Cultura
Terra, planeta água
Dono de intuição afiada, Viktor Schauberger criou, no início do século XX, teorias sobre o meio ambiente
“Se destruirmos a água e a arrancarmos de seu berço, a floresta, estaremos nos privando do nosso bem mais precioso: a nossa saúde. Com isso, perderemos também nosso lugar de origem, o nosso hábitat.”
A reflexão, com tons proféticos, continua: “Tão inquietos quanto a água desprovida de alma, também nós seremos forçados a vagar. E, por onde quer que passemos, logo se instalarão a decomposição, o desassossego, a ruína, a pobreza e a privação”.
Embora soe atual, a afirmação acima foi escrita há cerca de 90 anos pelo ambientalista austríaco Viktor Schauberger (1885-1958) em seu único livro, Unsere Sinnlose Arbeit (Nosso Trabalho Sem Sentido, em tradução livre), publicado em 1933.
Trata-se de uma crítica contundente à exploração predatória da natureza, sem respeito a seus ciclos vitais.
Nascido em uma família dedicada, por gerações, à silvicultura, Schauberger recusou-se a buscar formação acadêmica tradicional. Preferiu embrenhar-se nas florestas da Alta Áustria, região onde trabalhou como guarda-florestal, e se dedicar à observação do meio ambiente.
Graças a uma intuição afiada e ao exercício indutivo, Schauberger desenvolveu ousadas teorias sobre a água – muitas delas posteriormente comprovadas –, compiladas em capítulos de seu livro e artigos esparsos.
São esses textos, organizados e traduzidos para o inglês em 1997 pelo ambientalista britânico Callum Coats, um entusiasta do pensamento do austríaco, que compõem A Inteligência das Águas.
“Viktor transformava a percepção sobre os movimentos da natureza em filosofia, não em fórmulas químicas”, afirma o engenheiro ambiental Felipe Figueira, tradutor da obra. “Ele não via a água como mero recurso, mas como um organismo vivo.”
Profético. O austríaco Schauberger embrenhou-se nas florestas de seu país, onde trabalhou como guarda-florestal, e dedicou-se à observação da natureza – Imagem: Acervo PKS-Villa
Uma das contribuições do austríaco foi compreender e explicar, de forma minuciosa, o ciclo hidrológico, sempre atento à interação da água – o “sangue da Terra” – com o ambiente em sua totalidade.
A água tem um peculiar processo de maturação. Ao ser submetida a condições ou extração inadequadas, “perde a sua alma” e adoece, deixando também os demais seres enfermos.
“Me chamou a atenção a maneira como ele associava esses problemas à crise social e humanitária de sua época, que não difere muito do que a gente está vivendo hoje”, diz Figueira, lembrando que Schauberger passou pelas duas guerras mundiais. “Ele estava à frente de seu tempo.”
O livro editado por Coats, cujo nome original é The Water Wizard (O Mago das Águas, epíteto atribuído a Viktor Schauberger), foi apresentado a Figueira por João Batista Oliveira, fundador da ONG Nascentes, uma das instituições apoiadoras do projeto.
O trabalho de mergulho no pensamento do austríaco e de tradução dos textos levou cinco anos. Ele envolveu interlocuções com outros ambientalistas e pesquisadores que atuam em prol das águas no Brasil.
Ficou evidente para Figueira que as conclusões de Schauberger sobre a inteligência das águas e de outros processos sistêmicos do planeta tinham muitas afinidades com a cosmovisão dos povos originários do Brasil e de outros territórios.
Por isso, para o lançamento do livro, três meses atrás, no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc São Paulo, além da ativista Pissielly Sarrlorrer, da ONG Nascentes, Figueira convidou o pensador indígena Ailton Krenak.
“É maravilhoso imaginar que um organismo tão inteligente e tão poderoso produziu boa parte de tudo que a gente entende como mundo”, afirma Krenak. “Não seria exagero dizer que a inteligência da água é aquela que cria, diferente de outra, que só copia, a Inteligência Artificial.”
Hoje, entre os temas de maior importância envolvendo gestão hídrica, está o impacto dos data centers, centros de armazenamento e processamento de dados que sustentam o uso dos recursos de Inteligência Artificial e outros serviços digitais.
A Inteligência das Águas. Viktor Schauberger. Org.: Callum Coats. Tradução: Felipe Figueira. Bambual (320 págs., 115 reais)
Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês), o consumo anual de água pelos data centers chega a 560 bilhões de litros e, até 2030, pode dobrar.
Se Schauberger se mostrava cético quanto às tecnologias de manejo hídrico de sua época, Figueira e Krenak também revelam preocupação com o uso nada sustentável da água por atividades econômicas predatórias e a contaminação de rios, mananciais e lençóis freáticos.
“Tem uma música do Dori Caymmi que diz que a água do rio tem medo de gente”, conta Krenak, referindo-se à canção A Água do Rio Doce. “Como é que os humanos conseguiram tornar-se uma coisa tão terrível a ponto de impor medo à água?”, questiona.
“Da janela da cozinha lá de casa, a uns 400 metros, passa ainda o corpo trágico do Rio Doce, arregaçado pela lama da mineração”, diz. “Fora do discurso tecnocrata das empreiteiras, eu digo que o Atu, esse é o nome que o Rio Doce tem na língua krenak, o Atu está em coma, mas não está morto.”
Declarar a morte de um rio, afirma Krenak, é eximir-se de qualquer atitude reparatória ou regenerativa.
Em A Inteligência das Águas, há textos de Schauberger a respeito dos danos causados ao Danúbio e ao Reno, dois importantes rios que atravessam a Áustria. Apesar das diversas passagens técnicas da obra, as críticas do autor se mantêm pertinentes.
“Hoje, já nos deparamos com acontecimentos que deveriam abalar profundamente qualquer pessoa com um mínimo de lucidez”, alertou o austríaco. “Se quisermos tornar a vida novamente prazerosa e bela, devemos agir exatamente onde a vida começa. A origem da vida, a substância primária, é a água, guardiã do segredo de todo ser e da evolução.” •
Publicado na edição n° 1426 de CartaCapital, em 19 de agosto de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Terra, planeta água’
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