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O rei do bolão

Alessandro Montenegro acumula prêmios nas loterias federais e ganha fama nacional

O rei do bolão
O rei do bolão
Sorte ou técnica. Após ficar de fora de uma aposta coletiva premiada, o dono da lotérica em Fortaleza não deixa passar uma. Montenegro usa dezenas ampliadas – Imagem: Acervo Pessoal Alessandro Montenegro e Prefeitura de Chapecó/Loterias da Caixa
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Há quem passe a vida tentando decifrar a alquimia da sorte. Alessandro Montenegro parece ter achado um atalho. No domingo 9, enquanto milhões de brasileiros sonhavam ou sofriam à espera dos números da Mega-Sena, o cearense assistia ao sorteio com a serenidade de quem conhece a sensação. Só em 2026, o dono de uma casa lotérica no bairro da Aldeota, em Fortaleza, soma nove prêmios principais nas modalidades da Caixa, um prodígio para os clientes fascinados. Para Montenegro, trata-se de mera rotina. “A gente grava a venda ao vivo de segunda a sábado, no YouTube e no ­Instagram, e mostra o bilhete premiado assim que paga um prêmio”, afirmou, após encher um pouco mais os bolsos. “Fora os prêmios principais, quase todo dia sai uma quina, uma quadra, uma aposta com 14 pontos na Lotofácil aqui dentro. Já é rotina pagar prêmio pra gente.”

A sorte de Montenegro mudou ao assumir a lotérica da família em 2019, após a paralisação das obras de uma rodovia na qual trabalhava como operador de máquinas. Durante a pandemia, a primeira oportunidade passou diante de seus olhos. O comerciante não quis comprar uma das 35 cotas de um bolão premiado da Mega-Sena que ele mesmo havia montado. “Tinha outros sete bolões guardados no cofre da empresa, quase 22 milhões, e fiquei vendo aquelas 35 pessoas mudarem de vida”, recorda. Daquele dia em diante, o empresário tomou uma decisão que mudou sua vida: nunca mais ficaria de fora dos bolões.

O primeiro prêmio, da Lotofácil, saiu em maio de 2021. O ganho foi revertido em investimentos em tecnologia e a lotérica passou a vender apostas, via internet e WhatsApp, para o Brasil inteiro. Atualmente, 90% das vendas acontecem de forma remota e mais de 60% dos clientes moram fora do Ceará. A Aldeota fatura 57 milhões de reais por ano, emprega perto de cem funcionários e carrega o título de lotérica Número 1 do Brasil há seis anos seguidos. Quem vive em outras cidades e estados entra pelo WhatsApp, escolhe o bolão por foto e faz o pagamento via Pix. Montenegro registra o nome e o CPF do cliente no verso do bilhete e guarda o comprovante no cofre da empresa até a hora de sacar o prêmio.

Além dos ganhos com apostas, o cearense fez da Aldeota a maior lotérica do País, com faturamento anual de 57 milhões de reais

O modelo tem relação direta com a fama de sortudo que virou a marca registrada do empresário. A Aldeota monta bolões com dezenas ampliadas, formato que multiplica as combinações possíveis, embora também resulte em um aumento no preço de cada cota. Montenegro faz questão de participar dos bolões que vende, hábito que o transformou em personagem fixo das listas de ganhadores da Caixa e rendeu, nas redes sociais, o apelido de rei do bolão.

A sequência de êxitos, em 2026, começou em maio, quando o comerciante despontou entre os vencedores de um prêmio da Mega-Sena de 168 milhões de ­reais, feito que ampliou sua fama no País. Em junho, veio o bolão vitorioso da Quina de São João de 27,2 milhões de reais. Nas semanas seguintes, dividiu com 31 apostadores a maior premiação paga pela Lotofácil em um concurso regular (14,4 milhões) e faturou um Dia da Sorte. No domingo 9, o concurso 3042 da Mega-Sena confirmou seu apelido. Um bolão de 15 dezenas organizado pela Aldeota acertou as seis dezenas e faturou 166,5 milhões de reais. Montenegro ficou com 1,66 milhão. A cota custava 405 reais, valor que, multiplicado pela premiação, virou uma das histórias mais comentadas do noticiário a respeito de loterias no País.

Só neste ano, até agora, foram nove premiações. A última, o bolão da Mega-Sena do domingo 9

Com o novo resultado, a lotérica alcança a marca de 15 prêmios principais desde que o empresário assumiu o negócio, entre eles três Mega-Sena, dez Lotofácil, um Quina de São João e um Dia de Sorte. Nove desses prêmios saíram só em 2026, ano mais premiado da trajetória da Aldeota. No acumulado, foram 555 milhões de ­reais­ distribuídos, com 730 ganhadores registrados e 235 novos milionários.

Em Fortaleza, a fama ultrapassou o bairro que dá nome à empresa. “Eu já era conhecido aqui, por ser dono da maior lotérica do Brasil, mas agora me param na rua, pedem foto, perguntam como fazem para entrar no bolão comigo”, conta. O movimento na loja cresceu, com gente vindo de outros bairros só para tentar tirar uma casquinha do “rei do bolão”. Quem duvida de tamanha sorte, ouve de Montenegro lições de matemática. “No site da Caixa tem lá, uma aposta simples da Mega-Sena tem probabilidade de uma em 50 milhões. Uma aposta de 20 dezenas cai para uma em 1.292”, ensina. “Quando monto três bolões diferentes de 20 dezenas, a probabilidade desse conjunto é de uma em 430, como se o apostador estivesse concorrendo sozinho num auditório de 430 pessoas.” Uma aposta individual de 20 dezenas custaria mais de 232 mil reais na lotérica. Dividida em cem cotas, o investimento de cada apostador fica na casa dos 3 mil.

O negócio reflete uma mudança maior no setor. As quase 13 mil lotéricas brasileiras enfrentam, desde 2024, a concorrência das bets esportivas, negócio bilionário que disputa a atenção – e os caraminguás – dos apostadores. Em vez de reduzir sua operação, Montenegro investiu no atendimento remoto, na equipe de vendas e em bolões mais complexos. “Time que está ganhando não se mexe”, resume, sobre os planos daqui para a frente. Está a todo vapor a venda dos bolões da Lotofácil da Independência, sorteio especial em 15 de setembro, cujo prêmio é estimado em 300 milhões de reais. Vai uma fezinha aí? •

Publicado na edição n° 1426 de CartaCapital, em 19 de agosto de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O rei do bolão’

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