Cultura
As cidades e seus fantasmas
Em uma nova coletânea de contos, a escritora argentina Mariana Enriquez volta a criar seres e enredos a um só tempo estranhos, poéticos e também políticos
Não existe insólito mais insólito na literatura latino-americana do que aquele visto na obra da argentina Mariana Enriquez. As fantasmagorias que assombram seus textos remetem aos horrores históricos e sociais que rondam o passado do continente e persistem na atualidade.
O título de sua nova coletânea, Um Lugar Ensolarado para Gente Sombria, sintetiza a dualidade presente nos 12 contos que compõem o livro. Os fantasmas estão presentes na maior parte dos textos, e, é claro, correspondem mais a um clima político do que a figuras do terror – ainda que a autora se valha das ferramentas do gênero.
O primeiro conto, Meus Mortos Tristes, se passa em um bairro de classe média que atravessa uma onda de violência atribuída à periferia. O fantasma a atormentar o local é o de um adolescente morto a tiros num roubo.
Em Olhos Negros, funcionários de uma ONG que, à noite, entregam comida a pessoas em situação de rua em Buenos Aires, ficam aterrorizados ao ver uns garotos que lhes parecem estranhos: “Eles estavam mal. Eles eram o Mal”, diz a narradora.
Essa atmosfera do estranho que guarda algo de conhecido, mas, ao mesmo tempo, encerra em si o desconhecido, marca toda a produção da autora. Os corpos, em sua literatura, transformam-se em lugar de disputa.
Isso fica bastante claro no conto Julie. Os parentes da narradora vivem nos Estados Unidos e se vangloriam da vida levada por lá. Quando a personagem-título, prima da narradora, é trazida de volta à Argentina para um tratamento médico, as dificuldades pelas quais a família passa são escancaradas. Novamente, surgem fantasmas para resolver o problema da garota, que tem uma estranha fascinação por eles.
Um Lugar Ensolarado para Gente Sombria. Mariana Enriquez. Tradução: Elisa Menezes. Intrínseca (224 págs. 79,90 reais)
Em toda a sua construção textual, Mariana lança mão também do poético. Isso se evidencia especialmente no conto que dá título à coletânea, protagonizado por uma jornalista de Buenos Aires que vai a Los Angeles para acompanhar o culto urbano surgido em torno da canadense Elisa Lam, figura real cujo corpo foi encontrado na caixa d’água de um hotel da cidade, em 2013.
Mariana parte desse fato para investigar os horrores que, sob o verniz glamoroso de Hollywood, rondam as ruas de Los Angeles, especialmente aquelas ocupadas por viciados em drogas. Capaz de ir do horror ao sublime, a autora borra a linha que, supostamente, separa os extremos para mostrar que tudo está conectado. •
Publicado na edição n° 1425 de CartaCapital, em 12 de agosto de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘As cidades e seus fantasmas’
2026 já começou
Às vésperas das eleições de 2026, o País volta a encarar um ponto de inflexão: o futuro democrático está novamente em jogo.
A ameaça bolsonarista não foi derrotada, apenas recuou. No Congresso, forças conservadoras seguem ditando o ritmo. Lá fora, o avanço da extrema-direita e os conflitos em Gaza, no Irã e na Ucrânia agravam a instabilidade global.
Se você valoriza o jornalismo crítico, independente e comprometido com a democracia, este é o momento de agir.
Assine ou contribua com o quanto puder.



