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‘A Viagem de Chihiro’ e a psicodelia de sonhar acordado
Como ‘A Viagem de Chihiro’, de Hayao Miyazaki, trata de psicodelia somente com o artifício onírico
Quando se fala em cinema psicodélico, muita gente imagina cores fluorescentes, caleidoscópios e personagens em transe. O imaginário costuma parar nos pôsteres dos anos 1960, no ácido lisérgico e nas animações que parecem ter sido desenhadas por alguém observando uma parede respirar. No entanto, uma das obras mais psicodélicas já realizadas quase não tem interesse em impressionar. É uma história silenciosa sobre uma menina que atravessa um mundo estranho e, aos poucos, deixa de ser a mesma.
A Viagem de Chihiro, de Hayao Miyazaki, não fala sobre drogas. Fala sobre consciência.
Toda experiência transformadora começa com uma travessia. Um túnel. Um caminho desconhecido. Um lugar que desperta a estranha sensação de já ter existido dentro de nós. Não há explicações. Não existe alguém dizendo como agir. Basta dar um passo, e a realidade passa a obedecer a outras regras.
Quem já acordou de um sonho particularmente vívido conhece essa sensação. Quem atravessou um luto, uma crise existencial, uma experiência profunda de meditação ou um estado psicodélico também. Existem momentos em que o mundo continua exatamente igual, mas deixa de parecer o mesmo. É difícil explicar. Apenas sentimos que alguma coisa mudou dentro de nós.
A casa de banhos não é apenas um cenário fantástico. É um lugar onde medos, desejos e afetos ganham corpo. O Sem-Face talvez seja a figura mais perturbadora do filme. Vazio, ele absorve tudo o que encontra pela frente. Consome sem nunca se satisfazer. Toma emprestada a identidade dos outros porque não consegue sustentar a própria. Poucos personagens traduzem tão bem a solidão do nosso tempo.
Depois vem a perda do nome. Chihiro torna-se Sen. Esquecer o próprio nome é esquecer quem se é. Diversas tradições espirituais descrevem esse desaparecimento temporário do ego como parte de um processo de transformação. Primeiro, nos perdemos. Só depois encontramos uma nova maneira de existir.
Talvez seja por isso que a jornada de Chihiro nunca pareça uma aventura. Ela se parece mais com uma lembrança. Daquelas que não sabemos dizer se aconteceram de verdade ou se sempre estiveram escondidas em algum lugar da memória.
Os sonhos seguem uma lógica própria. Os espaços mudam de escala. O tempo deixa de obedecer ao relógio. Pessoas se transformam sem motivo aparente. Nada precisa fazer sentido racional para ser profundamente verdadeiro.
A cena do trem atravessando o mar ao entardecer concentra tudo isso. Não acontece quase nada. O silêncio ocupa mais espaço do que os diálogos. A água parece não ter fim. Os passageiros embarcam e desembarcam sem dizer uma palavra. Há uma tristeza serena naquela viagem, como se todos soubessem que certas travessias não permitem retorno. É uma das cenas mais belas do cinema, justamente porque não tenta explicar o que sentimos.
Toda transformação guarda um instante assim. Aquele momento suspenso em que já não somos quem éramos, mas ainda não sabemos quem seremos.
No fim, A Viagem de Chihiro sugere que a consciência nunca permanece imóvel. Ela muda, perde referências, encontra outras e continua seguindo adiante. Chihiro apenas torna visível um caminho que todos percorremos. Quase sempre em silêncio. Quase sempre sem perceber.
A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.
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