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Liszt Vieira: A intervenção de Trump na eleição brasileira caminha para (mais) um fiasco

Por ora, os ataques desferidos pelo presidente norte-americano só reforçaram a posição de Lula. O que fará se seu candidato sair derrotado das urnas?

Liszt Vieira: A intervenção de Trump na eleição brasileira caminha para (mais) um fiasco
Liszt Vieira: A intervenção de Trump na eleição brasileira caminha para (mais) um fiasco
O presidente dos EUA, Donald Trump. Foto: Aaron Schwartz/AFP
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O governo dos Estados Unidos revogou o visto da embaixadora do Brasil em Washington. A medida faz parte da ofensiva política de Donald Trump para interferir na eleição brasileira. Com o mesmo objetivo, o presidente da Argentina veio ao Brasil, participou do evento de lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) e ofendeu Lula, abrindo uma crise diplomática sem precedentes entre os dois países.

Atualmente, Brasil, Uruguai e México são os únicos países da América Latina com política externa autônoma e independente. Trump quer dominar a região, retomando o controle total sobre o seu quintal. Como sua prioridade é a guerra no Irã, na Ucrânia, o controle político no Oriente Médio e a China, Trump transferiu para seu Secretário de Estado, Marco Rubio, as decisões a respeito dos países latino-americanos.

Rompendo a tradição diplomática, Trump anunciou o nome do seu indicado a embaixador no Brasil antes de o governo brasileiro dar a sua aprovação, seu agrément. Como se tratava de um político de quinta categoria, tudo indica que o Itamaraty iria esperar a eleição parlamentar de meio mandato, em novembro, para se pronunciar.

Vale notar também que o governo brasileiro negou o pedido de visto a dois funcionários do Departamento de Estado norte-americano que pretendiam visitar o Brasil para conversar com autoridades eleitorais. O planejamento da visita de Riley M. Barnes, secretário-adjunto, e Samuel Samson, subsecretário-adjunto, tinha o objetivo de colocar em dúvida a transparência e a integridade do sistema eleitoral brasileiro, segundo revelou Washington Post no fim de julho.

Tudo indica que Trump vai continuar tentando influenciar de alguma maneira o resultado das eleições no Brasil. Já se fala até em patrocinar de alguma forma tentativas de golpe. Aliás, faz o mesmo nos EUA ao manipular distritos eleitorais para vencer ou reduzir a derrota prevista do seu partido nas eleições de meio mandato.

Trump foi eleito prometendo acabar com as guerras e cuidar apenas do povo dos EUA. Em vez disso, inventou, a pedido de Israel, uma nova guerra contra o Irã, da qual não conseguiu se livrar com uma saída honrosa e com a qual já gastou 37,5 bilhões de dólares, segundo dados divulgados pelo secretário de Defesa, Pete Hegseth, em julho de 2026. No entanto, estimativas internas e de inteligência apontam que os custos totais reais — incluindo reposição de munições de alto valor e impactos indiretos — podem alcançar entre 80 bilhões e 100 bilhões de dólares.

Além da derrota política de Trump por não ter alcançado seus objetivos, a guerra entre Estados Unidos e Irã produziu impactos econômicos globais ao elevar os preços do petróleo. O Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do comércio mundial de petróleo, tornou-se um ponto de grande instabilidade, aumentando os riscos para o abastecimento de energia.

Em consequência, os preços do petróleo e seus derivados subiram, pressionando os custos de transporte, produção e logística. Esse processo alimentou a inflação em diversos países. As oito maiores petrolíferas faturaram 93 bilhões de dólares em apenas três meses com a guerra do Irã. O lucro conjunto dessas empresas superou 700 mil dólares a cada minuto.

Os danos climáticos foram consideráveis: as emissões de gases estufa estão diretamente ligadas às recentes e mortais ondas de calor em todo o mundo, aumentando a pressão para que essas corporações paguem pelos danos ambientais causados, como relatado pelo diário britânico The Guardian.

Nos EUA, o aumento do custo dos combustíveis comprometeu uma das principais promessas de campanha de Trump: reduzir a inflação e o custo de vida. A Europa também enfrenta aumento dos custos de energia, enquanto países importadores de petróleo, como Japão e Índia, sofrem deterioração de suas balanças comerciais. Para economias emergentes, entre elas o Brasil, a inflação dificulta a redução das taxas de juros. Mas, como exportador de petróleo, o Brasil pode ampliar receitas com exportações e royalties. Ainda assim, combustíveis mais caros elevam os custos do transporte, dos alimentos e da produção industrial, pressionando a inflação doméstica.

Diante desse cenário econômico desfavorável, Trump buscou compensar parte das dificuldades por meio da elevação de tarifas de importação. No caso brasileiro, a justificativa econômica é frágil, uma vez que os EUA mantêm superávit comercial em relação ao Brasil. Assim, fatores políticos, especialmente o interesse em enfraquecer o governo Lula durante um ano eleitoral, predominaram sobre as razões econômicas.

Por outro lado, a condução da guerra contra o Irã contribuiu para o desgaste de sua imagem, sobretudo porque o conflito não produziu resultados considerados favoráveis aos EUA. O aumento da inflação, do custo de vida e dos combustíveis contribuiu para deteriorar a avaliação do seu governo. Pesquisas nacionais divulgadas em julho de 2026 situam a aprovação de Trump entre 35% e 38%, enquanto a desaprovação oscila entre 59% e 61%, um dos piores índices de seu segundo mandato.

Esses fatores, bem como a percepção de desaceleração econômica, reduziram o apoio de eleitores independentes, jovens, famílias suburbanas e republicanos moderados. Embora Trump preserve um núcleo sólido de apoio dentro do Partido Republicano, esse respaldo não seria suficiente para compensar a perda de popularidade em segmentos decisivos do eleitorado.

Outro fator apontado é o descontentamento de parte da população com a guerra e com a política migratória. Apesar de o combate à imigração irregular continuar mobilizando sua base eleitoral, operações de deportação e episódios de violência envolvendo agentes federais provocaram desconforto entre setores moderados. Ainda assim, Trump permanece como a principal liderança republicana, graças à fidelidade de sua base.

O conhecido jornalista Seymour Hersh denunciou que Trump, além das decisões já conhecidas para manipular os distritos eleitorais, prepara o uso de força militar para intimidar eleitores e forçar a abstenção. Enquanto isso, o Partido Democrata está mais assustado com a ascensão da esquerda dentro da própria legenda do que com as manobras eleitorais de Trump.

A influência do trumpismo contribuiu para o endurecimento das políticas migratórias em vários países europeus e fortaleceu forças conservadoras na América Latina. Nesse contexto, a eleição presidencial brasileira seria estratégica para os interesses geopolíticos dos EUA.

As medidas adotadas por Trump contra o Brasil tendem, porém, a produzir efeito político contrário. Em vez de enfraquecer o governo brasileiro, a crítica ao Pix e os tarifaços reforçam o discurso de defesa da soberania nacional e favorecem eleitoralmente o presidente Lula.

Tudo indica que Flavio Bolsonaro, o candidato de Trump, envolvido em graves denúncias de corrupção e acusado de defender os interesses dos EUA contra o Brasil, embora continue competitivo, não terá fôlego político e densidade eleitoral para se eleger presidente nas próximas eleições.

No entanto, a eleição no Brasil se reveste de uma importância estratégica para a política de extrema direita de Trump que vai tentar de qualquer forma interferir na eleição brasileira. Não se pode descartar, a priori, nenhuma possibilidade de intervenção. Na hipótese, improvável, mas não impossível, de intervenção direta, o que fariam os militares brasileiros, tradicionalmente aliados e defensores dos EUA?

O ministro da Defesa José Múcio disse que, em caso de invasão dos EUA, a melhor opção é “abrir o portão”, porque “não tem equipamento nem dinheiro” para resistir. Ora, se as Forças Armadas não servem para defender o Brasil, para que servem?

Não sabemos o que Trump fará, mas tudo indica que seu candidato no Brasil será derrotado. Assim, a estratégia política de Trump deve ser um fracasso estrondoso, tanto no cenário interno dos EUA quanto na eleição brasileira. Em termos de apoio político, Trump já começou a descer a ladeira. E não há nenhum adivinho na Casa Branca para avisar Trump que seus “idos de março” ocorrerão nas duas eleições que enfrentará este ano: em outubro, no Brasil, e em novembro, nos EUA.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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