Drauzio Varella

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Médico cancerologista, foi um dos pioneiros no tratamento da AIDS no Brasil. Entre outras obras, é autor de "Estação Carandiru", livro vencedor do Prêmio Jabuti 2000 na categoria não-ficção, adaptado para o cinema em 2003.

Colunas

Batendo as asas

O grande deslocamento de populações humanas tem sido responsável pela disseminação dos mosquitos e das doenças transmitidas por eles

Batendo as asas
Batendo as asas
Aedes Aegypti. Foto: 41330/Pixabay
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Anos atrás, gravei um programa para o Fantástico, da TV Globo, entre os ribeirinhos do Alto Rio Negro, no Amazonas. Quando lhes perguntei qual era o animal mais perigoso para os seres humanos, citaram a cobra, a onça, as piranhas, os jacarés e até leões e tigres. Ficaram surpresos quando lhes disse que era o mosquito.

Os mosquitos são animais bem-sucedidos do ponto de vista evolutivo. Estão na Terra há muito mais tempo do que nós. Estima-se que as primeiras espécies da família Culicidae surgiram entre 200 milhões e 230 milhões de anos atrás. Quando aquele meteoro caiu na Península de Yucatán, no México, há 66 milhões de anos, extinguindo os dinossauros, os mosquitos sobreviveram.

Nos últimos 50 milhões de anos, a família se diversificou, dando origem aos gêneros Aedes, Anopheles e Culex. Nesses gêneros, o metabolismo energético das fêmeas e dos machos depende da ingestão de carboidratos retirados das flores, da seiva e dos frutos. As fêmeas, no entanto, necessitam sugar sangue para obter as proteínas necessárias à produção dos ovos que darão origem às novas gerações.

Esse capricho biológico é que os torna os animais mais perigosos da Terra. Ao sugar o sangue de vários indivíduos, as fêmeas podem infectar-se por microrganismos presentes na corrente sanguínea, que serão transmitidos por elas de uma pessoa para outra.

O deslocamento de populações humanas tem sido responsável pela disseminação dos mosquitos e das doenças transmitidas por eles.

O exemplo clássico é o do infame tráfico de africanos escravizados para as Américas, com a introdução de doenças que não existiam entre os povos originais desses continentes. É o caso do Aedes aegipty transportado nos porões dos navios, que causou epidemias de febre amarela nos países das três Américas, a partir do século XVI.

A presença do mesmo Aedes aegipty levou a malária para várias partes do mundo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), depois de leve declínio, o número de doentes com malária voltou a crescer a partir de 2015. Em 2023, foram 273 milhões de casos; no ano seguinte, 282 milhões, com 610 mil mortes.

A dengue atingiu o recorde de 14 milhões de casos relatados à OMS, e 12 mil mortes. A doença espalhou-se pelas Américas e atingiu áreas que se achavam livres dela, na Europa, na Ásia e na Austrália.

Nos últimos 20 anos, a chikungunya emergiu em mais de cem países, causando surtos epidêmicos na China, Itália e França. No ano passado, provocou 46 mortes em Cuba.

Entre junho de 2025 e abril de 2026, um parente muito próximo do Aedes ­aegipty, o Aedes albopictus invadiu várias áreas da Europa, entre as quais Portugal, França e Grécia, transmitindo dengue e chikungunya para populações até então virgens dessas arboviroses.

O Aedes aegipty foi o que mais se disseminou pelo mundo. Hoje, ele está presente em 150 países. Conseguiu instalar-se até em partes da América do Sul com invernos mais rigorosos, a exemplo do Sul do Brasil, Uruguai, Argentina e Paraguai. Hoje há casos bem documentados em altitudes elevadas.

É um fenômeno novo, porque, para se reproduzir, o Aedes aegipty precisa de temperaturas altas e chuvas. Essas áreas da América do Sul com temperaturas mais baixas em boa parte do ano dificultavam a proliferação de criadouros. Tais condições, no entanto, estão mudando por causa do aquecimento global, que oferece ambientes mais favoráveis à sobrevivência das larvas, nas coleções de águas paradas.

Além das mudanças climáticas, o processo de urbanização, as características das moradias em áreas com adensamento populacional, a destruição do ambiente, as modificações ecológicas e a instabilidade social favorecem a disseminação dos mosquitos.

Contribuem também a intensificação dos tráfegos aéreo e terrestre, do comércio internacional de produtos e a manipulação dos recursos hídricos por meio da irrigação. Mosquitos que sempre dependeram das próprias asas para se deslocar, hoje viajam de avião, trens, carros e até transatlânticos.

Uma revisão recente mostrou que, do ano 2000 a esta data, 12 espécies de mosquitos-vetores de doenças invadiram novas regiões das Américas, Ásia, Europa e Oceania. A partir dos dados numéricos, os autores concluíram que “os mosquitos estão se espalhando rapidamente pelo mundo”.

As alterações climáticas e as condições sociais têm expandido os territórios desses nossos inimigos. O antiquado rótulo de doenças tropicais deve ser esquecido. •

Publicado na edição n° 1426 de CartaCapital, em 19 de agosto de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Batendo as asas’

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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