Augusto Diniz | Música brasileira

Jornalista há 25 anos, Augusto Diniz foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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Novo livro mostra como a música se rendeu à ditadura dos algoritmos

Estudioso de transformação digital, Luiz Cesar Pimentel detalha em ‘A Grande Trapaça Digital’ a mudança da indústria e a sujeição às plataformas de streaming

Novo livro mostra como a música se rendeu à ditadura dos algoritmos
Novo livro mostra como a música se rendeu à ditadura dos algoritmos
'A Grande Trapaça Digital': Luiz Cesar Pimentel expõe como a música se rendeu à ditadura dos algorítimos (Foto: Reprodução / Magnific)
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Antes, o artista vendia 5 mil discos físicos para ter uma vida digna, ainda que momentânea. Hoje, ele precisa ter mais de 8 milhões de execuções nas plataformas de música para conquistar esse mesmo bem-estar.

Trata-se de uma diferença e tanto. Vender 5 mil discos nunca foi algo tão impossível assim para um artista em permanente circulação. Difícil, e muito, é passar a barreira de 1 milhão de plays de uma música “perdida” numa plataforma de streaming.

Registro do lodaçal algorítmico em que se enfiou a música, o livro A Grande Trapaça Digital (Editora Terreno Estranho; 284 pág.) conta a história de como empresas de tecnologia assumiram o controle dos principais mecanismos de distribuição e remuneração da música, e substituiu a curadoria humana por sistemas automatizados.

O jornalista, cientista social e especialista em transformação digital da mídia, da cultura e do consumo de informação, Luiz Cesar Pimentel, debruça-se sobre a rendição da indústria às plataformas e aos algoritmos.

Em duas partes, o jornalista e sociólogo Luiz Cesar Pimentel, especialista em transformação digital da mídia, da cultura e do consumo de informação, debruça-se sobre a rendição da indústria às plataformas. Primeiro, sobre a mudança radical da indústria com o advento dos streamings. Depois, sobre a psicologia da música e das reações humanas ao som. Fixamos nesta resenha a primeira parte do livro.

O autor relata desde o desafio atual da experiência de ouvir música até o surgimento dos artistas não mais em espaços de produção musical – como rodas de samba ou um porão de rock – mas no feed das redes sociais. “Ao se tornar o mediador indispensável, a plataforma assumiu a posição de um senhor feudal moderno de toda a cadeia produtiva da cultura”, escreve Pimentel no livro.

As plataformas de música, relata ele, têm fechado as portas para o exercício da escuta em letra e melodia. Os álbuns, que exigiam atenção sequencial, quase desapareceram em meio ao número infindável de lançamentos de singles.

Para driblar essa limitação, compositores profissionais utilizam métricas de busca e palavras-chave com alto engajamento para colocar as músicas no radar dos algoritmos, atendendo aos critérios de aceitação rápida e fácil de músicas pelas plataformas de streaming.

Atualmente, a maioria dos sucessos musicais apresenta o refrão ou um gancho vocal já nos primeiros 15 segundos da gravação, com o objetivo de reduzir a taxa de rejeição (skip rate) inicial do ouvinte. Ou seja: a estrutura das canções foi alterada para atender aos critérios de retenção das plataformas de streaming, aponta o livro.

As letras também perderam importância. Baseado numa pesquisa da Universidade de Innsbruck, na Áustria, ao analisar milhares de letras ao longo de décadas, o livro descreve que as músicas hoje têm mais repetição de palavras e baixo uso de metáforas, revelando pobreza na criação artística.

A diminuição drástica do tempo médio das faixas é outra mudança anotada na estrutura das canções — músicas mais longas tendem a dispersar o ouvinte.

Ao artista, não houve saída a não ser aceitar o controle de seu trabalho. O streaming passou à ideia inicial ao público de manancial inesgotável de música, mas o capitulou rapidamente para a matemática da recomendação.

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