos foram destinados ao IPK por meio de rubricas orçamentárias genéricas, como “apoio a eventos cultural e esportivo”, o que, segundo a Associação Brasil Laico, teria ocultado a natureza confessional das atividades e dificultado o controle social sobre a aplicação do dinheiro público.
“A destinação de recursos públicos para eventos de uma igreja específica, especialmente quando há vínculo familiar direto com a parlamentar, configura um conflito de interesses que não pode ser ignorado”, explica o diretor-presidente da associação, Leandro Patrício da Silva. O Estado não pode subvencionar cultos religiosos sob o disfarce de atividades culturais”, acrescenta.
A denúncia se apoia em reportagens do Intercept Brasil e do colunista Artur Rodrigues, do UOL. As reportagens mostram que, entre 2023 e 2026, o Instituto Paulo Kobayashi recebeu 37,7 milhões de reais em emendas parlamentares. Desse total, ao menos 16,8 milhões de reais — quase metade dos recursos — foram destinados a eventos da Igreja Universal.
Os repasses estaduais ao IPK cresceram ao longo do período. Foram 4,3 milhões de reais em 2023, 10,3 milhões de reais em 2024, 11,7 milhões de reais em 2025 e mais de 11 milhões de reais apenas até agosto de 2026.
Em manifestação incorporada à representação, o próprio IPK afirma ter atuado sob tutela de um “termo de parceria” na realização de evento “destinado ao público de cultura gospel”. O instituto também afirma que diferentes parlamentares reuniram emendas para viabilizar a realização de um festival.
Além de Edna Macedo, outros seis parlamentares destinaram recursos para eventos da Universal por meio do IPK: Altair Moraes, Danilo Campetti, Gilmaci Santos, Rui Alves, Sebastião Santos e Tenente Nascimento. Todos são filiados ao Republicanos, partido ligado politicamente à Igreja Universal, com exceção de Tenente Nascimento, que deixou a legenda e migrou para o PL. Todos estão concorrendo à reeleição.
Além da “Caminhada do Amor” e do “Família ao Pé da Cruz”, outros eventos da Universal receberam recursos de emendas parlamentares por meio do instituto, entre eles os festivais “Mega Dance”, “Mega Help” e “Canta Gospel”. Parte dessas atividades é promovida pela Força Jovem Universal (FJU), grupo da igreja de Edir Macedo voltado para a juventude.
A Associação Brasil Laico também notificou a Procuradoria Regional Eleitoral de São Paulo para avaliar possíveis implicações eleitorais do caso. A entidade pede ainda que o Ministério Público requisite à Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo e ao Instituto Paulo Kobayashi a íntegra dos termos de fomento, planos de trabalho, notas de empenho, comprovantes de repasse e prestações de contas referentes às emendas indicadas por Edna Macedo e destinadas aos eventos ligados à Universal entre 2023 e 2026.
Outro pedido é que sejam analisados os registros de rastreabilidade das emendas no Portal da Transparência estadual, com o objetivo de verificar se existe compatibilidade entre a rubrica “apoio a evento cultural e criativo” e os objetos efetivamente executados, à luz da ADPF 854.
A representação pede ainda que sejam ouvidos os parlamentares e agentes públicos envolvidos e que o Ministério Público avalie a adoção de eventuais medidas cautelares, incluindo a suspensão de repasses futuros vinculados a objetos de natureza confessional e, caso estejam presentes os requisitos legais, a indisponibilidade de bens dos responsáveis.
Outro lado
Edna Macedo nega irregularidades. Em nota anexada à própria representação, seu gabinete afirma que as emendas passaram pela análise dos órgãos técnicos competentes e que os eventos apoiados possuem natureza cultural, são abertos ao público e atendem a finalidades de interesse público.
A deputada afirma que “não há, em nenhuma das indicações, qualquer conflito de interesse”. Sobre a rubrica utilizada nos repasses, sustenta que a classificação segue as categorias previstas no sistema de indicação de emendas e que a parlamentar não define unilateralmente essas descrições.
O Instituto Paulo Kobayashi também nega prestar serviços à Igreja Universal. Em resposta incorporada aos documentos, entretanto, o instituto reconhece ter atuado, por meio de termo de parceria, em um evento “destinado ao público de cultura gospel” e afirma que diferentes parlamentares reuniram emendas para a realização de um festival.
A Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas de São Paulo também se manifestou. Segundo a resposta reproduzida na representação, as emendas impositivas devem ser executadas após a análise dos planos de trabalho e estão submetidas a acompanhamento e prestação de contas. A pasta afirma ainda que os recursos devem ser aplicados “sem desvio para fins estritamente confessionais”.
É justamente essa fronteira que a Associação Brasil Laico pede ao Ministério Público que investigue: se o objeto formalmente apresentado como cultural corresponde ao que foi efetivamente financiado e realizado, uma vez que há suspeita de instrumentalização religiosa.
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