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Tempo cristalizado

Herdeiros mantêm viva a memória da Cristaleria Nacional, marco da industrialização paulista

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Legado. À frente da Garimpo Fábrica, Luciana Wulfhorst oferece ao público as relíquias do estoque da antiga fábrica, que funcionou ativamente até 2000 – Imagem: Renato Luiz Ferreira
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O escritório da Cristaleria Nacional está do mesmo jeito que seu proprietário, Lourenço Fló Júnior, o deixou em 2006. “Parece que ele saiu para almoçar”, comenta sua neta, Luciana de Camargo Penteado Wulfhorst. Desde o falecimento do patriarca da família, o relógio na parede não registra o passar das horas naquela antiga fábrica instalada no bairro paulistano do Belém, distrito industrial que já abrigou fábricas de vidros, tecelagens e empresas diversas.

Como numa cápsula do tempo, parte das instalações da indústria de cristal inaugurada em 1937 continua preservada pela família, especialmente seu showroom. Móveis, utensílios, máquinas de escrever, maquinários, produtos estocados e o relógio de ponto continuam no mesmo local de quando a produção e os fornos a óleo foram desativados, no ano 2000. Contudo, após mais de duas décadas inativo, o extenso pátio fabril externo contrasta com o ambiente interno e se apresenta parcialmente deteriorado. A chaminé, tombada por órgão de preservação, exibe apenas parte do letreiro da marca, pois teve seu topo demolido por medidas de segurança.

Construída acima da fábrica, a casa que serviu de moradia no passado e de locação para filmagens da série Aqueles Dias (TV Cultura), em 2025, está praticamente preservada, inclusive o amplo banheiro, com seu vitral colorido. “Meu avô inventou o home office”, brinca Luciana, que hoje administra e revende o acervo da empresa pela internet.

A sede no bairro paulistano de Belém serviu de locação para a série Aqueles Dias, da TV Cultura. A história da cristaleira vai virar filme

Fundada por seu avô e seu bisavô, ­Lorenzo Fló Badell, imigrante catalão disposto a desenvolver a arte vidreira na América do Sul, a Cristaleria Nacional escreveu um capítulo relevante na história da industrialização paulista e nacional. Por décadas, a empresa fabricou lentes de semáforos de trânsito e de linhas férreas, faróis e lanternas para a indústria automobilística (como os do Fusca), artefatos e instrumentos para laboratórios de ciência e consultórios de dentista. Até hoje o aeroporto de Congonhas, em São Paulo, utiliza em sua pista dispositivos vítreos de sinalização (olhos de gato), enquanto o Santuário Dom Bosco, em Brasília, ostenta 7,4 mil peças de Murano em seus impressionantes vitrais azuis, ambos itens produzidos na fábrica do Belenzinho. A Cristaleria, sobretudo, fez parte do cotidiano de lares, restaurantes e clubes, e da memória afetiva de muitos brasileiros. Taças, copos, louças, garrafas, cinzeiros, vasos lapidados, luminárias, lustres e peças decorativas foram produzidos aos milhares para o consumo de famílias e de estabelecimentos como o Jockey Club de São Paulo.

Desde o princípio, a companhia primou pela inovação e excelência técnica. Badell introduziu a coloração vermelha, difícil de se obter em vidro, na produção nacional e trouxe técnicas da Europa e artesãos de Murano, na Itália, para ensinar aqui a tradicional arte de vidro soprado, criando peças únicas e design exclusivo. A empresa contou com mais de 300 funcionários e teve seu auge na primeira metade do século.

Após a morte do vidreiro espanhol, em 1972, Lourenço Fló Jr. – que, apaixonado por futebol, foi presidente do Corinthians entre 1947 e 1949 – administrou o negócio ao lado das filhas, entre altos e baixos, até o ano 2000. Crises econômicas e a substituição do vidro pelo plástico, além de métodos de trabalho insalubres, com peças de sílica assopradas em canas, determinaram o fim da produção. “A fábrica não se atualizou”, resume a herdeira.

“Parece que ele saiu para almoçar”, comenta a neta do ex-proprietário, ao mostrar o escritório intacto

Um novo ciclo se iniciou em 2007, quando Luciana, após retornar da Alemanha, teve a ideia de revender produtos do vasto e empoeirado estoque, que, à época, contava com mais de 50 mil peças embaladas. “A produção na Cristaleria era contínua, então o forno não se desligava. E como tinha espaço para armazenamento, foram guardadas muitas coisas.” A primeira loja virtual chamava-se Projeto Cristal, mas, por volta de 2017, o site passou a usar o nome Cristaleria Nacional, com a adesão da prima Flávia Fló. Logo após o centenário de nascimento de Lourenço Jr., em 2018, elas convidaram o primo Philippe Fló para integrar a quarta geração da família a atuar no ramo. No início deste ano, o negócio se dividiu em dois polos de venda, com Luciana e Flávia à frente do Garimpo Fábrica, e ­Philippe com o antigo site.

O Garimpo Fábrica seleciona peças do acervo e realiza vendas pelo site e em ­lives no perfil do Instagram, além de promover visitas esporádicas à fábrica e ao showroom, ou “minimuseu”, como elas gostam de chamar o vistoso mostruário de cristais. Para esses trabalhos ainda contam com o apoio das tias. “Quem compra uma peça do Garimpo, leva um pedaço da história de São Paulo para casa.”

Hoje, calcula Luciana, restam entre 15 mil e 10 mil peças no acervo. Sua venda completa encerrará definitivamente as atividades da empresa, mas a fascinante trajetória da Cristaleria deverá ser registrada para a posteridade num futuro documentário, Sopro – A História da Cristaleria Nacional. “Estou trabalhando nele há anos e agora acabei de fechar com uma produtora”, relata Flávia Fló. “É um longa-metragem que conta não só a história da Cristaleria e da nossa família, mas da indústria de vidro na época e da cidade de São Paulo.” Em fase de captação de recursos, o projeto esboça, na forma de “documentário com linguagem de arte”, o próximo capítulo da saga do empreendimento. •

Publicado na edição n° 1425 de CartaCapital, em 12 de agosto de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Tempo cristalizado’

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