Do Micro Ao Macro
Raio X do consignado CLT: jovens já são 42% dos contratos, mas tomam valores baixos, mostra estudo
Estudo da fintech Bull mostra que jovens contratam valores menores e prazos mais curtos que trabalhadores acima de 45 anos.
Jovens de 18 a 34 anos já respondem por 42,4% dos contratos de consignado CLT firmados nos últimos 12 meses, mas tomam valores bem menores e por prazos mais curtos que trabalhadores acima de 45 anos. O tomador típico da modalidade tem 37 anos, e a maior faixa etária isolada é a de 35 a 44 anos, com 32,7% dos contratos.
A participação jovem, porém, não vem crescendo de forma constante: oscila entre 38% e 50% na maior parte do período analisado, com mínimo de 25% em maio de 2026, momento que coincide com a retração do mercado após a entrada em vigor do teto de juros do setor. Na série avaliada, não há alta confirmada de jovens no consignado.
Os dados fazem parte de levantamento da Bull, startup brasileira de soluções de crédito, sobre contratos de consignado CLT, modalidade de empréstimo para trabalhadores com carteira assinada em que as parcelas são descontadas direto do salário. A análise considera os contratos efetivados na carteira da empresa nos 12 meses encerrados em junho de 2026.
Consignado muda de perfil conforme a idade
A diferença mais relevante do estudo não está em quem contrata, mas em como cada faixa etária usa o crédito. Entre 18 e 24 anos, o ticket médio é de R$ 1.661, cerca de 50% menor que o da faixa de 45 a 54 anos, que contrata em média R$ 3.303, praticamente o dobro. Entre pessoas com 55 anos ou mais, o valor médio chega a R$ 3.452.
O mesmo padrão aparece no comprometimento da renda e no prazo. Entre os mais jovens, o valor contratado equivale a algo entre 23% e 27% de um salário mensal, com prazo típico de 12 meses. Nas faixas acima de 45 anos, esse percentual sobe para 33% a 38% da renda, com prazos de 18 a 24 meses. Quanto mais jovem o tomador, menor o valor, o comprometimento relativo e o prazo contratado.
Tempo de emprego atual costuma ser curto
O levantamento mostra ainda que 55,3% dos tomadores estão há menos de três anos na empresa em que trabalham hoje, e 19,8% deles há menos de um ano. Entre os trabalhadores de 18 a 24 anos, esse índice chega a 87%. O indicador mede o tempo no vínculo atual e funciona como aproximação da fase de carreira, não do tempo total de mercado de trabalho.
Varejo e funções operacionais concentram contratos
Por setor, varejo e comércio lideram, com 22,9% dos contratos, seguidos por indústria (19%) e por serviços administrativos e de terceirização (15,4%). Juntos, os três setores somam 57,3% das operações. Cada geração acessa o crédito pelo setor em que trabalha: a Geração Z aparece mais em varejo, alojamento e alimentação, enquanto a Geração X se concentra em terceirização e transporte. Entre as gerações, os millennials são maioria, com 53,8% dos contratos.
O crédito também está concentrado na base das empresas: 56,3% dos contratos são de funções operacionais e, somadas as técnicas, o índice sobe para 84,9% da carteira. As ocupações mais frequentes são auxiliar de limpeza, vendedor, assistente administrativo, operador de produção e técnico de enfermagem. O ticket médio cresce pouco conforme o nível hierárquico, de cerca de R$ 1.500 no operacional a R$ 2.350 na gestão, o que reforça tratar-se de um produto de base salarial, e não voltado a executivos.
Consignado ajuda na organização financeira
O perfil de uso é coerente com o que pesquisas de mercado apontam como principais motivações para contratar consignado: emergência financeira (27%) e quitação de dívidas (25%) respondem, juntas, por mais da metade dos casos. Essas motivações vêm de levantamentos de mercado sobre a modalidade, e não da base de dados da Bull, que reúne comportamento de contratação, valores, prazos, setores e faixas etárias.
Juliana Freitas, CEO da Bull, afirma: “Os dados mostram que trabalhadores mais jovens costumam contratar valores menores e prazos mais curtos, enquanto faixas etárias mais maduras recorrem a operações de maior valor e duração. Quando observamos pesquisas de mercado sobre consignado, é comum que esse comportamento esteja associado à reorganização financeira”.
A expansão do Crédito do Trabalhador, política lançada em março de 2025, ajuda a explicar o aumento no volume de contratos de consignado no país. Até janeiro de 2026, a modalidade superou R$ 101 bilhões em operações e 17 milhões de contratos, alcançando cerca de 8,5 milhões de trabalhadores CLT. Em abril de 2026 entrou em vigor o teto de juros do setor, e no mês seguinte as concessões de mercado recuaram cerca de 22,8% na comparação mensal, segundo dados do Banco Central.
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