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Como alongar as vidas dos livros
Quero muito que vocês comprem muitos livros, quase todos, porque livros existem para serem comprados e lidos. Livros livres vivem
Gostaria de inventar uma maneira para os livros ganharem mais vidas, porque as vidas dos livros só existem quando combinadas com as vidas de quem lê, e ler é um hábito raro, penoso. Um livro, quando independente ou de fora do grande circuito, é um bebê gravemente adoentado, tende a viver pouco e morrer no esquecimento para tristeza de quem está ao redor, de mais ninguém.
Gostaria muito de inventar um remédio para alongar essas vidas de papel, que é a minha vida, afinal. Também luto pela minha causa. O que faço, meu deus? Não há deus. A quem grito? Ninguém escuta, todos estão surdos. Mentira, Ricardo, digo a mim mesmo, existem dezenas, centenas, milhares de salvadores de livros, abra os olhos, Ricardo. Eu tento.
Uma pessoa fundamental ao mundo dos livros é o Vitor Miranda. Poeta, escritor. Reduzir Vitor a qualquer palavra é injusto. Criou um movimento chamado neomarginal, corre as ruas do país lendo poesias, cantando, vendendo livros, peitando fascistas, encarando fardas e escrevendo maravilhas. Ele diz que “Jesus não está votando, Clarice Lispector está voltando”. Eu creio.
Ele fez um post recentemente instigando um influenciador da moda a apoiar autores independentes, livros/bebês quase abandonados. Sabe como é a vida na rede social, não sabe? O influenciador ficou triste, o Vitor nunca está triste, quem sabe a partir de agora o influenciador utilize 20% do espaço dele para escritores e escritoras à margem, ou 10%, ou 5% Eu torço.
Outra pessoa fundamental é a Mila Nascimento, que é médica e salva vidas também como escritora. Criadora do Capitolinas, coletivo que agora é um selo editorial, em Campinas, no interior de São Paulo, no meio do extremismo bovino, haja churrasco, mostrando que às mulheres escrever pode significar permanecer. Mila reúne em seu coletivo um brilho absoluto. Estive com ela na Flip, é um ímã de coisas boas.
Tem ainda o Pedro Gontijo, um homem com a literatura do centro da vida, uma bondade de enxergar beleza até nas coisas que eu escrevo, criatura de paz extrema e poeta absoluto. Autor de livros lindos. É dele:
“Todo dia se encontram num barzinho de esquina
da minha metrópoles cerebral
Seis sinapses –
um religioso (moralista)
um anarquista (irônico)
um filósofo (ácido)
um mestre (iluminado)
um compositor (superpop)
E Guimarães Rosa:
- Eu não vou pro inferno!
- Sério? Dá uma olhadinha ao redor…
- O inferno são os outros.
- Os outros somos nós.
- Nós somos o mundo!
- O sertão é o mundo.”
Como de costume, cometo injustiças abissais, porque há muito mais gente que é remédio para que as letras não agonizem e morram. Quero muito que vocês comprem muitos livros, quase todos, porque livros existem para serem comprados e lidos. Livros livres vivem.
E há muitos além das livrarias do shopping, das capa de jornal, do aplicativo de entrega imediata, do post do influenciador de estimação. Você que está aqui na CartaCapital, você sabe o que é resistência, entende o recado e compartilha a luta. Eu torço.
Os gigantes da literatura estão do mesmo lado, eu creio, eu juro.
Na verdade preciso inventar maneira nenhuma para os livros sobreviverem. Eles sobreviverão. É que nenhuma vida é fácil, tampouco a deles, cheia de verso e letras e tentando fazer o mundo pensar.
A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.
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