Política
Largado no sertão
Flávio Bolsonaro pena para amealhar apoio político na região
Flávio Bolsonaro vestiu um gibão e um chapéu de couro em visita à Paraíba no começo de agosto. Como se a roupa tradicional do vaqueiro nordestino pudesse apagar o histórico xenofóbico que seu sobrenome arrasta, posto que seu pai passou os quatro anos de mandato destilando preconceitos, insultos e, pior, desmontando políticas públicas para a região. O resultado é que, em 2022, Lula celebrou uma vitória arrasadora. Mesmo com as blitze da Polícia Rodoviária Federal bloqueando o caminho de eleitores, Bolsonaro só venceu em 20 dos 1.793 municípios nordestinos. Neste ano, o petista ainda mantém vantagem larga. Pesquisa Datafolha de 27 de julho aponta um placar de 62% a 29% na região em um eventual segundo turno. Tanto que, no discurso na Convenção do PL em João Pessoa, no começo de agosto, que oficializou o senador Efraim Filho como candidato ao governo do estado, Flávio apelou para o Bolsa Família, afirmando que garantiria o benefício, mas dizendo que ele não poderia ser o final do caminho. Na semana seguinte, em uma live para anunciar os apoios à sua candidatura nos estados, apenas nomes ao Senado foram mencionados quando o Nordeste entrou em pauta, evidenciando uma das principais dificuldades do candidato na região no período pré-eleitoral: construir palanques fortes nos nove estados que, juntos, formam o segundo maior colégio eleitoral do País, com mais de 43,5 milhões de eleitores.
Além da Paraíba, apenas o Rio Grande do Norte aparece como um palanque majoritário competitivo para o candidato do PL, com o ex-prefeito de Natal Álvaro Dias, do mesmo partido, na cabeça de chapa. Mesmo assim, o aliado não lidera as intenções de voto. Em levantamento realizado pelo TCM Pesquisa, divulgado no fim de julho, Dias figura em segundo lugar, com 24,9%, atrás do ex-prefeito de Mossoró Allyson Bezerra (União Brasil), com 38,8%. Na Paraíba, o cenário é ainda mais sofrível. Efraim Filho está na terceira colocação, com 17%, segundo a pesquisa DataTrends, também do mês passado. O governador Lucas Ribeiro, candidato à reeleição pelo PP, lidera a preferência dos paraibanos, com 34%, seguido do ex-prefeito de João Pessoa Cícero Lucena (MDB), com 27%. Efraim Filho, no entanto, vê o cenário com otimismo: “Estamos numa rota crescente, algumas pesquisas já apontam a nossa presença no segundo turno”, disse em entrevista a CartaCapital.
Para transformar o sonho em realidade e melhorar a popularidade de Flávio Bolsonaro no estado, o paraibano aposta no discurso moralista tão caro ao bolsonarismo. “A ideia é focar na agenda dos princípios e valores. Temos um povo sertanejo que não gosta de rótulos, seja de esquerda, seja de direita ou de centro. Mas ele tem um pensamento que alinha muito com o que a gente defende, uma agenda pró-vida, contra o aborto, pró-família, contra a legalização das drogas, e pró-liberdade, contra a censura. Esses temas fazem com que os eleitores se identifiquem conosco e isso tem feito a diferença. Eles não estão vindo necessariamente pela bandeira ideológica, mas pelos valores”, destaca, reconhecendo, no entanto, a hegemonia lulista. Em 2022, Lula obteve 67% dos votos dos paraibanos, contra 33% de Bolsonaro. Efraim Filho recorda que, em 2018, Bolsonaro ganhou nos dois maiores colégios eleitorais da Paraíba, João Pessoa e Campina Grande, e perdeu por uma diferença mínima em 2022, e conta que a expectativa agora é ganhar de novo nessas duas cidades, conquistando ainda o interior e cidades menores. “A gente quer chegar à marca dos 40% do eleitorado no estado”, projeta. “Temos a humildade de saber que é difícil reverter o favoritismo da esquerda no Nordeste, mas é absolutamente possível entregar uma margem menor, o que vai contribuir para uma virada nacional.”
O filho 01 só tem palanque forte em dois dos nove estados
Embora com pouca chance de decolar, o PL tem palanque em Sergipe, com o apoio do vice-prefeito de Aracaju, Ricardo Marques, terceiro colocado nas pesquisas para o governo do estado, com 4,5%. Lá, a disputa está dividida entre o atual governador e candidato à reeleição, Fábio Mitidieri (PSD), que tem 45,4% das intenções de voto, e Valmir de Francisquinho (Republicanos), que registra 32,2%, segundo o último levantamento feito pelo Instituto CTAS, divulgado no fim de julho. Mesmo com a desvantagem, Marques diz querer transformar Sergipe em uma das principais trincheiras de Flávio no Nordeste. “Nossa candidatura tem a missão de conectar o projeto nacional com as demandas locais e construir uma base forte, município por município”, diz. Para a socióloga Fernanda Rios Petrarca, professora da Universidade Federal de Sergipe, a candidatura bolsonarista no estado tem mais o objetivo de fazer uma bancada expressiva para os legislativos estadual e federal e menos para consolidar a campanha do filho 01. “As candidaturas de Ricardo Marques ao governo e Rodrigo Valadares ao Senado não se propõem a vencer o pleito estadual, mas demarcar território. Eles formam a base orgânica necessária para eleger parlamentares estaduais e federais e garantir que o bolsonarismo raiz tenha voz autônoma e comando estruturado em Sergipe”, opina. Para além dos palanques próprios da Paraíba, Rio Grande do Norte e Sergipe – que, com Alagoas, são os menores colégios eleitorais da região –, nos outros sete estados nordestinos Flávio não tem palanques majoritários para subir. Vai ter de se contentar com aliados que disputam o Senado. Como João Roma na Bahia, Mendonça Filho em Pernambuco, Alcides Fernandes no Ceará, Cidônio Gonçalves no Maranhão e Tiago Junqueira no Piauí.
Em Alagoas, o cenário ainda é de indefinição. Lá, o presidenciável tem o apoio de Arthur Lira, do PP, ex-presidente da Câmara dos Deputados, que recebera a promessa de Jair Bolsonaro de apoio para se eleger senador. O candidato ao Planalto ainda sonha com o palanque do ex-prefeito de Maceió JHC, que, embora confirmado na convenção do PSDB como candidato a governador, pode disputar o Senado. Até o fechamento desta edição, na quinta-feira 13, a candidatura de JHC continuava indefinida e só seria definida no sábado 15, data-limite para o registro de chapa na Justiça Eleitoral. Com um cenário tão desfavorável na região, é provável que o gibão do senador não veja muito a luz do dia até as eleições. •
Publicado na edição n° 1426 de CartaCapital, em 19 de agosto de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Largado no sertão’
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