Roberto Amaral

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Cientista político, ex-ministro da Ciência e Tecnologia e ex-presidente do PSB. Autor de História do presente- conciliação, desigualdade e desafios (Editora Expressão Popular e Books Kindle)

Colunas

O martírio cubano no centenário de Fidel Castro

Os inimigos da ilha também tecem armas entre nós. E hoje, seu povo se sente só

O martírio cubano no centenário de Fidel Castro
O martírio cubano no centenário de Fidel Castro
Coluna ereta. Os cubanos protestam contra o assédio da Casa Branca – Imagem: Giorgio Viera/AFP
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Ainda saboreávamos o Ano-Novo — era o réveillon de 1958-1959 — quando nos chegou, em Fortaleza, a notícia de que caíra, em Cuba, a ditadura de Fulgêncio Batista, de quem pouca ou nenhuma notícia tínhamos. O fato era este, tão só, mas sugeria algo de inusitado: não se tratava de mais uma quartelada dentre tantas que faziam e fazem a história do poder da classe dominante latino-americana, interferindo na governança para que tudo permanecesse como dantes no castelo de Abrantes: uma periódica recomposição oligárquica.

Desta feita, surpreendentemente, nos era dado conhecer uma insurgência de base popular que, descendo de Sierra Maestra, encontrava a consagração em Havana. Entre os líderes não se contavam nem sargentos, nem coronéis, nem generais. Este era seu caráter inusitado, principalmente no Caribe e na América Central dos anos 1950-60, uma virtual fazenda da United Fruit Company.

Este verdadeiro “polvo” era muito mais do que uma empresa agrícola; era um superpoder econômico e político tão grande que ajudou a popularizar a expressão “república das bananas”. A seu pedido, por exemplo, Washington determinou, via CIA, em 1954, a deposição de Jacobo Arbenz, presidente da Guatemala, que ousara levar a reforma agrária para suas terras improdutivas.

A única fonte de energia de que dispõe Cuba, hoje, são velhas termoelétricas movidas a petróleo, combustível que a grande potência e seus aliados acovardados lhe negam

Naquele final dos anos 1950, Cuba ainda era, para nós, apenas uma ilha distante, o maior e talvez o mais requintado prostíbulo do Caribe, balneário de gângsteres controlado pela máfia e pelo tráfico, país sem economia própria, sem indústria, limitado à monocultura do açúcar e à produção de charutos.

De ilustre, era conhecido apenas o refúgio de Hemingway na Finca Vigía, onde escrevera O velho e o mar (1952). Nesta sua obra-prima, ele nos fala, por intermédio do protagonista Santiago, sobre a resistência humana em tempos difíceis. Difíceis já eram os tempos do povo cubano, sob a ditadura do sargento Fulgêncio Batista; mais difíceis seriam ainda os tempos de hoje, quando sua sobrevivência é ameaçada pelo império norte-americano, onipotente, diante do silêncio do mundo.

O mesmo silêncio e a mesma omissão (é bom recordar para evitar surpresas futuras) que, nos anos antecedentes a 1939, caracterizaram a covardia europeia (Inglaterra à frente) e o silêncio dos EUA diante da anexação da Áustria e, depois dos Sudetos, da invasão da Tchecoslováquia.

Logo ouviríamos falar em Sierra Maestra. Ainda estávamos em 1959 quando surgiram os nomes de seus heróis: Camilo Cienfuegos, Ernesto “Che” Guevara e Fidel Castro Ruz, seu líder. A história escrita a partir daí é conhecida e nos conta a transição política que alcança seu apogeu em 1961, quando Fidel, coincidentemente às vésperas da invasão da Baía dos Porcos, proclama o caráter socialista da Revolução (em plena Guerra Fria!), heroicamente preservado até aqui, no essencial, com as dores e os sacrifícios conhecidos.

Nascia — fato único nas Américas — um Estado socialista a apenas cerca de 150 km dos EUA.

Cuba surgia como exemplo e luz profética, dizendo-nos que a revolução social era possível. Podíamos, então, sonhar com a revolução brasileira, com a qual, porém, não se compadeceu a história. Azar nosso.

Irrelevante do ponto de vista econômico, com seus menos de 7 milhões de habitantes (um bairro de Pequim) e 109.884 km² de extensão (menor do que o Ceará), a ilha que se fez rebelde cumpriu, por décadas, com imensos sacrifícios para seu povo, o papel de esteio da luta anticolonialista e anti-imperialista, indispensável para a construção de um mundo socialmente menos injusto, mundo que, no presente, parece distanciar-se de nós.

Em quase toda a África — Angola é certamente o exemplo mais relevante (uma jornada de 14 anos e 50 mil combatentes) —tropas cubanas estiveram lutando em defesa dos processos de libertação nacional. Com a óbvia exceção da Revolução de 1917 e, certamente, ao lado da Guerra do Vietnã, nenhum outro processo social terá influenciado tanto o mundo, e principalmente nosso continente, no século passado, quanto a Revolução Cubana: venceu reiteradas vezes o poderosíssimo império norte-americano; venceu o general Dwight Eisenhower, o primeiro presidente a decretar embargo comercial (1960); venceu John F. Kennedy e a invasão da Baía dos Porcos (1961); venceu Richard Nixon e as 634 tentativas de assassinato de Fidel Castro comandadas pela CIA (O Globo, 27/11/2016).

Vencerá o desvario Trump.

Cuba era a nossa Dulcineia, a ínsula que o sonho do cavaleiro nos prometia. Era uma esperança; sua resistência e sua sobrevivência (muitas vezes batendo de frente contra a lógica, resistindo contra a destruição certa e tantas vezes anunciada) valiam como o certificado de que eram possíveis e viáveis todos os nossos sonhos de jovens socialistas que logo seriam chamados para o enfrentamento da ditadura militar aqui instalada em 1º de abril de 1964, ditadura que a embriaguez do romantismo revolucionário não nos permitira prever e cujas bases ideológicas e políticas nos derrotaram em 2018 e, nesta década, ameaçam destruir nosso futuro.

Os inimigos de Cuba também tecem armas entre nós.

Fidel foi um Quixote quando subiu a Sierra Maestra para comandar uma revolução impossível, mas, a partir daí, seria o comandante de um projeto estratégico. Não foi um acaso sua chegada a Havana, nem a assunção ao poder, nem a opção pelo socialismo. Basta rever sua história, como belamente nos conta Cláudia Furiati em seu primoroso Fidel Castro: uma biografia consentida (Editora Revan, 2003).

Revolucionário e estadista, venceu os adversários com os quais se defrontou, e sempre em condições extremamente desvantajosas. Nenhum deles era moinho de vento, pois todos eram inimigos ferocíssimos, poderosíssimos, e o mais perigoso de todos, o império estadunidense, armado com modernos escudos, lanças e mesmo garras e dentes atômicos. O império luciferino que volta a atacar a Ilha e seu povo.

Visitei Cuba por diversas vezes, em tempos de bonança e nos tempos do “Período Especial” — assim chamado aquele que se sucedeu ao suicídio da URSS. Visitei a ilha como dirigente político, quando, com Jamil Haddad, estava incumbido da tarefa de reorganizar o Partido Socialista Brasileiro, então um partido de esquerda, que consignava em seu programa o compromisso com a defesa da Revolução Cubana. Velhos e saudosos tempos.

Foram muitas as delegações trocadas entre o PSB de então e o Partido Comunista Cubano. Conheci e convivi com seus principais líderes, como Manuel Piñero, o Barba Roja, Armando Dávalos e o comandante Jorge Risquet Valdés. Em algumas oportunidades, pude viajar por suas províncias, conversar com sua gente, visitar suas escolas e universidades, projetos agrícolas, centros cívicos, conviver com seus estudantes e intelectuais, dialogar, debater, discutir. Testemunhei suas dificuldades e pude acompanhar a dedicação majoritária em torno do grande projeto.

As circunstâncias ensejaram-me vários encontros — longas conversas, sem hora para começar e sem hora para terminar — com o “Comandante”, em Brasília, em São Paulo e, principalmente, em Havana. No primeiro desses encontros, Fidel disputou com o senador Jamil Haddad quem mais conhecia o programa siderúrgico brasileiro.

Fui a Cuba noutras oportunidades para participar de congressos e seminários diversos. Na última vez em que estivemos juntos, eu integrava uma delegação de escritores e políticos brasileiros que comparecia a um congresso latino-americano sob a chancela da UNESCO. Nosso bate-papo começou por volta das 22 horas e só terminou em torno das 5 horas da manhã. Nesse encontro, Fidel teve a oportunidade de discorrer, para uma plateia espantada, sobre o quadro político de cada um de nossos países. E ele, só ele, passou grande parte do tempo falando de pé.

Sem maiores ilusões quanto à supremacia da práxis, chamava-nos a atenção para os dias vindouros, difíceis, dizia ele, para nossa surpresa coletiva, a reclamar de todos os militantes de esquerda muita reflexão, muita produção teórica. Muita recuperação das lições da História. Aquele homem, por excelência homem de ação e chefe de Estado, nos ditava a lição de Engels: “Não poderemos prever o futuro senão quando tivermos compreendido o passado.”

A revolução impossível, que, no entanto, se fez e chega até aqui, enfrentando uma corrida de obstáculos que lhe impõe o desvario genocida dos EUA fez de Fidel Castro — a um tempo ator e objeto do processo histórico — o principal líder latino-americano do século XX, líder da relevância de Nelson Mandela.

Cuba, enfim, sob sua liderança, superou mais de 50 anos de cerco político-econômico, diplomático e militar da maior potência do mundo, sobreviveu à crise do socialismo real e à globalização. Derrotou as oligarquias, os insurgentes, os sabotadores internos e externos.

Até aqui. E hoje, no ano do centenário de Fidel, seu povo se sente só.

Só, desamparada, a pequena ilha do Caribe padece uma asfixia luciferina: afastada do comércio internacional, bloqueada militarmente, ameaçada de nova invasão, sofre de asfixia energética, já que depende do petróleo importado. Mas nenhum país — nem o Brasil, nem a China, nem a Rússia — se atreve a furar o bloqueio. Todos se rendem aos caprichos dos EUA.

A única fonte de energia de que dispõe Cuba, hoje, são velhas termoelétricas movidas a petróleo, combustível que a grande potência e seus aliados acovardados lhe negam. Daí os apagões, que chegam a 20 horas diárias, impondo a paralisação da vida.

Passo a palavra a meu amigo Jorge Ferrera, ex-adido de Cuba no Brasil, que me escreve (no dia 6 do mês corrente) de Havana:

“Estamos sem eletricidade e sem conexão via internet. O último navio russo carregado de petróleo chegou a Cuba nos primeiros dias de abril, trazendo 100 mil toneladas de petróleo bruto, que foram refinadas no país. Isso representou um alívio, tornando possível que, durante cerca de 15 dias, não houvesse apagões em todo o território nacional.

De janeiro de 2026 até o momento, esse foi o único navio de petróleo recebido. Entre janeiro e junho deste ano, seriam necessários cerca de 40 navios para garantir a geração de eletricidade no país, mas apenas um chegou, o que ilustra a grave crise econômica e social que Cuba enfrenta desde que o governo Trump decretou o bloqueio petrolífero contra a ilha.”

No próximo dia 13 Fidel faria 100 anos.

(Com a colaboração de Pedro Amaral)

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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