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Narrativas vs. História

As primeiras reforçam as estruturas de dominação, a segunda nos aproxima da realidade

Narrativas vs. História
Narrativas vs. História
Imagem: Renato Luiz Ferreira e OpenAI/ChatGPT
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Grande parte da história conhecida da humanidade é feita de narrativas. Do mundo antigo, o que nos resta são narrativas. A história tem a capacidade de destilar e filtrar essas narrativas. Eventos se contrapõem e revelam contradições de narrativas sobre fatos específicos. A dialética histórica foi e continua a ser um elemento poderoso de filtragem de narrativas, sejam elas parciais ou simplesmente inverídicas.

Ocorre que o imediatismo do século XXI tende a olvidar a história e a dar às narrativas uma importância diversa e muitas vezes hipertrofiada. Não são mais elementos para se construir a história, mas se transformam na própria história, algumas vezes substituindo-a, outras produzindo relatos parciais que depois se transmudam em “verdades” aceitas por muitos (ou pelos grupos que querem ouvi-las).

Na medida em que narrativas passam a moldar e influenciar a realidade, é preciso analisá-las, para colocá-las em seu devido lugar no contexto histórico. A tentativa mais recente de analisá-las de modo amplo foi feita pelo economista norte-americano Robert Shiller, ganhador do Prêmio Nobel de Economia, em seu livro Narrative Economics. Nele, o autor tenta identificar, com instrumentos semelhantes aos usados pela medicina para análise de epidemias (como coleta numérica de dados sobre contágio), o que torna as narrativas virais e, portanto, o que as torna aptas a influenciar a história. Para isso, tenta identificar formas e taxas de contágio. Sua preocupação central é como as narrativas se tornam virais.

O que o economista não faz de forma sistemática, mas é preciso que seja feito, é analisar por que narrativas se tornam virais ou aptas a moldar a realidade. A hipótese a ser tratada aqui é que o poder (em suas diferentes manifestações) é uma causa maior dessa relevância exagerada das narrativas em face da história. Poder por vezes econômico, por vezes político e cada vez mais também social, por meio das mídias sociais.

Mas, se o poder é uma realidade onipresente, como separar as narrativas coe­rentes com a história daquelas que pretendem substituí-la ou refazê-la a partir dos desejos ou crenças dos agentes mais poderosos? Parece-me que a resposta está no tipo de relação dessas narrativas com as estruturas econômicas, jurídicas e sociais. Em outras palavras, enquanto o pêndulo ou a dialética histórica possibilitam nos aproximar da realidade, pondo a nu as estruturas e permitindo mudá-las, narrativas unilaterais sem o crivo histórico normalmente reforçam as estruturas de dominação ou as substituem por outras.

Vejamos dois exemplos em que movimentos históricos em forma dialética se opuseram a narrativas de forma virtuosa e, depois, alguns contraexemplos em que ocorreu o contrário.

Tomemos o caso da África do Sul na era Nelson Mandela. A narrativa dominante, influenciada por forças políticas e econômicas poderosas, centrava-se em justificar a política discriminatória e racista do Apartheid. Foi o movimento iniciado por Mandela, expondo a opressão e a injustiça desse regime, por meio de seu próprio sacrifício e anos na prisão, que criou a contestação e a exposição necessárias para a sua superação. Muitas vezes entrando com demandas antidiscriminatórias que sabiam que não teriam sucesso nos tribunais, apenas para expor a injustiça e a opressão do regime. O pêndulo histórico agiu, portanto, em favor da superação de estruturas de dominação (e das narrativas que as acompanhavam).

Outro exemplo, ainda aqui com desdobramentos jurídicos, é o das leis de participação operária nas empresas alemãs na década de 1960. A narrativa dominante era e ainda é da empresa eficiente sendo aquela que é gerida para fim exclusivo de lucro de curto prazo. A ideia da ­Mittbestimmungsgesetze de dar participação paritária ou semiparitária aos representantes dos trabalhadores no órgão diretivo de empresa (conselho de supervisão), ao incluir a ideia de manutenção dos empregos entre os objetivos da empresa, implicou verdadeira oposição histórica ao que se acreditava até ali (a narrativa dominante). A síntese desse processo histórico-dialético foi a superação de estruturas poderosas. Muda a economia alemã para uma indústria de base com maior visão e investimentos de longo prazo. É o processo pendular ou de oposição histórica permitindo desnudar estruturas e narrativas de dominação.

O imediatismo deste século tende a olvidar a dialética histórica

Mas nem sempre é assim. Ao contrário, a aceleração e a difusão dos meios de transmissão de narrativas no século XXI, primeiro com as redes sociais e agora com a Inteligência Artificial, as torna de “contágio” muito mais rápido e, portanto, muito menos suscetíveis de “filtragem” pelo pêndulo histórico. Apoiadas pelo poder político, militar ou econômico tornam-se então cada vez mais difíceis de controlar.

Imaginem-se guerras que são deflagradas para responder a ameaças imaginárias ou divisões políticas e sociais que são incentivadas por e em redes sociais com uma clara pauta político-econômica por detrás delas. Muitas dessas narrativas tornam-se virais e influenciam o mundo político e até eleições antes que a depuração histórica consiga desnudá-las.

No mundo econômico, a publicidade é usada para criar mística de liberdade em torno de atividades em que claramente há práticas socialmente abusivas contra quem realiza a atividade. É o caso das empresas de entregas ou transporte por aplicativo. A mística da liberdade de horários sobrepõe-se à dura realidade de horas sem fim de trabalho, pouca remuneração e ausência de direitos trabalhistas.

O mesmo se dá em relação à destruição ambiental. Mesmo na presença de claras demonstrações da gravidade da degradação ambiental, fortíssima e dominante narrativa em torno de práticas ESG na maioria das vezes perfunctórias criou mística em torno de práticas de ­greenwashing, sem transformar as estruturas empresariais, que continuam permitindo grandes desastres ambientais em nome do lucro de curto prazo.

Em conclusão, fica claro que, nos casos em que o pêndulo histórico permitiu identificar e desnudar estruturas, a realidade se sobrepôs a narrativas. Quando ocorreu o inverso, ou seja, quando, propulsionadas pelo poder de quem as divulga, as narrativas permitiram esconder ou maquiar estruturas de dominação. Essas narrativas, mesmo quando falsas ou parciais, prevaleceram.

Na vida social como na vida pessoal, quando guerras de narrativas se sobrepõem à construção crítica de uma história comum em torno de valores e objetivos compartilhados, o resultado é o sectarismo, a separação de grupos ou indivíduos e a destruição de valor humano, social, ambiental e até econômico. •


*Professor titular da Faculdade de Direito da USP.

Publicado na edição n° 1425 de CartaCapital, em 12 de agosto de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Narrativas vs. História’

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