Entrevistas
Brasil deu exemplo ao mundo em 2022, mas eleição deste ano será decisiva para seu futuro, diz instituto sueco
O País é um dos pouquíssimos a conseguir proteger a democracia antes de ela colapsar, afirma a CartaCapital Marina Nord, da Universidade de Gotemburgo
O Brasil deu um exemplo ao mundo sobre como preservar sua democracia e reverter um processo de autocratização, afirmou a CartaCapital a pesquisadora sueca Marina Nord, uma das responsáveis por um amplo estudo publicado anualmente pelo instituto V-Dem, da Universidade de Gotemburgo.
Segundo a edição de 2026 do relatório, intitulado Democracy Report, o Brasil começou a se autocratizar com a queda de Dilma Rousseff (PT) em 2016, processo que se acelerou com a vitória de Jair Bolsonaro (PL) na eleição de 2018. A virada ocorreu em 2022, quando Lula (PT) derrotou o então presidente.
“Foi um poderoso movimento contra a autocratização, um dos pouquíssimos países que conseguiram proteger a democracia antes de ela colapsar”, resumiu Nord. Ela reforçou que, de acordo com dados dos últimos 125 anos, apenas cerca de 20% dos países que entram em processo de autocratização sobrevivem como democracias.
Trata-se de um lição para o mundo, enfatizou a pesquisadora, devido à importância política e econômica do Brasil. Ela aponta como fatores fundamentais para o sucesso brasileiro as salvaguardas institucionais — a atuação do Judiciário, por exemplo —, o papel de organizações da sociedade civil e a qualidade do processo eleitoral.
Sociedade civil e Tribunal Superior Eleitoral, indicou a pesquisadora, ajudaram a debelar uma campanha de desinformação. “E uma coligação de partidos se uniu contra Bolsonaro e contra a tentativa de minar a democracia no Brasil. Portanto, podemos aprender muito com o caso brasileiro. É um dos principais exemplos dos últimos anos em que a democracia foi protegida.”
O relatório sustenta, contudo, que a sociedade brasileira permanece “profundamente polarizada” e que as eleições deste ano serão decisivas para o futuro do País. Nord afirmou que partidos podem, em cenários de “polarização extrema”, se dispor a sacrificar a democracia para vencer nas urnas.
“É o principal perigo que a sociedade brasileira enfrenta. Vemos o filho de Bolsonaro concorrer, e aqueles que tentaram minar a democracia podem usar esse alto nível de polarização para impulsionar a autocratização”, declarou. Para ela, o segundo mandato de Donald Trump nos Estados Unidos funciona como um alerta: o país não solucionaram a polarização de seu primeiro governo, o que turbinou a vitória do republicano em 2024. “É um perigo para a democracia brasileira: enquanto você não resolver esse problema, não poderá seguir em frente.”
A íntegra da entrevista será publicada no canal de CartaCapital no YouTube.
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