Política
Pesquisas eleitorais: O que falta para Lula vencer a eleição no 1º turno?
Três cientistas políticos ouvidos por CartaCapital apontam os fatores que podem antecipar ou adiar a definição em 4 de outubro
Vencer uma eleição no primeiro turno é o sonho de qualquer candidato, não importa o cargo em disputa. Na corrida ao Palácio do Planalto, apenas Fernando Henrique Cardoso (PSDB) conseguiu, em 1994 e em 1998. Reeditar essa conquista é o grande objetivo do presidente Lula e do PT neste ano, embora o cenário às vésperas do início da campanha seja de indefinição.
A matemática é simples: para liquidar a fatura em 4 de outubro, Lula precisará de mais de 50% dos votos válidos, excluídos brancos e nulos. Ou seja, terá de receber mais votos que a soma de todos os seus oponentes. Seria um resultado inédito para o petista, que obteve suas três vitórias nacionais no segundo turno — contra José Serra (PSDB) em 2002, Geraldo Alckmin (então no PSDB) em 2006 e Jair Bolsonaro (PL) em 2022.
Confira o desempenho de Lula no primeiro turno em cada um dos três pleitos que venceu:
- 2002: 46,4%
- 2006: 48,6%
- 2022: 48,4%
As outras duas eleições presidenciais abocanhadas pelo PT também chegaram ao segundo turno, ambas com Dilma Rousseff: 46,9% no primeiro turno em 2010 e 41,6% em 2014.
O esforço do partido para resolver a disputa na primeira rodada em 2026 não é mero capricho, mas fruto de análise pragmática: ao contrário de eleições anteriores, não há outros candidatos de esquerda ou centro-esquerda cujos votos migrariam majoritariamente para Lula em um eventual segundo turno contra Flávio Bolsonaro.
Em 2002, o PSB lançou Anthony Garotinho (15.180.097 votos) e o PPS apostou em Ciro Gomes (10.170.882). Em 2006, concorriam Heloisa Helena (PSOL, 6.575.393 votos) e Cristovam Buarque (PDT, 2.538.844). Há quatro anos, Simone Tebet (então no MDB) amealhou 4.915.423 votos e Ciro Gomes (então no PDT) obteve 3.599.287. Não significa que Lula tenha absorvido todos esses votos, mas havia um contingente expressivo a buscar. Agora, não.
Quatro partidos nanicos da esquerda socialista terão candidatos próprios: UP, com Samara Martins; PCB, com Edmilson Costa; PSTU, com Hertz Dias; e PCO, com Rui Costa Pimenta. Também concorrerão Augusto Cury (Avante), Clariana Barão (DC), Leonardo Avalanche (PRTB), Renan Santos (Missão), Ronaldo Caiado (PSD) e Wilson Grassi (Democrata).
Cientistas políticos ouvidos por CartaCapital consideram improvável que a eleição termine no primeiro turno. Para Jairo Nicolau, professor do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas e autor do livro O país dividido, dois fatores principais sinalizam um segundo turno:
- a aprovação de Lula não está em nível confortável;
- as pesquisas apontam vantagem estreita para o presidente em simulações de segundo turno.
“A campanha de Lula tentará mostrar as realizações e a ameaça da volta do bolsonarismo. Mas não vejo elementos consistentes para apostar hoje em uma vitória no primeiro turno”, diz Nicolau. “Não significa que não possa acontecer, mas há elementos que jogam contra uma visão mais otimista.”
O imponderável pode, claro, pender a favor de Lula, ressalta o cientista político: a campanha de Flávio pode ter um desempenho ruim e uma “abstenção diferenciada” pode prejudicar o candidato do PL.
Antonio Lavareda, sociólogo do Ipespe e presidente de honra da Associação Brasileira de Pesquisadores Eleitorais, afirma haver dois indicadores favoráveis à realização de segundo turno:
- o fator histórico: das nove eleições presidenciais sob a Nova República, só duas terminaram no primeiro turno (as já mencionadas vitórias de FHC);
- o desempenho de Lula nas pesquisas: o presidente tem 40% na média bayesiana do agregador do Ipespe Analítica, oito pontos menos que no início de agosto de 2022.
Lavareda enfatiza, porém, a imprevisibilidade de uma eleição: apesar de FHC ter conquistado 54% e 53% no primeiro turno em 1994 e em 1998, respectivamente, a abstenção e os votos nulos naqueles pleitos superaram os 30%, reduzindo a base de eleitores e pavimentando o caminho para os triunfos do tucano. Não se sabe o que acontecerá em outubro deste ano.
O cientista político Rui Tavares Maluf diz, por sua vez, haver sinais contraditórios: Flávio Bolsonaro e seu irmão Eduardo cometem diversos erros — vide o envolvimento com Javier Milei e Donald Trump —, o que em tese facilita a campanha de Lula; por outro lado, o candidato do PL tem um considerável universo de eleitores cristalizados. Isso indica a tendência de segundo turno.
E do que Lula precisa para vencer já na primeira votação? Uma chave importante, avalia Maluf, seria Fernando Haddad (PT) melhorar significativamente seu desempenho em São Paulo, na disputa contra o governador bolsonarista Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Trata-se do maior colégio eleitoral do País, com mais de 34 milhões de eleitores. Há quatro anos, Lula perdeu para Jair Bolsonaro no estado por 55% a 45%, mas ainda assim amealhou 11,5 milhões de votos, parcela decisiva para sua vitória nacional.
Como demonstrou CartaCapital, há, por fim, o fator André Mendonça, relator no Supremo Tribunal Federal das rumorosas investigações sobre as fraudes no INSS e o esquema do Banco Master. Flávio planeja usar na propaganda eleitoral a apuração contra Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente. Os desdobramentos políticos dos inquéritos contra o empresário, conduzidos pela Polícia Federal, dependerão essencialmente do ministro, indicado ao STF por Jair Bolsonaro.
Ainda assim, de acordo com as pesquisas divulgadas até esta reta final da pré-campanha, não se pode descartar um triunfo de Lula já em 4 de outubro. Os resultados variam a depender do instituto e da metodologia, mas deixam no ar essa possibilidade. Caberá à campanha do PT acertar em sua estratégia e torcer pela continuação dos deslizes de Flávio e da “terceira via” — e, não menos importante, esperar que Mendonça se limite às “quatro linhas” do devido processo legal.
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