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Autofagia eleitoral

Caiado, Zema e Renan Santos estão obrigados a avançar sobre a base bolsonarista

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Cenas da convenção do PL: a IA de Bolsonaro cria mais um problema eleitoral. A mensagem de Michelle se encaixa nas “mentiras sinceras” de Cazuza? Milei arrumou uma crise diplomática com o Brasil, enquanto certas ausências foram notadas no evento que ungiu Flávio Bolsonaro – Imagem: Beto Barata/Redes Sociais Partido Liberal e Nelson Almeida/AFP
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Às vésperas do fim do prazo para a realização das convenções partidárias que definem as candidaturas à Presidência da República, o antipetismo em todas as suas variações está escalado, na esperança de impedir o tetra de Lula. Apesar da causa comum e de uma agenda muito semelhante, o time vai entrar em campo rachado, desunido. E o motivo tem um nome, ou melhor, um sobrenome: Bolsonaro. O ex-presidente ungiu o primogênito Flávio a fim de manter a hegemonia da família no polo reacionário e, claro, livrar-se da condenação por tentativa de golpe de Estado. Em uma situação como essa, só se pode, no fundo, confiar em laços de sangue. Ronaldo Caiado, do PSD, Romeu Zema, do Novo, e Renan Santos, do Missão, desafiam, no entanto, o bolsonarismo, convencidos de que o filho “zero um” é um competidor frágil demais para terminar a campanha de pé.

O quarteto anti-Lula repisa a mesma ladainha contra o presidente e sua administração: o PT tem projeto de poder, não de País, o governo gasta muito e mal, a corrupção e a criminalidade correm soltas, o tarifaço de Donald Trump é culpa nossa, não dos Estados Unidos. Não é muito provável que Flávio, ­Caiado, ­Zema e Santos tomem eleitores do petista. E como, segundo as pesquisas, são poucos os indecisos, menos de 5%, o que está em jogo são os votos de gente desgostosa com o governo ou decididamente de oposição. Ou seja, todos pescarão no mesmo aquário. É um dos motivos para a possibilidade de inexistir debate presidencial digno do nome na campanha. Do ponto de vista de Lula, não há motivo para participar, seria ficar na linha de tiro de todos os outros. E, sem o petista, quem não tem razão para dar as caras é Flávio, que, aliás, desmaiou em um debate na tevê ao concorrer a prefeito do Rio de Janeiro em 2016. Segundo Valdemar Costa Neto, presidente do PL, não faz sentido o senador duelar com concorrentes nanicos, pois, no cenário atual, a disputa se dará entre ele e Lula.

Caiado chama Flávio de Kinder Ovo, Zema atua como linha-auxiliar e Santos quer ser o outsider – Imagem: Agência Foto Notícia e Washington Costa/Ministério da Fazenda

Costa Neto é de uma sinceridade constrangedora ao comentar o quadro eleitoral. Já disse que Flávio não estava preparado para ser candidato. Que ele e a madrasta precisam parar de brigar, pois desestimulam a militância bolsonarista e entusiasmam o PT. Que sem o engajamento de Michelle, do deputado mineiro Nikolas Ferreira e do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, o filho “zero um” não vence. O trio não tem feito força pelo presidenciável. Que sem o triunfo do senador, tão cedo o pai não sai da prisão e o irmão Eduardo não volta dos Estados Unidos. A portas fechadas, comentou, dias antes da convenção do PL que lançou a candidatura de Flávio, preferir uma chapa encabeçada pelo senador potiguar Rogério Marinho, ex-ministro de Bolsonaro, com Michele na vice. A propósito: Costa Neto acaba de chamar Gilberto Kassab, manda-chuva do PSD e vice de Caiado, de “desclassificado”, mas a explicação não é eleitoral, vem de uma apuração do Supremo Tribunal Federal sobre controle de emendas parlamentares por caciques partidários sem mandato. O liberal foi pego pela Polícia Federal a administrar verba de emendas e disse que todas as legendas fazem isso, explicação negada por Kassab.

O cenário de quatro antipetistas contra Lula na eleição cria uma situação paradoxal, na avaliação de Bruno P. W. Reis, presidente da Associação Brasileira de Ciência Política e professor da Universidade Federal de Minas Gerais. “O Lula pode ganhar no primeiro turno, embora em um segundo turno a disputa venha a ser apertada, não há expectativa de que ele ganhe muitos votos”. Segundo Reis, a única chance de Caiado, Zema e Santos estarem em um duelo final contra o atual presidente seria Flávio sair de cena por ordem do pai, em uma articulação que passaria pela promessa de anistia ao capitão, condenado a 27 anos de prisão. Caiado e Zema topam o indulto. Santos não, é quase tão mordaz em relação ao bolsonarismo quanto o é com o lulismo. Sustenta inclusive estar à direita de Flávio. A desistência do “zero um” é para lá de improvável, prossegue Reis. “A política é o ganha-pão da família. Eles vão ­disputar eleição agora, em 2030, 2034… Há todo um patrimônio acumulado na política pela família”, diz o professor.

“A política é o ganha-pão” do clã Bolsonaro, ressalta o cientista político Bruno Reis

Bolsonaro e Eduardo, deputado cassado no ano passado por excesso de faltas em Brasília, estão inelegíveis, o resto do clã pode concorrer à vontade, embora Flávio seja alvo de um processo no Supremo por calúnia contra Lula e, na hipótese de condenação, a inelegibilidade será um fantasma. Carlos, o filho “zero dois” e vereador no Rio há 25 anos, disputará o Senado por Santa Catarina. Jair Renan, vereador de primeiro mandato em Balneário Camboriú e caçula do capitão, pretende ser deputado. Michelle­, esposa atual e ainda sem experiência nas urnas, deve se candidatar ao Senado por Brasília. Rogéria Bolsonaro, a primeira das três mulheres do capitão e vereadora na capital fluminense de 1993 a 2000, tentará a Câmara dos Deputados pelo Rio. A ideia dela e do filho Flávio era outra: suplente na chapa ao Senado de um político do União Brasil, ­Márcio ­Canella, ex-prefeito de Belford Roxo. A rota mudou após Canella dormir umas noites na cadeia em julho por ter sido apanhado com um fuzil.

A carreira política fez bem ao bolso do clã, há vários milionários ali. É possível consultar no site do Tribunal Superior Eleitoral o patrimônio de políticos que disputaram cargos eletivos desde 2006. Naquele ano, Bolsonaro era deputado­ e tinha 400 mil reais declarados. Em 2022, o total chegou a 2,3 milhões. Carlos passou de 260 mil em 2008 para 1,9 milhão em 2024. Eduardo possuía 200 mil ao eleger-se deputado em 2014 e, oito anos depois, 1,7 milhão. Esta quantia foi informada na eleição ao Senado em 2018, a última disputada por ele. O “zero um” havia chegado à Assembleia Legislativa do Rio em 2003 e, na campanha de 2006, possuía 380 mil reais. E na de agora, quanto declarará ao TSE? Durante o governo do pai, comprou uma casa de 6 milhões de reais em Brasília.

Lula joga parado. As visões de Nunes Marques e Moraes vão definir os rumos da Justiça Eleitoral – Imagem: Redes Sociais STF e Ricardo Stuckert/PR

Julian Lemos, um dos coordenadores da campanha de Bolsonaro em 2018 e rompido com o clã, diz que Flávio enriqueceu com o capitão no poder e juntou 600 milhões de reais, no mínimo. Eduardo teria alcançado sucesso semelhante e acumulado 150 milhões. O “zero três” está em autoexílio nos EUA desde o ano passado, mora em uma casa confortável pela qual diz pagar aluguel. Seu dinheiro seria fruto de ganhos no mercado financeiro graças a 2 milhões de reais enviados pelo pai quando do autoexílio, afirma. A quantia saiu de uma vaquinha entre apoiadores que rendeu 19 milhões a Bolsonaro entre 2023 e 2024. Há a suspeita de que a vida mansa de Eduardo nos States seja bancada com grana do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do finado Master. A Polícia Federal acaba de abrir um inquérito, com aval do Supremo, para investigar repasses de Vorcaro para financiar o filme Dark Horse, cinebiografia sobre Bolsonaro. Esses recursos foram parar nos EUA quando Eduardo já morava lá.

A revelação do financiamento, descoberto em um áudio de Flávio a Vorcaro, provocou um ataque especulativo contra o plano presidencial do senador por parte da concorrência. Era o mês de maio e o “zero um” estava cabeça a cabeça com Lula nas pesquisas. Em um levantamento do Datafolha de abril, havia empate técnico entre os dois, dentro da margem de erro, tanto no primeiro turno (39% a 35% para o petista) quanto no segundo (46% a 45% para o “zero um”). Idem na rejeição (48% de Lula e 46% de Flávio). O caso Master e a forma mentirosa de Flávio lidar com a crise assanharam os demais presidenciáveis do campo antipetista que imaginaram ser capazes de roubar o posto de principal “anti-Lula” e passaram a fustigar o filho do capitão, a apontar suas debilidades, a conjecturar que mais rolos dele viriam à tona. A crise do financiamento de Vorcaro foi seguida de mais dois dissabores: o “tarifaço 2” de Trump e a briga com a madrasta. A maré não foi suficiente para implodir suas chances, mas o distanciou de Lula, eliminou o empate técnico. No Datafolha de 24 de julho, Flávio aparece com 32% no primeiro turno (ante 40% de Lula) e 43% no segundo (48% do presidente). Os índices de rejeição inverteram-se, o senador pior do que o petista.


O telhado de vidro e o ataque especulativo serviram ainda para afastar da canoa bolsonarista os partidos do “Centrão”, alcunha imprecisa para um bloco político clientelista e no fundo ultradireitista. Na prática, significa menos tempo de propaganda na tevê para Flávio. Na campanha passada, o pai tinha o PP e o Republicanos na coligação do PL. Agora o PP está associado ao União Brasil e nenhum deles vai apoiar um presidenciável. A preferência é por ampliar a bancada no Congresso. É o que também explica o fato de Caiado ter um companheiro de chapa do próprio partido, Kassab, e para que o mesmo aconteça no caso de Zema, do Novo. O Republicanos ainda não havia tomado uma decisão até a conclusão desta reportagem, na manhã de 30 de julho. Pertence à legenda o nome predileto de Flávio para a vice, a economista Daniella Marques. Negociações de alianças regionais ainda podiam levar a um casamento de conveniência até o prazo final das convenções partidárias, 5 de agosto. “Flávio não foi a melhor escolha, mas é o que temos para hoje”, declarou sem um pingo de entusiasmo o presidente do Republicanos, Marcos Pereira, a uma rádio em 22 de julho.

“Bolsonaro quer impedir a direita de substituí-lo como anti-Lula, não quer ganhar com outro nome, prefere perder com o próprio”, diz o cientista político e historiador Christian Lynch, do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Depois da primeira vitória do petista, em 2002, diz Lynch, todas as campanhas viram a busca de um “anti-Lula”, e o mais bem-sucedido no figurino foi o capitão. Este até reproduziria certos traços do petista, como o carisma, em um espelho invertido. Flávio não tem programa de governo ainda, teoriza o acadêmico, pois vai pegar o de Lula e prometer o contrário. O bolsonarismo pode adotar uma atitude hegemonista no campo reacionário, pois conta com um piso de votos maior do que aquele da concorrência, “uns 15% de fanáticos”, segundo Lynch. “A direita é refém do bolsonarismo faz tempo, o Bolsonaro ­sequestrou-a­ no início do governo dele, todos os que tentaram ter vida própria foram destruídos, igual o Trump faz nos EUA”, afirma.

Marcos Pereira, do Republicanos: “Flávio não foi a melhor escolha, mas é o que temos para hoje”

“A eleição de agora é uma prévia de 2030, por isso não existe união na direita. É um termômetro nesse campo e na comparação com o lulismo”, diz a cientista política Lilian Sendretti, pesquisadora do Cebrap, o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento. A propósito: um analista político de um grande banco diz que o “mercado” pensa dia sim outro também no “pós-Lula” e que para 2030 a aposta seria em Tarcísio de Freitas. Segundo Sendretti, para quem o bolsonarismo tem pretensão hegemonista desde 2018, a campanha no primeiro turno deste ano vai mostrar uma disputa sobre quem representa melhor esse espectro. Com uma peculiaridade: Caiado, Zema e Santos concentrarão críticas em Flávio, não no pai. Não significa, porém, que dará­ certo, pelo fato de o senador carregar o sobrenome “Bolsonaro”, que é popular e aglutinador de várias forças anti-Lula, daí a resiliência do “zero um” nas pesquisas apesar das crises. “Caiado e Zema podem também levantar a bandeira de uma direita moderada e dizer que já foram governadores, têm um legado, enquanto o Renan vai ressaltar que é o único diferente, de fora do ‘sistema’”, afirma.

Na convenção do PSD, Caiado ressaltou sua gestão em Goiás nos últimos oito anos, reclamou da “polarização” entre bolsonarismo e lulismo e criticou igualmente o presidente e o “zero um”. Convencido de que o caso Master sepultou as chances de Flávio e fez deste o rival ideal do petista, Caiado, direitista fora do armário há tanto tempo quanto Jair, guardou palavras especiais para o senador. “É o candidato Kinder Ovo, uma surpresinha todo dia”, declarou na convenção. “Vocês já viram frango de granja, aqueles candidatos que não têm como explicar qualquer coisa, que falam assim, ‘eu chamo o papai, vou ler uma carta dele’? (…) Não, o Caiado é galo de terreiro.” Quando da revelação dos laços de Flávio e Vorcaro, Zema havia classificado de “imperdoável” a relação. Depois amansou, o Novo, sua sigla, depende de alianças estaduais com o PL para superar a cláusula de barreira e eleger deputados. Na convenção, limitou-se a criticar Lula e o Supremo e a exaltar a própria experiência administrativa em Minas Gerais em oito anos. Funcionou como linha-auxiliar do bolsonarismo, do qual dependeu para chegar a governador em 2018.

Trump e Netanyahu fazem parte do dream team de apoio internacional ao filho 01 – Imagem: Chip Somodevilla/Pool/AFP

E Renan Santos? Tem apontado o isolamento político de Flávio e um discurso de uma nota só do rival, o medo da permanência de Lula. Ele atacou o senador por causa da recente reunião com embaixadores estrangeiros na qual o “zero um” pôs em dúvida a confiança das urnas eletrônicas, uma estratégia do pai em 2022. É como escreveu certa vez um blogueiro da extrema-direita norte-americana, Curtis Yarvin, codinome Mencius Moldbug, conforme relatado no livro Os Engenheiros do Caos: “Por vários ângulos, o absurdo é uma ferramenta organizacional mais eficaz que a verdade (…) Qualquer um pode crer na verdade, enquanto acreditar no absurdo é uma real demonstração de lealdade – e que possui um uniforme, e um exército.” Isolado e com a necessidade de juntar a tropa para seu clã não perder a hegemonia no direitismo, Flávio recorreu ao absurdo e à mentira.

Lilian Sendretti, do Cebrap: “A eleição de agora é uma prévia de 2030”

Na convenção, apelou a Javier Milei, presidente argentino, que estava no palco, e a Benjamin Netanyahu, premiê de Israel, que apareceu em um vídeo. Flávio, Trump, Milei e Bibi: “o dream team” para Lula enfrentar nas urnas, comenta com ironia um colaborador presidencial. No evento do PL, Milei causou uma crise diplomática, que o governo brasileiro tenta atenuar de forma a não contaminar as relações econômicas entre as duas nações no Mercosul. O “libertário” insultou Lula (“presidiário”) e Alexandre de Moraes (“lixo careca”), juiz do Supremo. Foi denunciado à Justiça argentina por advogados de lá, por gastar verba pública em uma viagem de interesse particular. Aqui, o PT quer que o Ministério Público Eleitoral investigue se dinheiro estrangeiro bancou a convenção liberal, ato ilegal. Na volta Buenos Aires, Milei afirmou, sem provas, que o governo brasileiro financiou uma campanha midiática contra a Argentina após a Copa. “Ele está com problemas internos e tentou mudar de assunto. Sabia que os peronistas iam sair em defesa do Lula e que há um sentimento anti-Argentina aqui no Brasil visto na Copa. Para ele foi bom, para o Flávio foi um desastre”, diz Lynch.

O governador de São Paulo,Tarcísio de Freitas, preferido do mercado para 2030, tem dispensado um apoio calculado a Flávio – Imagem: Sergio Lima/AFP

A presença de Bolsonaro na convenção do PL, por meio de um vídeo feito por inteligência artificial, tem chance de terminar em “desastre” também. Pode ser caracterizada como um desafio do clã às restrições impostas pelo Supremo ao capitão no cumprimento da pena. Se o condenado sabia do vídeo, violou as restrições e poderá ser obrigado a deixar a prisão domiciliar e voltar à cela comum. Se não sabia, aí foi Flávio quem infringiu normas do TSE que proíbem as chamadas deepfakes, simulações da realidade feitas via computação. Alexandre de Moraes cobrou explicações da defesa do ex-presidente: ele sabia do uso do vídeo e autorizou? Os advogados disseram que não. O PT provocou o TSE. O presidente do tribunal, Kassio Nunes Marques, e o vice, André Mendonça, chegaram ao STF pelas mãos de Jair e é a cadeira deles no Supremo que os catapulta à Corte eleitoral. Há no STF, porém, quem esteja a, digamos, vigiar Marques, para que este não jogue a favor do clã do padrinho durante as eleições. •

Publicado na edição n° 1424 de CartaCapital, em 05 de agosto de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Autofagia eleitoral’

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