Do Micro Ao Macro
Entenda o que as empresas devem priorizar com a NR-1 em vigor
Auditorias trabalhistas passam a checar a saúde mental dentro das empresas após entrada em vigor da nova etapa da NR-1 em maio.
O Brasil registrou 546 mil afastamentos do trabalho por transtornos mentais em 2025, alta de 15% em relação ao ano anterior e o terceiro aumento seguido, segundo dados do INSS. O número chega junto com uma mudança de regra que passa a cobrar das empresas gestão ativa do risco psicossocial.
Desde 26 de maio, a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) exige que companhias mapeiem e gerenciem risco psicossocial dentro do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). Na prática, isso significa que empresas já podem ser fiscalizadas caso deixem de fora fatores ligados à saúde mental de seus quadros.
A fiscalização, porém, não chega de forma uniforme. “Nesses primeiros meses de vigência, o Ministério do Trabalho e Emprego não vai fiscalizar todas as organizações do país, isso seria impossível. O que tende a acontecer é uma fiscalização baseada em gatilhos, principalmente denúncias e acidentes graves”, explica Tatiana Pimenta, fundadora e CEO da Vittude, empresa de programas corporativos de saúde mental.
Segundo ela, uma denúncia de assédio, sobrecarga ou condição de trabalho que afete a saúde mental já é suficiente para colocar a empresa no radar do órgão. Afastamentos que chamem atenção pelo volume também funcionam como gatilho. “E quando o auditor chega, ele não olha só o documento, mas conversa com os trabalhadores, cruza informações e verifica se o que está no papel corresponde à realidade”, completa a executiva.
Alguns setores concentram risco psicossocial mais alto pela própria natureza da atividade, entre eles telemarketing, educação, bancos, serviços financeiros, hospitais e áreas com atendimento intenso ao público ou exposição recorrente à violência urbana. Para esses segmentos, a atenção da fiscalização tende a ser maior.
Mapeamento psicossocial exige parceiro comprovado
A primeira decisão das empresas envolve quem vai conduzir o mapeamento. “O mercado está cheio de oportunistas, com consultorias novas e soluções milagrosas, mas é preciso cautela. Deve-se buscar parceiros com experiência concreta no mapeamento de risco psicossocial, histórico de atendimento em organizações de porte semelhante e capacidade de oferecer parâmetros e boas práticas do setor”, afirma Pimenta. Segundo a executiva, esse tipo de bagagem deixou de ser diferencial e passou a ser exigência.
Avaliação psicossocial pede rigor científico
Outro ponto sensível é a escolha do instrumento de avaliação. “Nem todo instrumento validado cientificamente é adequado para a realidade corporativa. Existem ferramentas excelentes para pesquisa clínica, mas inviáveis para grandes empresas por exigirem questionários longos e complexos, o que reduz a adesão e aumenta o risco de fragilidade diante de uma fiscalização”, pondera Pimenta.
Ela cita ainda uma falha comum: instrumentos amplamente usados deixam de fora o assédio moral, hoje um dos fatores mais observados pelo Ministério do Trabalho por concentrar grande volume de denúncias. Medir só os fatores psicossociais, sem cruzar os impactos na saúde dos trabalhadores, também dificulta o cálculo de severidade e probabilidade que a NR-1 exige para classificar os riscos.
Etapas simultâneas ganham espaço
Por fim, a velocidade da adequação virou ponto de atenção. “O processo de contratação em grandes empresas normalmente envolve suprimentos, jurídico e segurança da informação, geralmente em etapas sequenciais. Neste momento, muitas organizações precisaram rever essa lógica para ganhar velocidade”, avalia Pimenta.
A executiva recomenda que as áreas envolvidas atuem ao mesmo tempo, com segurança da informação avaliando enquanto o jurídico analisa contratos, por exemplo. Ela reforça ainda que o mapeamento de risco psicossocial lida com dado sensível de saúde e exige aderência à LGPD, requisito que nenhuma empresa pode deixar de lado ao estruturar sua gestão psicossocial.
Se você ou alguém próximo enfrenta sofrimento psíquico relacionado ao trabalho, o Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito e sigiloso pelo telefone 188, disponível 24 horas.
Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome
Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.
O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.
Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.
Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.



