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A nostalgia é uma pequena viagem psicodélica no tempo
Há momentos em que o tempo parece falhar
Uma música começa a tocar e, antes mesmo que reconheçamos seus primeiros acordes, alguma coisa dentro de nós já atravessou décadas. Por alguns segundos, não estamos exatamente lembrando. Estamos, de alguma maneira difícil de explicar, novamente lá.
A nostalgia costuma ser descrita como saudade de um tempo perdido. A própria palavra vem do grego nóstos, retorno para casa, e álgos, dor.
Seria a dor provocada pelo desejo de voltar. Mas existe algo mais misterioso acontecendo. Quem sabe a nostalgia seja uma das formas mais cotidianas pelas quais a consciência demonstra que nossa experiência do tempo é menos linear do que o relógio insiste em nos fazer acreditar.
É justamente nesse lugar que a nostalgia encontra a experiência psicodélica.
As substâncias psicodélicas podem alterar profundamente a percepção, a sensação de identidade e a experiência subjetiva do tempo. Minutos podem parecer horas; memórias podem adquirir uma intensidade quase presente; a fronteira entre o observador e aquilo que é observado pode se tornar menos rígida.
Timothy Leary foi uma das figuras mais radicais dessa tentativa de pensar a consciência como algo plástico. Seu modelo dos circuitos da consciência era especulativo, não uma teoria científica estabelecida, mas expressava uma intuição fundamental da cultura psicodélica: quiçá aquilo que chamamos de realidade cotidiana seja apenas uma entre muitas maneiras possíveis de organizar a experiência.
O budismo oferece uma chave semelhante. Nossa percepção de permanência, identidade e continuidade é menos sólida do que parece. A mente constrói narrativas para organizar passado, presente e futuro. Talvez seja por isso que uma lembrança possa possuir uma força quase física.
Mas não precisamos ingerir nenhuma substância para experimentar pequenas interrupções na tirania do tempo.
Uma rajada de vento no final de uma manhã pode reproduzir, por alguns segundos, a atmosfera de uma manhã esquecida da infância. Não porque aquela manhã tenha literalmente retornado, mas porque determinadas sensações funcionam como chaves capazes de reabrir compartimentos internos da memória.
É por isso que talvez seja tão interessante observar o que acontece com a nostalgia em 2026.
Vivemos cercados por uma quantidade quase obscena de acesso ao passado. Pessoas colecionam discos de vinil, fitas VHS, consoles antigos, cartuchos, revistas, brinquedos e câmeras analógicas.
Seria fácil interpretar isso apenas como uma tendência de mercado. Mas talvez exista algo mais profundo.
O objeto deixa de ser apenas um suporte e se transforma em uma máquina de memória.
A pessoa talvez não queira realmente voltar para 1995.
Talvez queira voltar para quem ela era quando 1995 ainda estava acontecendo.
Essa diferença é fundamental.
A nostalgia não recupera o passado. Ela recupera uma experiência do passado. Permite visitar uma casa que já não existe, mas não permanecer nela.
A cultura tornou-se acessível como nunca e, paradoxalmente, cada vez mais intangível. Guardar uma fita, um disco ou um cartucho pode ser uma pequena declaração de permanência:
Isto existiu.
Eu estive aqui.
Isto ainda existe na minha mão.
Portanto, a nostalgia parece uma reação à velocidade do presente. Uma tentativa de recuperar a duração em uma cultura que transformou quase tudo em fluxo.
E aqui a experiência psicodélica retorna ao cerne da questão.
A psicodelia costuma ser apresentada como uma fuga da realidade. Quiçá seja justamente o contrário. O tempo psicológico pode se dobrar. A identidade pode se tornar menos rígida. A memória pode deixar de parecer um arquivo morto e assumir novamente a textura de uma experiência viva.
A nostalgia faz algo semelhante em uma escala doméstica.
Ela é uma pequena suspensão da linearidade. Um instante em que o passado deixa de estar atrás de nós e aparece dentro do presente.
Existe algo profundamente psicodélico na nostalgia. Não porque toda saudade seja uma experiência mística, mas porque ambas nos lembram de uma coisa que a vida cotidiana frequentemente nos faz esquecer: nossa experiência do tempo não é o tempo.
O relógio continua andando. O corpo envelhece. As cidades mudam. As pessoas partem.
Mas, por alguns segundos, uma música toca e a porta se abre.
Não sabemos exatamente para onde fomos.
Só sabemos que, por um breve instante, estivemos novamente em casa.
A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.
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