Cultura
Maria Rita Kehl: “A esquerda ainda não produziu outro líder com o carisma de Lula”
A psicanalista lança, nesta quarta-feira 5, o livro ‘A História dos Vencidos’, uma coletânea de colunas publicadas nas revistas ‘CartaCapital’ e ‘Cult’
“Sou rouca, mas afinada”, brinca a psicanalista e escritora Maria Rita Kehl, que costuma dizer que as duas atividades de que mais gosta são cantar e escrever. “Devia ter uns 7 ou 8 anos quando escrevi meu primeiro conto, sobre uma girafa que sonhava ser cantora”, conta. Esse antigo gosto pela escrita está na origem de A história dos vencidos (INM Editora), coletânea de 47 crônicas e colunas publicadas nas revistas CartaCapital e Cult entre 2022 e 2026. O livro, que motivou esta entrevista, será lançado nesta quarta-feira (5), a partir das 18h, com sessão de autógrafos na Livraria Martins Fontes da Avenida Paulista, nº 509, em São Paulo.
A expressão que dá título ao livro apareceu originalmente em uma coluna publicada em CartaCapital, em que Kehl retoma uma provocação de Walter Benjamin: “Quem escreverá a história dos vencidos?”. Tanto para o ensaísta e filósofo alemão quanto para a psicanalista paulistana, cabe ao historiador recusar a versão dos vencedores e redimir a memória daqueles cujas lutas e dores foram apagadas. Foi com esse propósito, inclusive, que Kehl recebeu da então presidente Dilma Rousseff a incumbência de investigar os crimes da ditadura contra os povos indígenas e a população campesina no âmbito da Comissão Nacional da Verdade, por indicação do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST).
Jornalista por sete anos antes de se dedicar à psicanálise, Kehl construiu uma sólida trajetória como ensaísta e escritora. Entre seus livros estão O tempo e o cão: a atualidade das depressões, vencedor do Prêmio Jabuti de Livro do Ano de Não Ficção em 2010, além de Videologias (2004), em coautoria com Eugênio Bucci, Bovarismo brasileiro (2018), Ressentimento (2020) e Tempo esquisito (2023), publicados pela Boitempo. Pelo selo Boitatá, lançou ainda os infantis Neném outra vez! (2018) e O disco-pizza (2021), ambos em parceria com a cartunista Laerte Coutinho.
Ao analisar a tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022, que culminou na devastação das sedes dos Três Poderes em 8 de janeiro do ano seguinte por uma horda de bolsonaristas inconformados com o resultado das urnas, a psicanalista atribui esse episódio à decisão do Brasil de não julgar nem punir os responsáveis pelos crimes da ditadura militar (1964-1985). “Certamente, aquela ‘anistia ampla, geral e irrestrita’ foi um desastre, mas, ao mesmo tempo, era o que se podia fazer à época. O fim da ditadura precisou ser negociado com os militares. A população civil não tinha força para tirá-los do poder e precisou aceitar essa autoanistia”, pondera, antes de observar que os países vizinhos do Cone Sul trilharam um caminho distinto.
Na Argentina, por exemplo, o histórico Juicio a las Juntas começou a julgar, já em 1985, os crimes dos principais líderes das juntas militares que governaram o país entre 1976 e 1983. “No Brasil, a ditadura acabou ‘não com um estrondo, mas com um suspiro’, como no poema de T.S. Eliot. Passaram-se mais de 25 anos até que Dilma Rousseff, a primeira mulher presidente da história da República, presa e torturada durante o regime militar, tivesse a coragem de criar uma Comissão da Verdade. Ainda assim, não permitiram avançar para a responsabilização judicial”, lamenta. “A propósito, Dilma pagou um preço elevado por essa coragem. A meu ver, essa foi uma das razões para sua queda: o ressentimento e a raiva dos militares.”
Apesar da ascensão da extrema direita nos últimos anos, Kehl mantém o otimismo em relação ao futuro e aposta na vitória eleitoral de Lula. “Para mim, basta o fato de ele ter retirado o Brasil do Mapa da Fome para eu renovar meu voto”, afirma. Sua inquietação, contudo, é outra: o período pós-Lula. “Eu sempre penso: quando ele morrer — o que evidentemente não quero, espero que viva 105 anos —, quem pode substituí-lo?”, pergunta. Ela mesma responde: “Não vejo outro líder com o mesmo carisma. Mas acho que posso dar umas aulas para o Fernando Haddad. Ele é muito sério, muito professoral, precisa falar mais com o povo. Acho ele maravilhoso, mas acredito que seja por isso que tem dificuldade para se eleger”.
Confira, abaixo, a entrevista completa em vídeo:
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