Política
Exclusão de Garotinho beneficia Paes, mas pode frustrar plano do PT no Rio
O ex-prefeito ganha mais pontos que o candidato de Flávio Bolsonaro e pode liquidar a eleição ainda no primeiro turno, o que não convém aos aliados petistas
A possível inelegibilidade de Anthony Garotinho (Republicanos) pode produzir um efeito inesperado na eleição para o governo do Rio. A saída do ex-governador tende a beneficiar mais Eduardo Paes (PSD) do que Douglas Ruas (PL). Os dois disputam parte do eleitorado de direita, mas a pesquisa Genial/Quaest mostra que a retirada de Garotinho não provoca uma migração relevante de seus votos para o candidato apoiado por Flávio Bolsonaro (PL). Em vez disso, Paes amplia sua vantagem e fica mais próximo de vencer no primeiro turno.
No cenário com os três candidatos, divulgado pela Quaest em 27 de julho, Paes tinha 38%, enquanto Garotinho e Ruas apareciam empatados com 10%. Quando o ex-governador era retirado da simulação, Ruas avançava apenas para 11%. Paes, por sua vez, chegava a 42%.
O resultado é importante porque enfraquece a hipótese de que Garotinho esteja apenas impedindo Ruas de concentrar o voto da direita. Se a saída do ex-governador fosse suficiente para transformar o candidato do PL no principal beneficiário, seria esperado um crescimento maior de Ruas. Não é o que aparece no levantamento.
O cenário também altera a perspectiva para o segundo turno. Na pesquisa, Paes tinha 48% contra 18% de Garotinho em uma eventual disputa entre os dois. Contra Ruas, o ex-prefeito marcava 52%, enquanto o candidato do PL ficava com 16%. Ou seja, Garotinho, apesar de estar sob ameaça jurídica, aparecia numericamente como um adversário mais competitivo para Paes do que Ruas.
É esse conjunto de números que torna a situação particularmente relevante para o PT. O partido não tem interesse apenas em uma vitória de Paes. É conveniente levar a disputa no Rio ao segundo turno, com dois candidatos diretamente associados à disputa presidencial: Paes como aliado de Lula (PT) e Ruas como candidato do PL de Flávio Bolsonaro.
A possibilidade de nacionalizar a eleição estadual já apareceu no debate da Band, realizado no domingo 9, antes da decisão judicial que colocou a candidatura de Garotinho novamente em xeque. O ex-governador atacou Ruas pela relação com Flávio e cobrou do deputado uma defesa mais firme do senador durante o confronto.
“O que o Flávio Bolsonaro sofreu hoje com a covardia, o candidato dele não teve coragem de defendê-lo. Pelo menos o William Siri [candidato do Psol] defendeu o voto no candidato dele, Lula. O candidato do Flávio Bolsonaro ficou com medo”, afirmou Garotinho.
Ruas respondeu nas considerações finais e afirmou que Flávio estará ao seu lado na largada da campanha, em 16 de agosto. A troca evidenciou a disputa entre os dois pelo eleitorado de direita e, principalmente, pelo posto de principal nome do campo bolsonarista na corrida estadual.
O deputado também tentou se desvincular da ideia de ser apenas o candidato da família Bolsonaro. Durante o debate, afirmou: “Não sou candidato de ninguém. Tenho identidade própria. Eu sou Douglas Ruas, sou um servidor público de carreira. Nos últimos 12 anos, servi em diferentes funções públicas e nunca escolhi chefe, sempre escolhi a missão”.
A disputa entre os dois pode, porém, terminar antes mesmo de a campanha começar oficialmente. Na segunda-feira 10, a Justiça do Rio determinou que Garotinho cumpra uma sentença que suspende seus direitos políticos por oito anos. A decisão foi comunicada ao Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro e ao Tribunal Superior Eleitoral, mas não declarou que ele está inelegível. Cabe à Justiça Eleitoral decidir se a condenação impede sua candidatura.
A condenação está relacionada a irregularidades no programa Saúde em Movimento, da Secretaria Estadual de Saúde, entre 2005 e 2006, quando Garotinho era secretário de Estado de Governo na gestão de sua mulher, Rosinha Garotinho. A sentença determinou, além da suspensão dos direitos políticos, o ressarcimento do valor apontado como desviado e outras sanções.
A defesa contesta justamente o momento a partir do qual os oito anos devem ser contados. Para os advogados, o trânsito em julgado ocorreu em 2018 e, portanto, a punição já foi cumprida. “A suspensão dos direitos políticos se exauriu em 1º de agosto de 2026”, afirmou o defensor Admar Gonzaga.
O caso não está resolvido, e a eventual saída de Garotinho não permite concluir que Ruas assumirá automaticamente sua fatia do eleitorado. Pelos números disponíveis, o efeito mais imediato seria outro: Paes ganharia espaço para tentar liquidar a eleição no primeiro turno, enquanto o candidato de Flávio Bolsonaro continuaria precisando crescer para transformar a disputa em um confronto nacionalizado.
O Republicanos tem até 15 de agosto para registrar as candidaturas e decidir se mantém Garotinho ou apresenta outro nome. Se a candidatura for registrada, o TRE-RJ poderá ser acionado para analisar sua elegibilidade, com possibilidade de recurso ao TSE.
O partido já discute alternativas caso os advogados considerem inviável manter o ex-governador na disputa. A decisão ocorrerá às vésperas do início oficial da campanha, em 16 de agosto, quando Paes e Ruas começarão a disputar diretamente o eleitorado que pode determinar se a eleição terminará na primeira rodada ou chegará ao segundo turno.
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