Ricardo Pieralini

Ricardo Pieralini é escritor. Foi finalista do Prêmio Jabuti em 2024.

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No abraço de Maria Fernanda Maglio e Bethânia Pires Amaro, o mundo será muito mais

Tomo a liberdade de imaginar aqui o momento em que as duas escritoras se encontram em um café

No abraço de Maria Fernanda Maglio e Bethânia Pires Amaro, o mundo será muito mais
No abraço de Maria Fernanda Maglio e Bethânia Pires Amaro, o mundo será muito mais
"Lá é o tempo" de Maria Fernanda Maglio e "Ressalga" de Bethânia Pires Amaro, da esquerda para a direita. (Foto: Ricardo Pieralini)
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Não tenho ideia se Maria Fernanda Maglio e Bethânia Pires Amaro se conhecem. Acho que deveriam e seriam melhores amigas, porque as duas carregam três nomes em suas assinaturas, atuam no judiciário e, sobretudo, escrevem com a mesma potência, mesma profundidade, mesmíssima dor.

Tomo a liberdade de imaginar aqui, neste campo que é meu mundo e, por isso, cabe quase tudo, o momento em que as duas escritoras se encontram em um café, Bethânia com a pequena Aurora no colo, uma mesa para três, a padaria que eu mais gosto de São Paulo, porque quero que esse encontro tenha o melhor coado e uma baguete crocante lambuzada de manteiga e um croissant que molha os dedos e se quebra a cada mordida. Sem essas coisas, a vida é chata. Não sei se elas gostam ou se já foram à Fabrique, mas este é o meu mundo, agora também o delas, então é assim e ali.

Elas falam e se ouvem, o que só ocorre com as pessoas sábias, e descortinam todos os encontros que deveriam ter tido antes, e ao se dividirem nas palavras tornam-se uma o que é a outra, a outra o que é uma. As pessoas em volta não sabem o que estão perdendo, na verdade sabem, mas não falam nada, não podem falar. Imagino que bonito seria se chegassem todas as suas mesas para perto de Bethânia e Maria Fernanda, todo o estabelecimento uma coisa só, escutando atentamente o que elas têm a dizer enquanto a pequena Aurora observa, os olhinhos enfeitiçados. Não sei se ela é calma assim, aqui é. E essa mesa impossível seria não um mundo, mas o universo.

Sim, há algo que Maria Fernanda e Bethânia não percebem, apenas eu sei. As mesas ao lado estão povoadas por pessoas que as conhecem bem. Ali, observe, à esquerda, estão Janaína e Graça, perfumadas, acertando os ponteiros da vida e rindo das tragédias da Ladeira da Montanha. Graça, vez ou outra, olha para o céu, como se procurasse algo que não vem, depois volta os olhos para seu vestido roxo, passa a mão para tirar algumas migalhas que caíram no tecido, pensa que tudo o que não merece são migalhas.

Um pouco mais para dentro do salão da Fabrique estão André e Salu, este sentindo-se acanhado pelos dedos sujos de graxa, as roupas marcadas pelo trabalho. Tem uma vontade de fumar, mas vai esperar André falar tudo o que precisa, tudo o que guardou até ali, calado, todo o amor que quis ter e que sabe que agora terá.

Em um canto, há uma figura soturna, uma mulher bebendo vinho, tão cedo ainda. Ela parece chorar. À frente está uma cadeira vazia, ninguém virá, sabe que ninguém virá, ser mãe pode ser o avesso de um sonho.

No lado oposto, uma mulher sozinha dá seu nome para a atendente colocar na comanda. Ilana. Olha o cardápio e não sabe o que pedir. Gostaria que houvesse um bolo de barro, não há, obviamente. A vida deveria ser menos feita de saudade e ausência.

Todas essas pessoas notam quando Bethânia e Maria Fernanda se levantam para sair. Elas dão um abraço afetuoso antes de se despedirem, olham-se, profundas, sentem-se seguras porque o mundo todo é delas. E Aurora sorri porque também faz parte desse abraço e sabe, mesmo tão pequena, que o mundo será ainda mais, muito mais.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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