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Empresário goiano usa Inteligência Artificial para levar à população dados públicos de Piracanjuba

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Utilidade pública. Ferro acompanha os dados da prefeitura de Piracanjuba desde 2012. Os municípios de Morrinhos e Goiânia vão adotar a tecnologia – Imagem: iStockphoto e Redes Sociais
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Em Piracanjuba, cidade de pouco mais de 25 mil habitantes no sul de Goiás, um sistema construído por um único morador passou a fazer o que a estrutura municipal não fazia. Desde o fim de janeiro, o ­Piracanjuba.ai reúne em um só lugar salários de servidores, contratos, licitações e indicadores de saúde e educação, informações que a prefeitura mantinha espalhadas em portais difíceis de navegar. O responsável é Gianluca Ferro, empresário de 35 anos que usa Inteligência Artificial para organizar o que a Lei de Acesso à Informação garante ao cidadão, mas que na prática poucos conseguem encontrar.

Ferro acompanha a administração pública de Piracanjuba desde 2012, quando tinha 22 anos e começou a questionar gastos e contratos públicos do município. Por conta do perfil crítico, muitos imaginavam que o rapaz sonhava com a carreira política. Ferro nunca, porém, se filiou a um partido, disputou eleição ou ocupou cargo público. Preferiu apostar na tecnologia. A plataforma nasceu como extensão natural do acompanhamento pessoal, um jeito de transformar anos de observação individual em ferramenta coletiva, acessível para qualquer morador da cidade.

A primeira versão funcional levou menos de uma semana para ficar pronta, com investimento de pouco mais de mil reais. O produto atual resulta de meses de testes, correções e integração de novas fontes de dados, um trabalho medido menos em dinheiro do que em horas de dedicação pessoal. O ­Piracanjuba.ai combina coletores automáticos, chamados de cron jobs, com validação manual. Remunerações são atualizadas mensalmente, contratos e licitações passam por checagem diária. Depois da coleta, os registros seguem para normalização, eliminação de duplicidades e cruzamento com outras bases, sempre com indicação da fonte original.

A Inteligência Artificial usada mistura tecnologias da Anthropic, da ­OpenAI e do Google, aplicadas conforme a tarefa. A plataforma classifica documentos, localiza conexões entre registros e traduz termos técnicos para linguagem simples. Contratos, valores e nomes exibidos são extraídos diretamente dos registros oficiais, não de geração automática pelo modelo.

Correções foram feitas, claro, entre elas registros duplicados e associações equivocadas entre bases da prefeitura e da Câmara Municipal. Segundo Ferro, nenhuma se caracterizou como invenção do modelo. Foram falhas de integração entre sistemas, corrigidas assim que identificadas.

A audiência acompanha o crescimento da repercussão. A plataforma recebe cerca de 300 visitas por dia, o equivalente a 9 mil por mês, volume expressivo para uma cidade de 25 mil habitantes. Ferro descreve o público como uma mistura de moradores, jornalistas e servidores interessados em fiscalizar a gestão. Da Câmara o projeto nunca recebeu contato ou manifestação de interesse. Na prefeitura, o único gestor que o procurou para conversar foi o vice-prefeito, Milton Justus, em uma aproximação que o criador da plataforma interpreta como iniciativa pessoal, distante de qualquer posição institucional do governo.

Em 2025, no ranking do Programa Nacional de Transparência Pública, Piracanjuba ocupou a 231ª posição entre 246 municípios goianos, com índice de 54,24%. Até poucas semanas atrás, o portal oficial de transparência da cidade seguia defasado.

O contrato da prefeitura com a empresa NucleoGov para consultoria em transparência começou a valer em 3 de junho, data que coincide com a primeira repercussão do Piracanjuba.ai na mídia. Cerca de 50 dias depois, em meio a nova onda de reportagens, o portal renovado entrou no ar.

A plataforma recebe cerca de 300 visitas por dia, volume expressivo para uma cidade de 25 mil habitantes

Ferro evita atribuir a mudança a um único fator, mas reconhece que o tema passou a ocupar espaço que antes não tinha no debate local. Um exemplo concreto de repercussão é o contrato 171 de 2026, no valor de 160 mil reais, para uma apresentação musical de 40 minutos. Em meio a discussões sobre austeridade nas contas públicas, moradores passaram a colocar em dúvida o valor e a prioridade da despesa.

A plataforma funciona hoje com recursos próprios de Ferro. Uma tentativa de arrecadar doações resultou em 78 reais em quatro meses, valor insuficiente para cobrir a manutenção do banco de dados e da infraestrutura. Espaços publicitários foram oferecidos a empresários locais, mas o receio de associar a marca a uma iniciativa vista como oposição à prefeitura afastou possíveis anunciantes.

Os custos recorrentes de manutenção ficam entre 200 e 300 reais por mês. Depois da repercussão nacional, empresários e agentes políticos procuraram Ferro com propostas de apoio à expansão do projeto, mas nenhuma foi formalizada. Ele descarta vender o sistema diretamente a prefeituras, pela possibilidade de gerar conflito de interesse com o próprio objeto fiscalizado. Cogita caminhos como editais, fundações e universidades, desde que preservada a independência editorial.

Ferro desenvolve atualmente versões para os municípios de Morrinhos e Goiâ­nia, e para o estado. A escolha das próximas cidades considera a qualidade dos portais oficiais, a relevância das bases disponíveis e a capacidade de manter as sincronizações em funcionamento. Segundo ele, quanto pior a organização dos dados públicos de um município, maior a utilidade potencial da ferramenta.

O crescimento da rede de plataformas amplia o desafio da neutralidade. Ferro afirma aplicar as mesmas regras de coleta e alerta a qualquer gestão, independentemente do partido no poder, e promete tornar públicas a metodologia, as fontes de financiamento e eventuais conflitos de interesse à medida que o projeto avança pelo interior de Goiás.

O que Piracanjuba testou em escala municipal toca um problema maior da democracia brasileira, o de leis de transparência que existem no papel, mas dependem de tradutores para chegar à população. Entre a Lei de Acesso à Informação e o entendimento do cidadão comum ainda cabe alguém disposto a organizar planilhas, cruzar registros e sustentar, sozinho, o custo de manter aberta essa ponte. •

Publicado na edição n° 1426 de CartaCapital, em 19 de agosto de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Fiscal IA’

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