Cultura
Os novos monstros
O escritor Grady Hendrix e a cineasta Jane Schoenbrun recriam, de modo crítico, os filmes de matança dos anos 1980
Publicado em 2021 e lançado há algumas semanas no Brasil, o romance O Grupo de Apoio para Garotas Finais (Intrínseca, 368 págs., 74,90 reais), do norte-americano Grady Hendrix, mostra seis mulheres de meia-idade que, na juventude, sobreviveram a assassinos brutais e tiveram suas vidas transformadas em espetáculo.
No fim de julho, a Paramount Pictures anunciou a adaptação do livro para o cinema, a ser dirigida por Christopher Landon, realizador do sucesso A Morte Te Dá Parabéns (2017).
Hendrix, presença constante nas prateleiras de horror das livrarias brasileiras, teve um segundo livro lançado este ano no Brasil: Vendemos Nossas Almas (Intrínseca, 320 págs., 74,90 reais), que tem como protagonista um roqueiro que descobre ter tido a própria alma vendida ao demônio.
Enquanto isso, estreou no circuito, na quinta-feira 13, Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte, novo filme da também norte-americana Jane Schoenbrun, que virou cult com Eu Vi o Brilho da TV (2024). Tanto o longa-metragem quanto O Grupo de Apoio para Garotas Finais refletem a evidente reconfiguração das formas de se olhar e pensar um subgênero do terror, o slasher – ou, em português, “filme de matança”.
Popularizados entre o fim dos anos 1970 e início dos 1980, esses filmes se caracterizavam pela repetição de elementos: um assassino ou perseguidor, frequentemente mascarado; vítimas jovens; espaços isolados; uso recorrente do ponto de vista do criminoso; personagens definidos mais por funções narrativas do que por psicologia; e uma sobrevivente que chega ao confronto derradeiro com o antagonista.
“Não sou eu que sou obcecada por gênero nos filmes slasher, são os filmes slasher que são obcecados por gênero”, afirmou Jane, em Cannes
O termo em inglês vem de slash, que significa cortar, golpear. Títulos como Halloween – A Noite do Terror (1978), de John Carpenter, Sexta-feira 13 (1980), de Sean S. Cunningham, e Chamas da Morte (1981), de Tony Maylam, cristalizaram o imaginário do slasher, que dominou o cinema de horror pelo menos até 1985, com dezenas de novos filmes lançados todos os anos.
A indústria logo percebeu a eficiência do modelo: filmes baratos que podiam gerar continuações e novas variações de uma estrutura conhecida. A produção tornou-se tão abundante que acabou por desgastar o gênero. O vídeo doméstico, surgido em meados dos anos 1980, prolongaria sua existência com filmes cada vez mais derivativos.
Isso, ao menos até 1996, quando Pânico, de Wes Craven, reapresentou o subgênero a uma nova geração, acrescido de metalinguagem e autorreferências. Desde então, o filme de Craven teve seis sequências e uma série de tevê.
Foi nos slashers que se consolidou a emblemática figura da final girl, ou “garota final”. O conceito, formulado pela pesquisadora norte-americana Carol J. Clover, em 1987, designa a sobrevivente que atravessa a matança e enfrenta o assassino no desfecho.
Associado às convenções morais e sexuais dos filmes da época, o conceito de final girl foi revisado e problematizado algumas vezes, mas a denominação se manteve intacta. Laurie Strode (Jamie Lee Curtis), de Halloween, Nancy Thompson (Heather Langenkamp), de A Hora do Pesadelo, e mesmo a mais moderna Sidney Prescott (Neve Campbell), de Pânico (1996), deixaram de ser apenas personagens para virar uma categoria cultural.
Humor espirituoso. Além de O Grupo de Apoio para Garotas Finais, Hendrix teve um segundo livro lançado neste ano no Brasil: Vendemos Nossas Almas – Imagem: Albert Michell
Não à toa, a figura da final girl está tanto no livro de Grady Hendrix quanto no filme de Jane. A diferença é que, agora, ela é retratada com bastante autoconsciência da parte dos criadores. “Slashers não são histórias sobre pessoas morrendo, e sim sobre pessoas decidindo viver”, resume Hendrix, em entrevista a CartaCapital.
O Grupo de Apoio para Garotas Finais inicia-se justamente no ponto em que o slasher tradicional costuma terminar: Hendrix imagina um enredo a partir do que aconteceria com essas garotas depois de elas terem sobrevivido. As seis protagonistas estiveram, no passado, no centro de matanças que fazem referência aos longas-metragens Halloween, Sexta-feira 13, A Hora do Pesadelo, O Massacre da Serra Elétrica (1974) e Pânico.
Decorridas algumas décadas, as personagens carregam a fama de terem sobrevivido, mas também traumas e a sensação de terem sido exploradas por uma cultura que consumiu suas histórias e depois as esqueceu. Elas se reúnem periodicamente às escondidas, até que o surgimento de um matador misterioso e implacável as obriga a fugir novamente.
A ideia para a trama veio de uma antiga experiência de Hendrix como espectador e fã do gênero. Ele tinha 15 anos quando assistiu, em 1987, a A Hora do Pesadelo 3: Os Guerreiros dos Sonhos, dirigido por Chuck Russell.
Para além dos ataques de Freddy Krueger, o que mais chamou sua atenção foi o fato de a personagem Nancy Thompson, vivida pela atriz Heather Langenkamp, protagonista do primeiro filme, em 1984, reaparecer numa sessão de terapia em grupo para pessoas aterrorizadas pelo monstro. “Era a personagem de um filme anterior ressurgindo para tratar seus traumas”, observa o autor.
“Slashers não são histórias sobre pessoas morrendo, e sim sobre pessoas decidindo viver”, resume Hendrix
Para Hendrix, a narrativa arquetípica dos filmes de matança está nos contos de fadas, em especial Chapeuzinho Vermelho, por ele considerado o slasher original: “Uma adolescente vai sozinha a um lugar que deveria ser seguro, recebe instruções muito claras e, ao ignorá-las, encontra uma figura masculina monstruosa maior e mais forte do que ela e precisa de astúcia e esperteza para vencer”.
Ao mesmo tempo que tem um amor declarado pelo gênero, Grady Hendrix reconhece suas contradições: o prazer estético de um horror artístico caracterizado por imagens ora assustadoras e agressivas, ora debochadas e exageradas.
“Meu trabalho é levar os elementos do horror tão a sério que eles se dobrem, mas não quebrem; que sejam questionados, mas não explodidos”, diz. “Essas histórias existem há tanto tempo que se tornaram referenciais. São tão poderosas que queremos ouvi-las repetidamente.”
Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte é fruto direto tanto desses paradoxos quanto da admiração de Jane Schoenbrun pelo subgênero – que, historicamente, teve outras poucas diretoras, entre elas Amy Holden Jones (O Massacre, em 1982) e Carol Frank (Mansão da Morte, 1986).
No filme, Kris (Hannah Einbinder) é uma jovem cineasta contratada para fazer o reboot de uma franquia slasher desgastada por continuações e derivações. Durante a pesquisa para a realização do trabalho, ela passa uns dias com Billy (Gillian Anderson), atriz reclusa que protagonizou o filme original e se afastou da indústria do entretenimento.
A partir daí o imaginário da franquia passa a assombrar a cineasta. O encontro entre as duas mulheres – que representam também duas gerações – serve para Jane Schoenbrun construir uma reflexão sofisticada e espirituosa sobre o quanto o slasher, que fascinou tanta gente no passado, reverbera de forma diferente nos dias de hoje.
Fascínio e trauma. Os papéis da atriz Heather Langenkamp em A Hora do Pesadelo (1984) e A Hora do Pesadelo 3 (1987) marcaram profundamente Hendrix – Imagem: New Line
A representação do gênero – masculino e feminino – e a misoginia não escapam ao olhar da realizadora de 39 anos. No último Festival de Cannes, onde o longa-metragem competiu na seção Un Certain Regard, a diretora embutiu sua crítica em um trocadilho: “Não sou eu que sou obcecada por gênero nos filmes slasher; são os filmes slasher que são obcecados por gênero”.
Jane Schoenbrun, que se identifica como transfeminina não binária, sugere que as tensões e valores ligados às identidades de gênero já estavam nos filmes do passado: o corpo monstruoso, a punição, as máscaras e as definições rígidas de quem cabe em cada clichê social.
Em certo momento, em Acampamento Miasma, a veterana Billy diz à jovem cineasta: “Não estávamos tratando (nesses filmes) de representações culturais da monstruosidade nem questões de gênero nem nada disso. O que tinha a ver eram duas coisas muito simples: carne e fluidos”.
Billy é uma personagem marcada pela contradição: ao mesmo tempo que a feriu, a estética do filme que protagonizou a fascina. A proposta, como afirmou Jane em Cannes, é “refazer uma linguagem para novos fins”, respeitando um legado de 45 anos e, ao mesmo tempo, atualizando-o.
Jane e Hendrix não estão sozinhos. Outros artistas nascidos quando os slashers davam sinais de cansaço têm revivido o subgênero a partir de referências explícitas e questionamentos.
Uma Natureza Violenta (2024), de Chris Nash, parte da estrutura elementar de Sexta-feira 13 – jovens em um lugar remoto e um matador brutal a persegui-los – para tentar responder à seguinte pergunta: “O que faz o Jason quando não está matando jovens?”. No filme, um matador muito similar a Jason aparece, em boa parte do tempo, apenas andando tediosamente pelos espaços próximos de onde estão os jovens.
No caso de X – A Marca da Morte (2022), Ti West ambienta o enredo nos anos 1970 e usa referências de slashers para tratar de desejo e envelhecimento: um grupo de jovens faz um filme pornô numa fazenda e é atacado por alguém que não os quer ali.
A comédia macabra Morte, Morte, Morte! (2022), de Halina Reijn, mostra as desventuras de amigos que estão em uma festa e vão, um a um, sendo assassinados ao longo da noite. Na trama, a diretora satiriza as relações juvenis mediadas pelas performances nas redes sociais.
Nenhum desses filmes revê o slasher a partir de um conjunto de regras reencenadas – que é o caso de derivações nostálgicas, como Pânico 7 (2026), que faz uso de procedimentos conhecidos acrescidos de piadinhas de legado. O “neo-slasher” busca novas perspectivas para um subgênero que, como seus próprios monstros, insiste em não morrer. •
Publicado na edição n° 1426 de CartaCapital, em 19 de agosto de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Os novos monstros’
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