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Floretes em punho

Raquel Lyra conta com o controle da máquina estadual, João Campos, com o presidente Lula

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Hora da verdade. Com a campanha às portas, Lyra e Campos estarão frente a frente em uma das mais acirradas disputas eleitorais em curso no País – Imagem: Marlon Diego e Redes Sociais Raquel Lyra
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Eleições 2026

A disputa pelo governo de Pernambuco promete ser uma das mais acirradas do País e quem se arriscar a prever o resultado das urnas corre grande risco de errar. A menos de dois meses do primeiro turno, ainda não é possível cravar um favorito entre os dois principais concorrentes: a governadora Raquel Lyra, do PSD, em busca da ree­leição, e o ex-prefeito do Recife João Campos, do PSB. Embora as pesquisas Quaest, divulgada no fim de julho, e Datafolha, publicada no início deste mês, mostrem Lyra numericamente à frente de Campos, a vantagem ainda não se consolidou como tendência. O cenário permanece volátil e os fatos políticos têm alterado o equilíbrio da disputa a cada momento. A prova mais recente veio na primeira semana de agosto, quando aconteceram as convenções dos dois palanques e a temperatura política oscilou por várias vezes, principalmente no entorno do palanque da governadora.

No sábado 1º, data da convenção de João Campos e véspera daquela de Lyra, a governadora cedeu às exigências da Federação União Progressista e rifou o nome do ex-prefeito de Petrolina Miguel Coelho para uma das vagas ao Senado, rompendo um compromisso firmado anteriormente com o aliado. Em seu lugar, entra o ­deputado federal Eduardo da Fonte, presidente da federação em Pernambuco. A decisão provocou reação imediata. Em poucas horas, lideranças ligadas ao grupo político dos Coelho, influente no sertão do São Francisco, marcaram presença na convenção de Campos e declararam apoio ao ex-prefeito, entre eles o prefeito de Araripina, Evilásio Mateus, do PDT.

Ao justificar a mudança na composição da chapa, a governadora disse que a formação de alianças é fruto de negociações coletivas, não de decisões individuais. “A discussão sobre partidos políticos e como eles se mantêm muitas vezes não tem a ver com o dia a dia do povo, mas com um conjunto de alianças formadas para se apresentar a Pernambuco”, declarou. Do outro lado, a campanha de Campos tentou faturar com o desgaste e ofereceu ao ex-senador Fernando Bezerra Coelho, do MDB, pai de Miguel, a vaga de primeiro suplente de Marília Arraes na disputa pelo Senado. A proposta foi recusada. “A nossa política é a de somar. Estamos prontos para acolher qualquer liderança”, afirmou o ex-prefeito.

A estratégia da família Coelho passou a ser viabilizar uma candidatura avulsa ao Senado do deputado federal Mendonça Filho, do PL, oficializada na terça-feira 4. Na pesquisa Quaest mais recente, o parlamentar aparece na terceira colocação, atrás de Marília Arraes e Humberto Costa, do PT, candidatos ao Senado na chapa de Campos. Apesar de a candidatura de Mendonça Filho não representar, em tese, um problema direto para Lyra, pois o deputado mantém apoio à governadora e tende a fortalecer o voto da direita em favor de sua reeleição, ela dificulta a estratégia de Eduardo da Fonte, uma vez que os dois disputam o mesmo eleitorado.

Nos bastidores, especula-se que a governadora teria estimulado a articulação entre Coelho e Mendonça Filho. Caso essa percepção ganhe força, pode desencadear mais um desgaste na base governista e abrir uma nova frente de tensão para a campanha de Lyra, que diz arregimentar 150 dos 184 prefeitos do estado, hegemonia construída depois que a governadora se filiou ao PSD, no início de 2025. “O que a gente ouve são relatos de prefeitos que se veem ameaçados, com a possibilidade de perder convênios estaduais em seus municípios. Prefeitos que, assim que mudam de lado, saem com agendamento da Carreta da Mulher (clínica itinerante com serviços voltados para o público feminino), como se aquela ação de saúde não tivesse de ter chegado à população antes, quando eles estavam na oposição”, acusa Campos. “Tem muito prefeito no palanque adversário por força do medo.”

Há racha até no PT, que apoia oficialmente o ex-prefeito do Recife

A estrutura da máquina é apontada, de fato, como um dos ativos de Lyra. “A partir do momento que a governadora fez a mudança de partido, conseguiu atrair um grande número de prefeitos, muitos do PSB. Isso foi dando substância ao governo, que também começava a emplacar entregas e a ter visibilidade. Além disso, ela acertou o tom da comunicação política e passou a figurar com muita proeminência nos meios digitais, onde João Campos era soberano”, analisa Priscila Lapa, cientista política e integrante do Observatório de Política do Nordeste.

A ascensão política de Lyra também tem as digitais do PT, que oficialmente apoia Campos, mas enfrenta um racha. Dos seis prefeitos petistas, quatro apoiam oficialmente a reeleição da governadora, assim como o presidente da sigla no Recife, o vereador Osmar Ricardo, licenciado­ do cargo para fazer campanha para a adversária de Campos. Base de sustentação do governo na Assembleia Legislativa nos três primeiros anos de mandato, a bancada do PT na Casa também está dividida: dois deputados estão no palanque de Campos e outros dois, extraoficialmente, trabalham pela reeleição de Lyra.

Embora as divergências internas sejam conhecidas nos bastidores da política, o presidente estadual da sigla, deputado federal Carlos Veras, nega qualquer sinal de divisão. “A decisão do PT de apoiar a candidatura de João Campos foi amplamente debatida e tomada de forma democrática. Além de ter sido validada pela direção nacional do partido, conta com o respaldo do presidente Lula”, afirma o parlamentar. A declaração contrasta com o fato de o próprio Veras aparecer em uma peça de campanha ao lado da governadora, imagem que expõe as fissuras na aliança petista.

Lula é uma das principais apostas de Campos para recuperar a dianteira na disputa­ estadual, considerando que o presidente mantém índices de aprovação próximos de 60% no estado. O petista chegou a gravar um vídeo em apoio ao ex-prefeito do Recife, mas não deve ir a Pernambuco no primeiro turno. Lula mantém uma boa relação institucional com Lyra e sabe que parte do eleitorado dela também integra sua base de apoio. “Ele não pode se dar ao luxo de perder os votos do centro e até do eleitor mais à direita que vota em Raquel, mas rejeita Flávio Bolsonaro. Ele não deixa de ter o voto do eleitor de João se ele não for a Pernambuco e ainda preserva aquele imaginário de que mantém uma relação de apoio à governadora, diante dos gestos que fez ao longo do mandato”, diz Lapa. O grau de imprevisibilidade da disputa em Pernambuco é tão elevado que há quem considere a possibilidade de a eleição para o governo ser definida no primeiro turno, considerando a margem mínima entre as duas principais candidaturas e a ausência de uma terceira via capaz de desequilibrar a balança. •

Publicado na edição n° 1425 de CartaCapital, em 12 de agosto de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Floretes em punho’

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