Mundo
Direto do inferno
Brasileiro preso no Centro do Diabo do ICE relata agruras e desespero
Daniel Fernandes Alves não consegue dormir à noite. Deitado na cama de ferro da cela que divide com mais 70 detentos, ele vive um eterno medo. Espera o tempo passar de olhos abertos, sem saber o seu destino, até que a exaustão toma seu corpo e seu inconsciente transforma as poucas horas de sono em pesadelos. Natural de Minas Gerais, Alves fez 64 anos em maio, um mês antes de completar um ano sob a custódia do governo norte-americano. Fraco e doente, ele conversou com a reportagem de CartaCapital de dentro de um dos centros mantidos pelo ICE – a polícia migratória repressiva e truculenta de Donald Trump –, onde 3 mil estrangeiros aguardam deportação. Ele usou os poucos créditos de telefonemas a que tem à disposição para denunciar o que vem vivendo. “Estou muito mal, doente, sem condições de tratamento, magro, passando necessidade”, declara. “Vivo numa situação de precariedade. Não tem higiene, não tem água potável para tomar”, lamenta.
Seu raro relato de dentro de um centro do ICE é uma fresta sobre as condições que vivem milhares de estrangeiros humilhados pelo presidente republicano. Alves residia havia mais de 20 anos na região de Orlando, no estado da Flórida. Manteve residência, atividade profissional e obrigações tributárias no país, teve em certo momento autorização de trabalho e habilitação para dirigir e conquistou um empreendimento próprio: sua empresa de construção chegou a empregar 14 pessoas, inclusive cidadãos norte-americanos. Desde 2020, ele tentava regularizar sua situação, sem sucesso, tendo recorrido a diversos tribunais. Em uma das audiências regulares, em 4 de junho de 2025, foi preso. Por um processo kafkiano, o que era para ser um período curto de prisão antes de ser deportado ao Brasil se transformou numa saga sem-fim. A Justiça exigiu que ele renunciasse aos recursos como condição para a deportação. Desesperado, ele aceitou. Mas a burocracia, a lentidão do sistema de Justiça do país e o acúmulo de estrangeiros detidos acabaram por deixá-lo esquecido no sistema.
Ele está no Folkston ICE Processing Center, localizado dentro da prisão privada D. Ray James, no estado da Geórgia. O local é alvo de sérias denúncias de violações de direitos humanos e foi apelidado de “Devil’s Center”, ou o Centro do Diabo. O brasileiro conta que ele e seus companheiros de cela “vivem como lixo e criminosos”, dormindo em beliches de metal com um “colchãozinho”. A sujeira e o ar-condicionado, que mantém o quarto a 14 graus Celsius, causam falta de ar e uma tosse constante. “Há muita gente doente, como se tivessem Coronavírus”, descreve. Para complicar, quando se pede remédio, o atendimento pode levar até uma semana.
Cerca de 70 prisioneiros dividem três sanitários e quatro pias em um ambiente sem higiene e a água oferecida para beber é a do banheiro. “Para a gente não se contaminar, fervemos no micro-ondas.” Quem ousa tomar banho com os pés no piso se infecta com fungos. E a limpeza do quarto fica a cargo dos detidos, sob pena de perderem seus telefones ou a televisão. “Somos ameaçados 24 horas por dia.”
Tem hora que dá vontade de me enforcar e acabar com tudo, desabafa Alves, que não tem ideia de quando será deportado
A comida também é alvo das reclamações. Pelas normas do ICE, os detidos devem receber três refeições diárias – sendo duas quentes. O problema é que o Congresso destinou recursos relativos à detenção de até 41,5 mil pessoas. Mas, no início de julho, o ICE mantinha mais de 57 mil pelo país. O resultado tem sido contaminação em alimentos e uma redução brutal na qualidade da comida. Com pré-diabetes e colesterol alto, Alves vê sua saúde ser severamente comprometida.
Mas é a depressão que realmente o assusta. Por conta do barulho no ambiente, ele só consegue dormir quando já é madrugada e é acordado cedo pelos policiais. E não descansa quando dorme. “Tenho muitos pesadelos. Já acordei gritando, pensando que havia alguém tentando me matar.” Essa sensação de pânico se agravou depois que ele presenciou a violência de um policial contra um estrangeiro, que acabou morrendo no hospital. O relato de Alves descreve um local que é o espelho de uma política marcada pelo supremacismo branco. Ali estão os indesejados do planeta. “São venezuelanos, africanos, haitianos, de Honduras, Guatemala, México, China…”, lista o brasileiro. E o que eles falam sobre o governo Trump? Alves diz que o sentimento de indignação reina e admite que muitos se iludiram com as promessas de que só criminosos seriam deportados. “Vários imigrantes concordaram, porque havia muita baderna. Até eu concordava, assaltaram a casa que eu estava construindo. Mas o governo saiu do controle, mataram pessoas inocentes e até americanos. Trump vai ser muito odiado pelo mundo”, constatou.
O clima no local é de medo e muitos optam pelo silêncio, para não minar seus processos de deportação. “Ninguém abre a boca. Aqui tudo é monitorado”, diz Alves, que temia acabar numa solitária, sem colchão, ao conversar com um jornalista. Mas considera que chegou a hora de falar: “Nós somos seres humanos. Não podemos ser excluídos por conta de raça, cor e nacionalidade.”
Se pudesse escolher entre ser libertado ou deportado, a resposta é imediata. “De coração, eu não tenho mais vontade de ficar nos Estados Unidos. Minha maior vontade é sair daqui. A liberdade é o maior valor desta vida”, reconhece. O brasileiro faz um apelo para que o governo Lula atue para acelerar sua deportação. A reportagem apurou que deputados do PSOL já enviaram cartas ao Itamaraty cobrando uma ação. Sem saber o que vai lhe acontecer, o brasileiro chegou a causar pânico em sua família e, neste momento, está tomando 14 remédios diferentes e pesando 45 quilos. “Já fiquei desesperado, falei bobagens. Tem hora que dá vontade de me enforcar e acabar com tudo. Mas não penso em fazer isso. Não vou tirar minha vida em troca de nada”, relata.
Em cerca de um ano e meio de governo, Trump revogou 100 mil vistos, fez dezenas de milhares de prisioneiros e ampliou como nunca os centros de detenção de estrangeiros. No ano fiscal, 350 mil foram deportados e milhares de outros que, diante do terror, optaram por sair de forma “voluntária”. O número de pessoas detidas nas ruas aumentou 11 vezes, em comparação a 2024. Em pouco mais de um ano, 500 bebês foram presos pelo ICE. E a meta do governo é tão ambiciosa quanto assustadora: realizar a maior operação de deportação da história, expulsando do país 10 milhões de seres humanos. Suas cores, etnias, origem e idiomas todos sabem quais são. Não se trata de garantir a segurança de um país. Estamos diante da implementação de um projeto supremacista branco, ambicioso, com um plano detalhado, infraestrutura e muito dinheiro. •
Publicado na edição n° 1426 de CartaCapital, em 19 de agosto de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Direto do inferno’
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